Medidas de precaução para preservar a saúde são importantes no dia a dia, mas ganham destaque especial durante o carnaval. Nesse período de celebração intensa, a animação e a energia se elevam, acompanhando os desfiles e blocos pelas cidades.
A nutricionista Anete Mecenas, coordenadora do curso de Nutrição da Universidade Estácio, enfatiza que os foliões passam longos períodos expostos ao sol e ao calor. Por isso, a hidratação adequada é crucial para repor os líquidos perdidos, com a recomendação de ingerir ao menos dois litros de água diariamente.
Hidratação e alimentação: pilares da saúde no carnaval
“O foco deve ser o aumento da ingestão de água, água de coco e bebidas isotônicas, que ajudam a prevenir o mal-estar causado pela desidratação. Outro ponto fundamental é não pular refeições, evitando longos períodos em jejum, pois isso pode levar à queda da glicemia e causar tontura. É essencial manter uma rotina de refeições leves e regulares”, aconselha Mecenas.
Ela sugere opções como iogurtes, frutas, sanduíches naturais, castanhas e barras de cereais orgânicas com menos aditivos. “É importante variar esses lanches e não ficar muitas horas sem comer, para evitar tontura e hipoglicemia”. A nutricionista também recomenda priorizar alimentos de fácil digestão, fugindo de maioneses devido ao risco de contaminação e conservação inadequada.
É preciso estar atento a alimentos de procedência duvidosa ou conservados em temperaturas impróprias. Sanduíches mantidos em caixas de isopor por tempo prolongado ou espetinhos vendidos na rua com carnes expostas ao calor podem aumentar o risco de infecções intestinais e gastroenterites.
Alimentos ultraprocessados, ricos em gordura, sódio e açúcar, também devem ser evitados. “São refeições que, embora possam ter uma absorção rápida, não oferecem nutrição adequada. Quando a pessoa está desidratada, consumindo álcool e excesso de açúcar e gordura, a digestão tende a ficar mais lenta, podendo causar picos de glicemia seguidos de quedas. Além disso, corantes e conservantes podem gerar distúrbios gastrointestinais e desconforto, sem fornecer nutrientes essenciais”.
Por isso, a recomendação é dar preferência a alimentos minimamente processados, como frutas, verduras e legumes. Sempre que possível, opte por uma refeição mais completa.
“É preferível ir a um restaurante e comer arroz, feijão, legumes cozidos e frango, em vez de consumir um pacote de biscoitos ou uma lasanha congelada. Essas refeições são mais leves, nutritivas e contribuem para um maior equilíbrio”, explica a nutricionista.
Em relação ao consumo de álcool, Anete Mecenas aconselha intercalar com água para evitar a desidratação e não beber em jejum, o que pode intensificar o desconforto. Para a recuperação pós-folia, sugere uma dieta rica em proteínas (frango, peixe), verduras, legumes e frutas, a fim de repor vitaminas, minerais e auxiliar na reparação tecidual e no restabelecimento do equilíbrio geral da saúde.
Controle de danos no carnaval
O cirurgião gastroenterologista Rodrigo Barbosa, do corpo clínico do hospital Sírio Libanês, corrobora que a hidratação funciona como um “controle de danos”, especialmente durante o carnaval, período que combina fatores de risco como privação de sono, exposição intensa ao calor e sol, consumo de álcool e alimentação irregular. Isso é particularmente relevante para quem participa ativamente de blocos de rua, exposto a alimentos potencialmente contaminados, “muito comuns nas barraquinhas aqui no nosso Brasilzão”, observa.
“Os prontos-socorros recebem muitos casos todos os anos: diarreia, vômito, desidratação, refluxo intenso, crises severas de gastrite e, frequentemente, hepatites alcoólicas, que são mais comuns nessa época”, relata.
Barbosa afirma que muitas dessas situações podem ser evitadas com medidas preventivas.
O aspecto mais crítico, segundo o cirurgião, é a hidratação. A perda de líquidos pelo suor, o consumo de álcool e longos períodos em pé reduzem o fluxo sanguíneo gastrointestinal, favorecendo constipação, dor abdominal e queda da imunidade.
“Beber bastante água ao longo do dia é fundamental. Existe um mínimo recomendado de 35 ml de água por quilo de peso, que deve ser o mínimo absoluto para qualquer pessoa, especialmente em situações de risco de desidratação”, orienta.
