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Entrevistar Amyr Klink é como ouvir a uma aula sobre navegar oceanos — e isso não é sobre o mar

Autor do livro “Cem Dias Entre Céu E Mar” é personagem principal do filme "100 Dias", que estreia em 29 de outubro nos cinemas brasileiros

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Entrevistar Amyr Klink é como ouvir a uma aula sobre navegar oceanos — e isso não é sobre o mar
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Submergir-se no oceano da própria solidão é uma tarefa difícil e arriscada, que poucas pessoas são capazes de enfrentar e aproveitar tanto ao ponto de repetir. Seja no sentido figurado de estar isolado em meio à tempestades e dias ensolarados, mesmo com pessoas ao redor, ou a literalidade de se encontrar no meio do Oceano Atlântico em uma canoa, essa é uma viagem da qual não se tem ponto de retorno, apesar de locais no mapa poderem se repetir. É com maestria que Amyr Klink ensina muito mais sobre experienciar a vida, a solidão e a “solitude” do que somente suas expedições marítimas ao conversar com esta repórter que vos fala – Daniella Magalhães, do portal LeoDias -, sobre o filme inspirado na sua trajetória de 100 dias entre a cidade de Lüderitz, na Namíbia (África) e o Brasil, a remo.

Bem-humorado, Amyr me recebeu em Copacabana em um hotel de luxo, à convite da Disney, em um dia quente que começou com as nuvens cobrindo a visão do Pão de Açúcar. Ele confessou que acordou às 5h da manhã e ficou maravilhado com tantas pessoas na praia esperando o sol nascer, dando vontade de entrar na água com elas. A água é como a segunda casa do navegador, mas foi de dentro da primeira que surgiu a ideia do longa-metragem. Marina Bandeira Klink, sua esposa, já tinha a ideia de transformar o livro dele, “Cem Dias Entre Céu E Mar”, em filme, antes mesmo deles se casarem. Mas até toda a produção se encaixar foram necessários alguns anos, como contou Amyr:

“Marina negociou os direitos [do filme], o diretor era o Breno Silveira, um super diretor. E aí não deu certo com a primeira roteirista, com os dois roteiristas seguintes; eles eram de São Paulo, um deles era meio violento, brigaram. Aí veio uma outra roteirista, aí morreu a mulher do Breno. Aí o Breno arrumou uma namorada e aí ele falou: ‘Agora a roteirista vai ser a minha namorada’. Eu falei: ‘Breno, eu gosto de você, mas quando começa a botar namorada no meio, cunhado, não vai funcionar isso. Deixa eu morrer primeiro’. E no final o Breno morreu. Aí apareceu uma outra produtora – Bossa Nova, que tava tudo perfeito e de repente quebrou, fechou. E aí sobrou a Paula Cosenza (produtora) , que já conhecia o projeto há anos e ela foi juntando as pecinhas, contatou o [Carlos] Saldanha (diretor) e o negócio andou”.

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Quando conversamos, durante a semana do Festival do Rio, Amyr ainda não tinha conseguido assistir ao filme na íntegra por sempre ser chamado por alguém para comentar uma parte ou outra. Ainda assim, o escritor declarou, sem ressalvas, que a obra ficou fidedigna ao livro, mas que superou a inspiração: “Eu não gosto daqueles autores chatos que, ah, mas meu livro não tá assim, a cor do barco era diferente, eh, a camisa não era essa, a onda era mais alta (risos). E eu fiquei muito impressionado com o rigor da produção, do pessoal de pesquisa, que foi levantando todos os detalhes”.

Klink lembrou com carinho de quando conheceu os exploradores noruegueses Thor Heyerdahl, Bengt Danielsson e Knut Haugland, que participaram da expedição Kon-Tiki para atravessar em 101 dias o Oceano Pacífico, saindo do Peru e chegando a Polinésia Francesa à bordo de uma jangada feita por troncos de balsa e cordas de cânhamo. Os três também tiveram a história contada em um livro e retratada em um filme, que segundo o brasileiro, também ficou melhor que a obra original.

