A confirmação de uma lesão muscular de grau 2 na panturrilha de Neymar gerou preocupação na Seleção Brasileira, especialmente com a proximidade da Copa do Mundo. O médico da equipe, Rodrigo Lasmar, informou que o atacante precisará de afastamento das atividades por algumas semanas. Para analisar a gravidade da lesão, os riscos envolvidos e o tempo estimado de recuperação, o portal LeoDias consultou os fisioterapeutas Caio Bevilaqua, com expertise em prevenção de lesões em atletas profissionais, e Renata de Oliveira, especialista em osteopatia.
Segundo Caio Bevilaqua, a extensão do tempo de recuperação está diretamente ligada à área específica da panturrilha afetada. "Para determinar um prognóstico de retorno preciso, é essencial identificar a região exata da panturrilha atingida. Exames de imagem, como a ressonância magnética, são cruciais para essa localização. Casos de edema ou comprometimento fascial podem ter um retorno mais rápido. No entanto, lesões estruturais em áreas mais críticas, como a aponeurose central ou a transição miotendínea, podem demandar mais de 4 a 6 semanas de recuperação", explicou.
Bevilaqua acrescentou que a panturrilha figura entre os músculos com maior índice de reincidência de lesões, especialmente em atletas com mais de 30 anos.
Renata de Oliveira ressaltou a importância da atenção especial a um atleta de alto rendimento como Neymar. "Embora não seja a lesão mais severa, uma lesão grau dois implica em ruptura parcial das fibras musculares, resultando em dor significativa e perda de função. Para atletas de ponta, a panturrilha é vital para explosão, aceleração, saltos e mudanças bruscas de direção, o que eleva a relevância deste quadro", afirmou.
Sintomas da lesão muscular
Os especialistas apontam que este tipo de lesão geralmente se manifesta com sintomas claros e limitações imediatas para jogadores de futebol.
"Os sinais clínicos podem surgir durante treinos ou jogos, com o atleta sentindo uma pontada ou uma sensação de estiramento na área afetada. Os sintomas mais comuns incluem dor ao alongar, dor ao caminhar, dor localizada persistente e dor durante testes de força da musculatura da panturrilha", detalhou Caio Bevilaqua.
Renata de Oliveira complementou, enfatizando que o impacto transcende a dor. "Os sintomas mais frequentes são dor súbita, sensação de fisgada, dificuldade para correr, impulsionar o corpo e até para andar. Pode haver inchaço, perda de força e restrição de movimento. No futebol, a panturrilha é fundamental para a mecânica da corrida e para a estabilidade em movimentos rápidos."
Previsão de recuperação considerada otimista
O prazo de duas a três semanas mencionado pela Seleção foi visto como otimista pelos especialistas, que sugerem cautela.
"É um prazo extremamente otimista. Para justificar essa estimativa, a equipe responsável precisa ter certeza absoluta de que se trata de uma lesão de baixa gravidade. Em retornos rápidos, o perfil psicológico do atleta é um fator determinante. Jogadores engajados e disciplinados tendem a evoluir melhor. Esse prazo geralmente se aplica a lesões menos severas e em regiões menos críticas da panturrilha. Áreas mais importantes exigem regeneração de colágeno especializada e, consequentemente, mais tempo", explicou Caio Bevilaqua.
Renata também enfatizou a necessidade de prudência. "É um prazo relativamente otimista. Atletas profissionais contam com estruturas de recuperação avançadas que aceleram o processo. Contudo, em competições de alta intensidade, o retorno deve ser muito seguro, pois uma nova lesão pode ser ainda mais prejudicial que a primeira", ponderou a osteopata.
Fases da recuperação de lesões musculares
Durante o período de recuperação, o atacante passará por diferentes estágios de fisioterapia e fortalecimento.
"De maneira geral, e sempre respeitando a individualidade de cada atleta, as lesões musculares costumam evoluir em algumas fases:
Fase 1: Proteção e controle da dor (0 a 7 dias);
Fase 2: Mobilização progressiva (1 a 2 semanas);
Fase 3: Fortalecimento e controle motor (2 a 3 semanas);
Fase 4: Atividades esportivas específicas (3 a 4 semanas). Esta é uma projeção bastante otimista em relação à evolução clínica", detalhou Caio Bevilaqua.
Renata acrescentou que o retorno não se baseia apenas na ausência de dor. "Inicialmente, o foco é controlar a dor e a inflamação. Em seguida, utilizam-se recursos de fisioterapia para restaurar a mobilidade, reorganizar as fibras musculares, fortalecer progressivamente, realizar treino funcional e, por fim, o retorno esportivo gradual. Em atletas, testes específicos de potência, corrida e mudança de direção são realizados antes da liberação completa."
Riscos associados a um retorno precoce
Os especialistas alertam para os perigos de um retorno antecipado aos gramados, especialmente sob a pressão de uma Copa do Mundo, o que pode aumentar o risco de novas lesões.
"No esporte de alto rendimento, o gerenciamento de risco é uma prática constante. Contudo, lesões musculares são, na minha opinião, as mais desafiadoras de reabilitar no esporte. Exigem um quebra-cabeça de decisões criteriosas baseadas em dados para uma progressão segura", afirmou Caio.
"Sim, esse risco existe. O retorno precoce eleva consideravelmente a probabilidade de uma nova ruptura muscular. A decisão não se baseia apenas na ausência de dor, mas também em testes físicos, força muscular, capacidade funcional, exames de imagem e segurança biomecânica durante os movimentos do esporte", reforçou Renata.
Adicionalmente, ambos os fisioterapeutas destacam o papel crucial da panturrilha no estilo de jogo de Neymar, especialmente em ações que demandam explosão e velocidade.
"Sem dúvida. A panturrilha é fundamental na extensão do corpo humano, impulsionando o movimento para frente e superando a gravidade. Ela está diretamente ligada a movimentos de potência e às altas velocidades exigidas no futebol moderno", explicou Caio.
"Com certeza. A panturrilha atua como um gerador de impulso vital durante a corrida e os movimentos explosivos. Qualquer deficiência nessa musculatura pode comprometer a velocidade, a potência e a estabilidade, impactando diretamente o desempenho técnico e físico do atleta", completou Renata.
Outro ponto de atenção é o histórico recente de lesões musculares do jogador, um fator que eleva o risco de reincidência.
"Sim. O histórico de lesões é o principal fator de risco não modificável estabelecido na literatura científica. Lesões recorrentes alteram a arquitetura muscular ao longo do tempo. Além disso, atletas que se lesionam frequentemente podem perder capacidade de performance. Se a recuperação não seguir critérios específicos, o atleta se torna um candidato a novas lesões, seja na panturrilha, posterior de coxa, adutores ou quadríceps", disse Caio Bevilaqua.
Renata também ressaltou o impacto que uma nova recaída poderia ter em sua temporada. "O maior risco é a recidiva da lesão, que geralmente é mais grave e exige uma recuperação mais longa. Além disso, o atleta pode desenvolver compensações musculares e sobrecarga em outras partes do corpo, prejudicando o desempenho, a sequência de jogos e a longevidade esportiva", finalizou.