O médico reforça a dica da nutricionista sobre intercalar a ingestão de água com bebidas alcoólicas. “Ao consumir uma cerveja ou um drinque na praia, intercale com água, pois isso ajuda a manter a hidratação celular. Ingerir uma bebida isotônica também é benéfico, pois garante o equilíbrio eletrolítico, especialmente em casos de diarreia ou fezes mais soltas.”
Para o cirurgião, o álcool é o principal irritante da mucosa gástrica, aumentando o risco de gastrite e refluxo, alterando a motilidade intestinal e facilitando a entrada de infecções. Ele alerta para o consumo de bebidas de procedência duvidosa vendidas em blocos. “Essas bebidas não vêm de distribuidores legais, e sua origem é incerta. Ter atenção ao que e onde se bebe é muito importante, pois intoxicações por metanol podem ter consequências gravíssimas”, adverte.
O folião também deve priorizar o sono. “Muitas vezes, a vontade de ir a todas as festas possíveis leva ao consumo excessivo de álcool sem o devido descanso. A falta de sono aumenta a permeabilidade intestinal e pode desencadear problemas de saúde.”
Barbosa também ressalta a importância de ter cautela com o uso excessivo de medicamentos, especialmente anti-inflamatórios e antiácidos. “Anti-inflamatórios podem causar úlceras, agravar gastrites e provocar sangramentos digestivos. Antiácidos, por sua vez, podem mascarar esses sintomas, levando a um agravamento do quadro”. Ele enfatiza a necessidade de procurar um pronto-socorro em caso de sintomas preocupantes, em vez de normalizá-los como algo comum do carnaval.
“Se a diarreia persistir por mais de 48 horas, ou se houver vômitos, febre, sangue nas fezes ou dor abdominal em progressão, procure um pronto-socorro imediatamente. Em alguns casos, é necessário hidratação intravenosa, antibióticos ou outros tratamentos para controlar os sintomas e evitar complicações”, conclui.
Complicações cardiovasculares no calor do carnaval
O cardiologista Leandro da Silva Elias, médico emergencista e professor do Instituto de Educação Médica (Idomed), destaca que o calor intenso, característico do carnaval, pode sobrecarregar o coração e o sistema circulatório, elevando o risco de problemas cardiovasculares.
O corpo trabalha mais para dissipar o calor e manter a temperatura corporal estável. Os efeitos mais comuns das altas temperaturas incluem aumento da frequência cardíaca, queda da pressão arterial, desidratação, desequilíbrio eletrolítico, maior esforço cardíaco e risco aumentado de coágulos e acidente vascular cerebral (AVC).
Grupos de maior risco incluem crianças, bebês, idosos e pessoas com comorbidades como obesidade, diabetes, doenças cardíacas e renais crônicas. “Esses indivíduos necessitam de cuidados redobrados.”
A desidratação é um dos perigos mais significativos, segundo Elias. “Nosso sistema cardiovascular é muito afetado pela perda de líquidos, com repercussões importantes. Associada ao consumo de álcool, a desidratação pode se agravar, desencadeando arritmias, desmaios e tonturas, quadros que podem levar o folião ao hospital.”
O suor excessivo pode ser um sinal de alerta, assim como tonturas, falta de ar e cansaço incomum. “Alguns pacientes chegam a desmaiar mesmo sem histórico de hipotensão”. O cardiologista reitera que, ao sentir dor de cabeça, sensação de desmaio ou tontura, é fundamental que o folião preste atenção e aumente a ingestão de líquidos.
O médico explica que, sob calor intenso e exposição solar, o indivíduo pode sofrer insolação, ou golpe de calor. Trata-se de uma condição grave, resultante da exposição prolongada ao calor e à radiação solar, quando o corpo perde a capacidade de regular sua temperatura. Nesses casos, a temperatura corporal pode ultrapassar 40°C, levando a danos cerebrais, falência de órgãos e, se não tratada rapidamente, até mesmo à morte.
O médico também alerta para o uso de drogas durante o carnaval.
“Sabemos que, apesar de prejudicial, muitos foliões utilizam drogas nesse período festivo. Isso afeta significativamente o coração e pode aumentar as palpitações. Combinado à desidratação, pode acelerar o quadro. O uso de drogas no carnaval é uma realidade que causa grandes prejuízos à saúde do folião, exigindo muita cautela”, recomenda o médico.