A recente proibição das apostas virtuais no Brasil trouxe alívio para milhares de cidadãos que enfrentam o vício em bets, um grave problema de saúde pública e financeira que destruiu patrimônios e provocou transtornos psicológicos ao longo dos últimos anos.
Um exemplo é o caso de Kaio*, de 42 anos, que perdeu o trabalho, o automóvel e a própria residência devido ao endividamento. Abrigado temporariamente no interior de Goiás e distante da família por ameaças de agiotas, ele iniciou tratamento médico e acompanhamento terapêutico em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
Histórico da legislação no país
A Medida Provisória 1394, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, revogou dispositivos da Lei 13.756 de 2018. Embora autorizadas no final do governo Temer, as plataformas operaram sem regras claras por cinco anos, até dezembro de 2023, período em que faltavam alertas sobre os perigos da prática.
Prejuízos bilionários e apelo aos jovens
A ausência de limites gerou perdas expressivas. Segundo o Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), as famílias brasileiras perderam R$ 62,5 bilhões para as empresas de apostas entre outubro de 2024 e março de 2026, com transações efetuadas principalmente via Pix.
A situação atingiu inclusive os adolescentes. Um estudo da Equidade.info apontou que 20,4% dos alunos do ensino fundamental e médio já apostaram online, com registros de início aos 11 anos. Especialistas alertam que o cérebro em desenvolvimento é mais vulnerável a estímulos imediatos de dopamina.
Danos à saúde mental e suporte médico
Profissionais de saúde alertam para o crescimento de quadros graves de ansiedade, desesperança e ideação suicida entre os afetados. O advogado Júlio Leone destacou que as plataformas falharam em conter usuários compulsivos, enviando bônus para estimular novos palpites.
Para combater os danos, o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Ministério da Saúde estão expandindo o teleatendimento e atuando na busca ativa de apostadores contumazes, com base em dados governamentais integrados para garantir tratamento adequado.
*Nomes fictícios foram utilizados para preservar a identidade dos entrevistados.