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Sexta-feira, 10 de Abril 2026

Saúde

Polilaminina: esperança e os testes ainda necessários

A primeira etapa de ensaios clínicos pode ser concluída neste ano, com a expectativa de finalizar todas as fases de teste em aproximadamente dois anos e meio.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Polilaminina: esperança e os testes ainda necessários
© Fernando Frazão/Agência Brasil
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A investigação em torno da polilaminina, desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em colaboração com a farmacêutica Cristália, tem gerado considerável atenção. Contudo, é crucial que certas questões sejam esclarecidas para confirmar inequivocamente a capacidade da substância em auxiliar indivíduos com lesão medular a recuperar a mobilidade.

Embora os trabalhos, sob a liderança da bióloga Tatiana Sampaio Coelho, tenham iniciado há mais de um quarto de século, a maior parte desse período foi dedicada a ensaios em laboratório, uma fase fundamental conhecida como pré-clínica.

Adicionalmente à análise das moléculas de polilaminina, a equipe precisou primeiro apurar se a substância apresentava algum efeito em culturas de células e em animais antes de prosseguir para testes em seres humanos.

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O que é a polilaminina?

A substância foi descoberta de forma fortuita pela professora Tatiana Sampaio enquanto ela buscava separar os componentes da laminina, uma proteína presente em diversas partes do corpo humano.

Ao experimentar um solvente, ela observou que, em vez de se desintegrar, as moléculas de laminina começaram a se agrupar, formando uma estrutura complexa: a polilaminina. Essa agregação ocorre no organismo, mas nunca havia sido replicada em ambiente laboratorial.

A partir dessa descoberta, Tatiana dedicou-se a investigar potenciais aplicações para essa rede de lamininas, identificando que, no sistema nervoso, essas proteínas servem como um suporte para o crescimento dos axônios – extensões dos neurônios, semelhantes a caudas, responsáveis pela transmissão de sinais elétricos e químicos.

Quando a medula espinhal sofre uma lesão, os axônios são interrompidos, o que impede a comunicação entre o cérebro e o resto do corpo a partir do ponto afetado. Essa interrupção é a causa da paralisia.

Normalmente, as células do sistema nervoso não possuem a capacidade de se regenerar espontaneamente. Assim, o objetivo é testar se a polilaminina pode fornecer um novo arcabouço para que os axônios do paciente voltem a crescer e se reconectar, restabelecendo a via de comunicação dos comandos cerebrais.

Projeto-piloto

Após obter resultados promissores em roedores, os pesquisadores conduziram um estudo-piloto entre 2016 e 2021, administrando a substância em oito indivíduos que haviam sofrido lesão completa em diferentes segmentos da medula, decorrente de quedas, acidentes automobilísticos ou ferimentos por arma de fogo.

Além de receber a polilaminina, sete desses participantes foram submetidos à cirurgia de descompressão espinhal, um procedimento padrão em casos de lesão medular. As intervenções foram realizadas em até três dias após o incidente.

Duas pessoas faleceram ainda no hospital devido à gravidade de seus quadros, e uma terceira não sobreviveu por complicações relacionadas ao ferimento.

Entretanto, os cinco pacientes que se recuperaram, receberam a polilaminina e passaram pela descompressão cirúrgica exibiram algum avanço motor, o que significa que conseguiram mover partes do corpo antes paralisadas pela lesão. É importante notar que isso não implicou na recuperação total da capacidade de andar para todos.

A melhora foi documentada pela evolução dos pacientes na escala AIS, que varia de A a E, onde A representa o comprometimento mais severo e E indica o funcionamento normal do corpo em termos de movimento e sensibilidade. Para essa classificação, a equipe médica avalia a resposta a diversos estímulos aplicados em pontos específicos do corpo.

Quatro participantes do estudo-piloto transitaram do nível A para o nível C, indicando a retomada da sensibilidade e dos movimentos, ainda que de forma parcial. Um indivíduo alcançou o nível D, após recuperar a sensibilidade e as funções motoras em todo o corpo, com força muscular quase normal.

Este último é Bruno Drummond de Freitas, que ficou tetraplégico após uma fratura na coluna cervical em 2018. Em uma entrevista ao programa Sem Censura, da TV Brasil, Bruno relatou que conseguiu mover o dedão do pé algumas semanas após a cirurgia de descompressão combinada com a aplicação da polilaminina.

“Foi um divisor de águas. Naquele momento, para mim, não parecia significativo mover apenas o dedão do pé e nada mais. Mas todos celebraram, e então me explicaram que, quando um sinal do cérebro alcança uma extremidade, isso indica que o sinal está percorrendo todo o corpo.”

