O Quilombo Ferreira Diniz, localizado no bairro da Glória, na zona sul do Rio de Janeiro, recebeu o status de patrimônio tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). O espaço, que abriga 14 famílias em um terreno com casarões históricos e um quintal arborizado, destaca-se como um símbolo de resistência comunitária em uma área urbana sob forte pressão da especulação imobiliária.
O tombamento abrange todo o terreno na Rua Cândido Mendes, incluindo o casarão neoclássico e as áreas de uso comum. A medida é vista como uma ação de salvaguarda, garantindo que o local não seja descaracterizado. O IPHAN pretende, ainda, realizar um inventário detalhado das manifestações culturais da comunidade como forma de preservar sua memória viva.
Um polo de resistência e cultura
Além do valor histórico, o local é conhecido pela tradicional feijoada preparada por Maria Aparecida Ferreira, a Tia Cida. O quintal tornou-se um ponto de encontro gastronômico que atrai visitantes e ajuda no sustento das famílias. Para os moradores, o espaço representa uma alternativa ao modelo de vida individualista dos condomínios modernos.
A psicóloga Brenda Pimentel Torres, visitante do local, ressalta que o quilombo é um espaço necessário para combater o apagamento da história negra no Brasil. O tombamento, segundo o IPHAN, cumpre funções jurídicas, territoriais e reparatórias, impedindo demolições e reafirmando a presença cultural negra na região central da cidade.
Perspectivas futuras
Atualmente, a Associação da Comunidade do Ferreira Diniz busca o reconhecimento da posse coletiva pelo Incra. O processo, que conta com apoio técnico da UFF, visa garantir a regularização fundiária. A historiadora Érida Ferreira, presidente da associação, celebra a conquista: “É o tombamento de cultura, de patrimônio vivo, de nossa história enraizada na Glória”.
A professora Ana Carmen Amorim Jara Casco, da UFF, destaca que o modo de vida coletivo do quilombo oferece lições valiosas. “É um modo de vida comunitário, onde todos cuidam de todos, completamente diferente do que vemos em prédios convencionais”, explica a pesquisadora, que trabalha na documentação necessária para o avanço dos direitos das famílias.