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Segunda-feira, 20 de Abril 2026

Direitos Humanos

Operações policiais na Maré resultaram em 160 mortes em uma década

Estudo revela que ações policiais levaram ao fechamento de escolas por 163 dias, o que equivale a quase um ano letivo perdido.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Operações policiais na Maré resultaram em 160 mortes em uma década
© Fernando Frazão/Agência Brasil
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O projeto De Olho na Maré documentou que, entre 2016 e 2025, foram realizadas 231 operações policiais no complexo de 15 favelas, resultando em 160 fatalidades e 1.538 incidentes de violência e violação dos direitos dos residentes, incluindo ameaças, tortura e cárcere privado.

Os dados integram a 9ª edição do Boletim Direito à Segurança Pública na Maré 2025. O relatório apresenta um histórico contínuo de monitoramento independente da segurança pública, com informações locais coletadas pelo Eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça da Redes da Maré. O estudo também detalha os efeitos da violência armada em direitos fundamentais dos moradores, como educação e saúde, que, segundo a Redes da Maré, são "desrespeitados de forma recorrente".

Impactos na educação e saúde

A pesquisa aponta que as incursões policiais provocaram o fechamento de unidades escolares públicas por 163 dias. Essa interrupção representa a perda de aproximadamente um ano letivo na trajetória educacional de crianças e adolescentes da Maré.

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No setor de saúde, o fechamento de unidades de atendimento por 14 dias no ano passado impediu a realização de 7.866 acompanhamentos. Conforme o levantamento, em 2025 ocorreram 16 operações policiais na Maré, com um saldo de 12 mortes.

Tainá Alvarenga, coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, explicou que as informações coletadas entre 2016 e 2025 auxiliam na ativação de mecanismos de instituições como o Ministério Público Federal e organizações internacionais como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para a formulação de ações.

Em agosto de 2024, o MPF no Rio de Janeiro questionou o Ministério da Educação sobre diretrizes nacionais para lidar com os efeitos das operações policiais na educação, incluindo a reposição de dias letivos perdidos. Em resposta, em janeiro de 2025, o Conselho Nacional de Educação estabeleceu o Fórum pelos 200 dias letivos e a Comissão Permanente de Acompanhamento da Obrigatoriedade de Cumprimento dos 200 Dias Letivos, da qual a Redes da Maré faz parte.

Alvarenga revelou que estudos da Rede da Maré evidenciaram o impacto da violência armada na saúde mental. No ano passado, em colaboração com o Unicef, foi comprovada a influência nos indicadores de cobertura vacinal de crianças de zero a seis anos, apesar da maioria das famílias da região ser a favor da vacinação.

"Noventa por cento da população da Maré tem a carteirinha da vacina, então está democratizada a importância da imunização. Em dia de operação, a cobertura cai. Dependendo do período de aulas que a criança perde, isso não vai ser reposto", declarou em entrevista à Agência Brasil.

Eliana Sousa Silva, diretora da Redes da Maré e pesquisadora em segurança pública, afirmou que os dados referentes à década de monitoramento demonstram "um padrão de violência que se repete ao longo dos anos e que produz impactos profundos no cotidiano da vida das populações de favelas".

"Além das mortes e das violações diretas que ocorrem, há um ciclo e a naturalização sobre a interrupção de serviços públicos relacionados aos direitos mais básicos que deveriam ser garantidos, mas que não acontecem quando se trata de moradores de favelas", acrescentou.

Segundo o projeto De Olho na Maré, em 2025 o cotidiano dos moradores também foi afetado por ações de grupos armados na região.

"Foram 11 mortes, além de registros de violência física, psicológica e verbal, ameaças, deslocamentos forçados, invasões de escolas e 141 registros de tiros", detalha o levantamento.

O acompanhamento contínuo da violência armada na Maré, realizado ao longo de dez anos, é um marco para o eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça. Representa, conforme o relatório, um feito singular ao registrar confrontos e operações policiais no território, com uma equipe local e metodologia própria de uma favela. "E assim produzir evidências sobre a negligência do Estado na garantia do direito de populações empobrecidas à segurança pública".

Na visão da coordenadora do eixo Direito à Segurança Pública e Acesso à Justiça, Tainá Alvarenga, um dado que se destacou no período de dez anos foi o elevado número de operações policiais com poucas perícias no local. Das 160 mortes registradas, apenas 16 tiveram o serviço realizado e somente uma resultou em denúncia formal. "O Estado não conseguiu garantir a perícia de local, a preservação da cena de crime e muito menos a denúncia desses casos", apontou.

O discurso oficial, observou, é que áreas como o conjunto de favelas da Maré são instáveis, mesmo durante operações policiais com grande efetivo no território.

"O que a gente vem observando como padrão é a não preservação da cena do crime por esses agentes de segurança presentes nas operações policiais, a não entrada das instituições responsáveis pela perícia de local, com o discurso de que esses territórios são instáveis, não estão estabilizados, na verdade", declarou.

Outro dado relevante apontado por Tainá é que, apesar de ter um número menor de operações em 2025 em comparação com outros anos, o indicador de letalidade foi maior.

Enquanto no ano passado ocorreram 16 operações, em 2024 foram 42. Embora à primeira vista os números possam sugerir uma redução nas intervenções policiais, a análise não se sustenta.

"Mesmo com menos operações, 12 pessoas foram mortas, elevando a letalidade proporcional em 58% em relação a 2024, quando houve mais operações, porém, com menor letalidade relativa", argumentou a Redes da Maré.