A partir daí, Bruno gradualmente recuperou outros movimentos e iniciou um extenso e intensivo programa de fisioterapia e reabilitação na AACD, uma instituição brasileira de referência em tais tratamentos. Após anos de recuperação, ele hoje caminha normalmente, com limitações apenas em alguns movimentos das mãos.

A experiência de Bruno e dos demais pacientes, no entanto, não é suficiente para comprovar cientificamente a segurança e a eficácia da polilaminina. Um artigo preliminar (pré-print) publicado pela equipe de pesquisa com os resultados do estudo-piloto ressalta, por exemplo, que até 15% dos pacientes com lesão completa podem apresentar recuperação motora espontânea.

Ademais, o diagnóstico inicial de lesão completa e a avaliação pela escala AIS, realizados logo após a fratura, podem ser influenciados por fatores como inflamação e inchaço. Em alguns casos, quadros menos graves são identificados em pacientes que, inicialmente, foram classificados como tendo paralisia total.

Ainda assim, os resultados apresentados publicamente pela equipe de pesquisa em setembro do ano passado atraíram considerável atenção. Caso a eficácia da polilaminina seja confirmada, a ciência brasileira terá descoberto uma solução inovadora para um problema que afeta milhões de pessoas, impactando significativamente suas rotinas e qualidade de vida. No entanto, o caminho até lá ainda é longo.

Fase 1, 2 e 3

Eduardo Zimmer, professor de Farmacologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, explica que, tradicionalmente, os ensaios clínicos de um novo medicamento compreendem três fases, cada uma com objetivos específicos.

“Na fase 1, temos poucos participantes, geralmente saudáveis, pois o objetivo é determinar a segurança do composto e a tolerância humana ao tratamento. Paralelamente, investigamos a farmacocinética: como a droga se comporta no organismo, sua absorção, metabolismo e eliminação”, detalha.

É nesta fase que se encontra o estudo com a polilaminina. Segundo a líder da pesquisa, professora Tatiana Sampaio Coelho, os testes estão previstos para iniciar neste mês e devem ser concluídos até o final do ano.

Contudo, haverá uma distinção importante em relação ao padrão. Como a polilaminina é administrada por injeção diretamente na medula, a aplicação não será feita em indivíduos saudáveis, mas sim em pacientes com lesão medular aguda.

“Monitoraremos eventos adversos para verificar se são os esperados, realizaremos exames neurológicos para detectar qualquer deterioração e diversos exames de sangue para avaliar toxicidade hepática ou renal. Isso será comparado com a evolução natural provável para um paciente grave e com outros estudos”, acrescenta Tatiana.

Conforme aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a substância será aplicada em cinco voluntários. Eles deverão ter entre 18 e 72 anos e apresentar lesões agudas completas da medula espinhal torácica, entre as vértebras T2 e T10, com indicação cirúrgica realizada há menos de 72 horas da lesão. O procedimento ocorrerá no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.

O estudo apresentará outra particularidade, conforme a pesquisadora. “O fato de serem pessoas com lesão medular significa que já na fase 1 poderemos ter indícios de eficácia.” Ou seja, os pesquisadores também pretendem observar se esses pacientes apresentam melhora, o que difere do percurso clássico.

De acordo com Eduardo Zimmer, que também chefia a Pesquisa do Hospital Moinhos de Vento e é pesquisador apoiado pelo Instituto Serrapilheira e pelo programa Idor Ciência Pioneira, a eficácia de um medicamento em humanos é geralmente avaliada a partir da fase 2, quando o número de voluntários aumenta. É também neste momento que a equipe testa diferentes dosagens para determinar a formulação ideal.

Tatiana Sampaio adianta que duas dosagens distintas serão avaliadas para a polilaminina, caso o estudo avance para a fase 2. Os detalhes sobre uma possível fase 3, a etapa final e crucial para confirmar a eficácia e a consistência dos resultados de um medicamento, ainda não foram definidos. A equipe estima concluir todas as fases de teste em cerca de dois anos e meio.

Desafios para os testes

O professor e pesquisador Eduardo Zimmer afirma que, geralmente, na fase 3, o número de voluntários é significativamente maior, e os testes são conduzidos em múltiplos centros de pesquisa.

Os participantes são aleatoriamente divididos em dois grupos: um recebe a substância em teste, enquanto o outro serve como grupo de controle para comparação. O objetivo é verificar o que ocorre na ausência do tratamento experimental.

Idealmente, nem os pacientes nem os pesquisadores deveriam saber, inicialmente, a qual grupo cada participante pertence. A meta final é assegurar que o medicamento testado proporcionou um benefício que não seria alcançado sem ele.

“O grupo controle, em uma patologia como essa, compara a eficácia da droga em relação às outras terapias disponíveis. O paciente continua recebendo o melhor tratamento existente, para se verificar se o novo medicamento leva o outro grupo a se recuperar melhor em comparação ao tratamento padrão”, ele ressalta.