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Enzo Rosetti, Amyr Klink e Filipe Bragança em foto exclusiva enviada à colunaDisney
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E se as grandes expedições deixam marcas, Amyr não quer navegar por cima delas novamente para criar novas memórias. “Eu acho que todas”, riu ele, antes de explicar: “Eu não faria nenhuma delas de novo. Eu fiz a minha primeira viagem de altíssimo risco mesmo foi a circum-navegação da Antártica (1998) que ninguém mais fez. Parece que tem um cara agora — acho que um russo — que tá tentando fazer nesse momento, mas é uma viagem assim, não dá para brincar com a sorte. Foi uma viagem tecnicamente muito difícil. E eu não tenho nenhuma história para contar dessa viagem porque deu tudo certo”.

Dono de marinas, ele tenta ser modesto sobre seus conhecimento náuticos, mas honestamente, não precisa — e não se mantém assim por muito tempo —. O marinheiro exalta não a si próprio exatamente, mas à cultura brasileira de ir explorar o mar com produtos vindos da própria terra, privilegiando a sabedoria que vem do país, e não do exterior. Além disso, a arte de construir os próprios barcos, gera uma conexão e segurança “até emocional, porque você conhece tecnicamente tudo do barco, é claro que você vai cometer menos erros, né? Eu gosto de falar: eu sinto a dor das coisas, então eu não gosto de quebrar equipamento, não gosto de rasgar dinheiro, não gosto de desperdício dentro de um barco, eu gosto de soluções simples e eficientes”, declara ele.

Klink também não se exime de assumir que tem um jeito de trabalhar visto como “polêmico” pelos especialistas dos Estados Unidos, Alemanha e França, justamente por unir a tecnologia de ponta com as soluções criativas encontradas no Brasil. Neste ponto, a entrevista deixa de ser uma entrevista e vira uma verdadeira aula de navegação, apesar desta repórter que vos fala amar o mar e ter medo dele ao mesmo tempo:

“Por exemplo, a jangada de Piúba do Ceará: a gente copiou dela a ideia de usar uma solução aerodinâmica para dirigir e não hidrodinâmica. A jangada de tábua, que tem duas estivas para encalhar na praia, é uma solução do Ceará também. A jangada de Pitimbu na Paraíba, que é a única jangada — não é no Brasil, é no mundo — que tem dois mastros e eles usam os mastros para dar mais pressão na proa ou na popa. Só que eu fiz isso num barco de 140 toneladas. Os americanos falaram: ‘Você é louco, isso não vai dar certo. Você tá misturando soluções de gente ignorante’. Ignorante nada, são gênios! Os barcos de vela de pena, de içar da Bahia, as bianas do Maranhão, os barcos da Amazônia… Se você pegar qualquer engenheiro naval top dos Estados Unidos, ele não consegue fazer com tão pouca potência fazer barcos para transporte de passageiros. Então, claro, eles não usam mais a Itaúba, a madeira, mas eles passaram o conhecimento hidrodinâmico e de design deles pros materiais modernos, pro alumínio, pra fibra. Então, essa mistura de saberes, de conhecimento, eu gosto de fazer e é isso que faz os nossos barcos serem diferentes desses monstrengos aí”, terminou ele, bem-humorado.

“Louco” como alguns o chamam, ou gênio, a realidade é que Amyr Klink serve de inspiração para pessoas das mais diversas, sejam as que querem encarar desafios similares aos seus ou que fazem apenas uma metáfora de desbravar os oceanos da vida. Na forma literal de se enxergar, ele disse, rindo: “Eu morro de medo que o pessoal leia o livro, veja o filme e se atire no mar, mas tem esse risco”.

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FONTE/CRÉDITOS: Daniella Magalhães
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