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Versões de músicas gringas voltam a fazer sucesso, mas estão longe de ser novidade

Releituras de sucessos estrangeiros voltaram a ganhar espaço nas plataformas digitais; especialista avalia que o fenômeno faz parte de uma tradição histórica da música brasileira

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Versões de músicas gringas voltam a fazer sucesso, mas estão longe de ser novidade
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Quem acompanha as plataformas de streaming e as redes sociais já percebeu um movimento ganhando cada vez mais espaço na música popular brasileira: canções internacionais com novas versões em português, adaptadas à realidade e ao vocabulário do público nacional. O fenômeno aparece em diferentes gêneros, especialmente no brega, no brega funk e no tecnomelody, e tem impulsionado artistas como Manu Bahtidão e Andrielly Souza. Mas será que a prática está ligada à nostalgia?

Em 2024, Manu lançou “Quem Perde é Quem Trai”, inspirada em “The Climb”, eternizada por Miley Cyrus. Outro caso, mais recente, é o de Andrielly Souza, que chamou atenção em 2026 com “Só no Off”, releitura de “Confidence”, da artista francesa Kim. O movimento também pode ser observado em outros projetos independentes que adaptam melodias internacionais para o universo do brega e do brega funk.

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Reprodução: YouTube/@ManuBahtidao
Manu Bahtidão cantando "Quem Perde É Quem Trai"Reprodução: YouTube/@ManuBahtidao
Reprodução: YouTube/@disneyaja
Miley Cyrus cantando "The Climb"Reprodução: YouTube/@disneyaja
Reprodução: YouTube/@AndriellySouza
Reprodução: YouTube/@AndriellySouza
Divulgação: Section ZOUK
Álbum da cantora francesa KimDivulgação: Section ZOUK
Reprodução: Instagram/@danieldiauoficial
Paulinha Abelha e Daniel Diau, do Calcinha PretaReprodução: Instagram/@danieldiauoficial
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Para o professor, mestre em Musicologia pela UFF, Felipe Trotta, porém, é preciso cautela ao afirmar que se trata de uma novidade. Segundo ele, a criação de versões nacionais de músicas estrangeiras é uma dinâmica recorrente na indústria cultural e acompanha a circulação global da música pop há décadas: “Você pega a versão e faz a versão nacionalizada. Troca a letra ou, às vezes, até nem troca, mas faz algumas intervenções. Eu lembro, por exemplo, da apropriação do funk daquela ‘There It Is’, que virou ‘Uh Tererê’ e foi até para os estádios de futebol. Então, isso é uma dinâmica normal que tem a ver com a circulação global da cultura por meio da grande indústria do entretenimento, que torna essas músicas acessíveis”, explicou.

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Na avaliação do pesquisador, o sucesso dessas releituras não está necessariamente ligado à nostalgia, como muitos imaginam: “O que acontece é que existe uma memória cultural internacional compartilhada em larga escala. E são esses códigos que, às vezes, fornecem elementos estéticos e comportamentais para as pessoas criarem novas músicas e novas produções. Então, nesse sentido, a ideia de memória eu acho que pode ser útil para entender os fenômenos, mas não no sentido nostálgico”, afirma. Para ele, portanto, o principal fator é a existência de uma memória cultural compartilhada, construída a partir de referências que atravessam fronteiras e são reconhecidas por diferentes públicos.

Embora o debate tenha ganhado força recentemente por causa do brega funk e do brega pop, a prática está longe de ser inédita. Nos anos 2000, grupos musicais como Limão com Mel e Calcinha Preta popularizaram adaptações de sucessos internacionais em festas do Norte e Nordeste do país. Antes delas, versões de boleros, baladas românticas e sucessos latinos já faziam parte do repertório de artistas brasileiros desde meados do século passado.

Entre os exemplos mais lembrados estão “Paulinha”, inspirada em “Without You”, de Mariah Carey; “Um Sonho de Amor”, originada de “The Boxer”, de Paul Simon; além de diversas adaptações de baladas internacionais e sucessos do pop romântico que ganharam novas letras e arranjos regionais. O mesmo diálogo com referências internacionais também surgiu anos depois em grupos como a Banda Djavú, que misturaram elementos da música eletrônica global ao tecnobrega e ajudaram a popularizar esse repertório nas aparelhagens e festas.

Segundo Trotta, essa continuidade histórica ajuda a entender por que o fenômeno atravessa gerações. Para ele, não se trata de uma moda momentânea, mas de um comportamento cíclico que se reinventa conforme as transformações do mercado musical: “Isso não é uma tendência, isso é uma prática. Então, não é uma coisa de momento. Pode estar mais voltado para algumas estéticas em determinado período e para outras em outro, mas eu não acredito que isso seja uma tendência. Acho que esses movimentos são cíclicos, voltam a acontecer sempre. Isso sempre aconteceu e vai continuar acontecendo, especialmente no caso das versões. Você pega o pessoal da MPB, que faz muita versão. O Gil fez versão de Bob Marley, Caetano fez versão de músicas latinas naquele disco dele, ‘Fina Estampa’, nos anos 1990. Esse processo é muito comum na música”, observou.

O professor também destaca que as fronteiras entre o que é considerado música nacional e internacional estão cada vez mais difusas. Na prática, artistas misturam referências de diferentes origens e criam produtos híbridos que dialogam simultaneamente com o local e o global.

Diante do sucesso recente de releituras no brega funk, no tecnomelody e no brega pop, tudo indica que novas adaptações continuarão surgindo. Mas, para a musicologia, o fenômeno está longe de representar uma novidade: trata-se apenas de mais um capítulo de uma tradição que acompanha a música brasileira há décadas.

FONTE/CRÉDITOS: Heloísa Cipriano
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