No entanto, os testes com a polilaminina podem exigir procedimentos adaptados. Jorge Venâncio, ex-presidente da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep), explica que, normalmente, os participantes dos grupos de controle em ensaios clínicos recebem acesso prioritário à nova tecnologia, caso ela se mostre eficaz, como forma de compensação.

“Aqui, enfrentamos uma dificuldade: o tratamento precisa ser administrado em um prazo relativamente curto após o acidente causador do traumatismo, mas os resultados tendem a ser demorados. Assim, quando o estudo for concluído, a equipe poderá ter dificuldades em administrar o medicamento aos participantes do grupo comparador”, complementa Venâncio.

Embora os ensaios sigam um percurso ideal, adaptações, quando justificadas, podem ocorrer, segundo o ex-presidente do Conep. Isso é comum em estudos de novos tratamentos para doenças raras, que afetam um número reduzido de pessoas, impossibilitando o recrutamento do número ideal de voluntários. Contudo, Venâncio enfatiza a importância do cumprimento de todas as fases de pesquisa.

“Não se pode administrar uma substância cujo potencial dano é desconhecido a centenas de participantes. Por isso, testa-se primeiro em uma população pequena para avaliar se o risco é aceitável para um estudo mais amplo. Na fase dois, começa-se a investigar a dose adequada e, na fase três, verifica-se efetivamente o efeito da substância. Sem um grupo controle, corre-se o risco de chegar a uma conclusão oposta à realidade”, adverte o ex-presidente do Conep.

Ensaios clínicos serão acompanhados

A professora da UFRJ, Tatiana Sampaio, relembrou que, independentemente da avaliação dos pesquisadores, a decisão sobre as próximas etapas dos estudos com a polilaminina caberá à Anvisa e a um comitê de ética credenciado, órgãos responsáveis pela aprovação dos ensaios clínicos no Brasil.

Meiruze Freitas, coordenadora da Instância Nacional de Ética em Pesquisa (Inaep), acrescenta que, mesmo após a aprovação, as pesquisas continuam sob monitoramento. O comitê de ética verifica se as atividades não prejudicam os participantes, e a Anvisa garante que as boas práticas clínicas sejam observadas.

“A polilaminina representa um fator de esperança, pois a lesão medular acarreta diversas complicações, inclusive a morte. No entanto, é fundamental manter rigor científico. Essas fases não existem por burocracia, mas para garantir dados validados, com avaliação imparcial e passível de revisão por pares, assegurando a eficácia da tecnologia. Isso protege a população de produtos não confiáveis.”

Meiruze também avalia que os órgãos reguladores enfrentarão desafios crescentes com a especificidade de pesquisas que propõem soluções inovadoras.

A coordenadora do Inaep complementa que esses órgãos precisam “ser estruturados e ter capacidade técnica para acolher e viabilizar inovações de forma responsável, monitorando qualidade, eficácia e segurança”, assim como os pesquisadores necessitam de suporte para conduzir seus trabalhos conforme as exigências.

“Teoricamente, mesmo com resultados parciais nas fases 1 e 2, já se pode ter indicativos de eficácia. Para produtos como a polilaminina, que, em tese, não possuem alternativa terapêutica além da cirurgia, seria possível encurtar o desenvolvimento, permitindo, talvez, um registro no Brasil ao final da fase 2, enquanto a fase 3 ainda estivesse em andamento. Isso ocorre para certas doenças raras ou de alta mortalidade, onde o desenvolvimento da fase 3 se torna inviável”, explica Meiruze.

Atualmente, a principal regulamentação sobre o tema é a Lei 14.874, sancionada em 2024, que introduziu mudanças para agilizar o desenvolvimento de novas tecnologias no país. Uma das principais foi a redução dos prazos para análise de novos estudos: as respostas dos comitês de ética devem ser fornecidas em até 30 dias, e as da Anvisa, em 90 dias.

Valorização da ciência

Para a criadora da polilaminina, a professora da UFRJ Tatiana Sampaio, a redução de obstáculos também depende de uma mudança cultural.

“Precisaríamos ter a compreensão de que investir em ciência pública é uma opção de um país que almeja o desenvolvimento, que deseja possuir tecnologias próprias e não ser mais dependente.”

“Sou muito obstinada, mas, independentemente disso, tudo só foi possível devido às características da minha pesquisa. Eu estava estudando uma condição sem terapia e com apelo emocional significativo. Além disso, é um tema de grande interesse científico, o que me proporcionou ferramentas que facilitaram o andamento do trabalho. A combinação desses fatores tornou tudo viável. Em outras circunstâncias, não teria sido possível”, conclui Tatiana.

FONTE/CRÉDITOS: Tâmara Freire - Repórter da Agência Brasil
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