Para a organização, isso indica que cada operação policial em 2025 teve uma probabilidade maior de resultar em morte. "Não houve redução do risco para os moradores, houve concentração da violência. O que se observa é um padrão já conhecido na Maré: operações menos frequentes, mas mais agressivas, com uso intensivo de armamento pesado, incursões prolongadas e lógica de confronto direto em áreas densamente povoadas".

Esse cenário, segundo a Redes da Maré, está alinhado ao quadro estadual. Informações do Instituto de Segurança Pública (ISP) em 2025 indicam o registro de 797 mortes causadas por intervenção policial, um aumento de 13% em comparação com 2024. "No mesmo período, também cresceu o número de policiais mortos, indicando que a intensificação da letalidade não produziu maior proteção nem para a população civil, nem para os próprios agentes de segurança".

Uso de helicópteros

Outro dado que chama a atenção é o uso frequente de helicópteros como plataforma de tiro, como ocorreu em 2025. Das 16 operações policiais realizadas na Maré ao longo do ano, em oito delas houve a utilização de aeronaves, e em quatro elas foram empregadas como plataforma de tiro. "O trabalho de campo da equipe da Redes da Maré registrou ao menos 308 marcas de tiros espalhadas pelas ruas após as operações".

Tainá Alvarenga destacou um dado alarmante: em apenas uma operação, foi possível identificar mais de 200 tiros disparados por helicópteros em áreas próximas a escolas e clínicas da família. "O que a gente vem acompanhando, nesses últimos anos também, é que as operações que se utilizam desse aparato bélico, que deveria ser para o uso da inteligência das forças de segurança, acaba impactando a dinâmica da vida dos moradores. Quando tem operações com helicópteros, a gente também identifica aumento da letalidade", comentou.

Políticas públicas

De acordo com a coordenadora, a experiência prática demonstra que as informações coletadas podem ser valiosas para a formulação de políticas públicas. "A diferença de ter um trabalho de base comunitária, territorializado colhendo, quase em tempo real, informações, provas e evidências dessas dinâmicas de operação, se a gente tivesse um estado que reconhecesse essa potência da população da Maré e da nossa experiência, poderia incidir mesmo para mitigar o padrão de violações que acontece há décadas", defendeu.

Apesar dos aspectos negativos decorrentes dessas situações recorrentes no estado do Rio de Janeiro, a coordenadora vislumbra um futuro promissor.

"A gente vê que é algo que se repete, mas apesar da frustração e da indignação, tem também a esperança de que a mobilização, a geração cidadã de dados, a produção de conhecimento, sobretudo que venha desses territórios, dessas populações, da sociedade civil, sejam grande mote de enfrentamento do que a gente vê ocorrendo há décadas no estado do Rio", afirmou em entrevista à Agência Brasil.

Lançamento do boletim

Tainá Alvarenga informou que, após o lançamento do boletim na próxima terça-feira (24), durante o 3º Congresso Internacional Falando sobre Segurança Pública na Maré, a ser realizado na Areninha Cultural Herbert Vianna, no bairro, o documento será encaminhado a diversos órgãos dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário.

O evento reunirá, por três dias, especialistas e ativistas internacionais em segurança pública no Rio de Janeiro, em oito mesas de debate e grupos de trabalho.

Redes da Maré

A Redes da Maré é uma organização da sociedade civil que surgiu a partir da mobilização comunitária nos anos 80. Formalizada em 2007, "tem como missão tecer as redes necessárias para efetivar os direitos da população do conjunto de 15 favelas da Maré, onde residem em torno de 140 mil pessoas. Em seus projetos sociais, beneficia diretamente mais de 7 mil moradores, além de familiares e vizinhos".

Resposta oficial

Em nota, a Secretaria de Estado de Polícia Civil do Rio de Janeiro comunicou à Agência Brasil que desconhece a metodologia empregada na pesquisa e a rastreabilidade dos dados. Acrescentou que "atua com base em critérios técnicos, inteligência e planejamento operacional, com foco no cumprimento de mandados judiciais, na repressão qualificada ao crime organizado e na preservação de vidas. Todas as ações são pautadas pelos princípios da legalidade, necessidade e proporcionalidade".

A secretaria reiterou que todos os casos "são rigorosamente investigados, com a realização de diversas diligências ao longo do inquérito". Sobre a perícia técnica, afirmou que ela "integra esse conjunto de medidas e representa mais uma etapa dentro de um processo investigativo amplo, estruturado e criterioso, que visa o completo esclarecimento dos fatos e a responsabilização dos envolvidos".

A instituição argumenta que quem opta pelo confronto é sempre o criminoso, colocando em risco a integridade dos policiais e a vida de moradores, trabalhadores e outras pessoas nas áreas afetadas.

"Não por acaso, narcotraficantes instalam verdadeiros bunkers em áreas sensíveis, como proximidades de escolas e unidades de saúde, expondo diretamente moradores, trabalhadores e demais pessoas que circulam na região".

"O compromisso da Polícia Civil é com a atuação técnica, baseada em inteligência, com foco na proteção da sociedade, na responsabilização de criminosos e na redução consistente dos índices de violência", concluiu.

A Polícia Militar não se pronunciou sobre o questionamento da Agência Brasil a respeito dos efeitos das operações na comunidade.

FONTE/CRÉDITOS: Cristina Índio do Brasil - Repórter da Agência Brasil
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