Belém do Pará se transforma, a partir desta segunda-feira (10), no epicentro do debate global sobre o futuro do planeta. A COP30, 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, marca um momento histórico: é a primeira vez que o evento acontece na Amazônia, o bioma mais simbólico na luta contra o aquecimento global.
Durante duas semanas, delegações de quase 200 países, além de cientistas, ambientalistas, povos indígenas, CEOs e chefes de Estado, vão discutir como conter a crise climática e acelerar a transição para uma economia mais verde.
Um encontro decisivo para o planeta
O mundo chega à COP30 sob sinais de alerta. O ano de 2025 deve terminar entre os três mais quentes da história, segundo o observatório europeu Copernicus. Outubro registrou temperatura média global de 15,14°C, 1,55°C acima do período pré-industrial. No Brasil, o aumento da frequência de tornados e secas prolongadas mostra que o clima já está mudando, e rápido.
Com esse cenário, Belém se torna palco de negociações cruciais. O objetivo é sair do discurso e partir para a ação, transformando promessas políticas em compromissos concretos, com metas e financiamento definidos.
“Estamos diante de uma última janela de oportunidade. Não há segunda chance”, alertou Carolina Pasquali, diretora do Greenpeace Brasil.
O que é a COP e por que ela importa?
A sigla COP vem do inglês Conference of the Parties — Conferência das Partes. Ela reúne os 197 países signatários da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, assinada no início dos anos 1990.
Desde 1995, a conferência é realizada todos os anos (com exceção de 2020, por causa da pandemia) e tem o mesmo objetivo: encontrar formas de reduzir as emissões de gases de efeito estufa e frear o aquecimento global.
A COP30, portanto, é mais que uma reunião diplomática. Ela é vista como a “COP da implementação”, quando decisões passadas, como o acordo da COP28 em Dubai, precisam, enfim, se transformar em políticas reais.
Os principais temas em debate
As negociações em Belém giram em torno de três eixos centrais:
Transição energética – O Brasil quer liderar um “mapa do caminho” para substituir combustíveis fósseis por fontes renováveis, com prazos e responsabilidades definidos.
Adaptação climática – Os países precisam medir e fortalecer suas ações para lidar com os impactos do aquecimento global.
Financiamento climático – O maior impasse: como mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para financiar ações de mitigação e adaptação.
Também estão em pauta o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), proposta brasileira que usa investimentos de renda fixa para gerar recursos à conservação, e temas como mercado de carbono, racismo ambiental e justiça climática.
“A ambição não pode se limitar à mitigação. Sem recursos, tudo vira discurso”, pontuou Vaibhav Chaturvedi, pesquisador do CEEW.
Quem comanda os bastidores da COP30
O embaixador André Corrêa do Lago é o presidente oficial da conferência e responsável por mediar negociações entre mais de 190 países, uma tarefa que exige habilidade política e diplomática.
Ao seu lado, Ana Toni, diretora-executiva da COP30, coordena toda a estrutura do evento, garantindo que os temas prioritários avancem dentro do cronograma.
Os bastidores são intensos: reuniões técnicas, encontros ministeriais e decisões de alto nível se estendem até a madrugada. Cada documento precisa ser revisado, negociado e aprovado por consenso antes do encerramento.
O papel do Brasil e a aposta de Lula
Para o governo Lula, a COP30 é uma vitrine internacional. O presidente quer mostrar o Brasil como mediador entre países ricos e em desenvolvimento e protagonista da transição energética justa.
Uma das apostas é o Compromisso de Belém pelos Combustíveis Sustentáveis (Belém 4X), criado por Brasil, Itália e Japão, que pretende quadruplicar o uso global de combustíveis sustentáveis até 2035.
O país também defende o TFFF como uma nova forma de financiamento permanente para a preservação das florestas tropicais, um modelo que já atraiu US$ 5,5 bilhões em promessas de investimento.
Apesar disso, o governo enfrenta críticas de ambientalistas, principalmente após autorizar novos blocos de petróleo na Margem Equatorial poucos dias antes da conferência.
“Lula acerta ao colocar a transição energética no centro do debate, mas precisa alinhar discurso e prática”, observa Cláudio Ângelo, do Observatório do Clima.
O que o mundo espera de Belém
A comunidade internacional espera que a COP30 marque o início de um novo ciclo de ambição climática. Isso significa:
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Metas mais fortes de redução de emissões até 2035;
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Mapas de ação claros para a transição energética;
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Recursos garantidos para adaptação e mitigação.
Atualmente, as metas apresentadas pelos países cobrem apenas 30% das emissões globais, o que levaria a uma queda de apenas 4% até 2035, muito abaixo dos 60% necessários para limitar o aquecimento a 1,5°C.
“Discursos não bastam. É hora de transformar compromissos em ação”, reforça Márcio Astrini, do Observatório do Clima.
Momento histórico
Mais do que uma conferência, a COP30 é um teste de maturidade global. O que sair das negociações em Belém pode determinar o rumo das próximas décadas, e o futuro das próximas gerações.
Se o planeta vai conseguir limitar o aquecimento global a 1,5°C, as respostas começarão a ser escritas na Amazônia.
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