O Brasil ainda enfrenta desafios significativos para alcançar as metas de vacinação contra o HPV, e o estado do Acre se destaca nesse cenário. Em 2023, enquanto a média nacional de cobertura vacinal atingiu 86% para meninas e 74,5% para meninos, o Acre registrou os índices mais baixos do país, com 59% para o público feminino e 50% para o masculino.
A principal causa para essa disparidade remonta a um incidente ocorrido em 2017, quando 74 adolescentes apresentaram sintomas após receberem o imunizante. Embora investigações posteriores tenham descartado qualquer relação causal com a vacina, o episódio gerou repercussão nacional e alimentou uma campanha de desinformação.
Renata Quiles, atual coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações no Acre, testemunhou o desenrolar dos fatos na época. Ela relata um aumento expressivo nas notificações de possíveis efeitos adversos, passando de 14 para 127 em seis meses, impulsionado pelo medo e pela disseminação de informações equivocadas.
Uma força-tarefa foi mobilizada para investigar o ocorrido, analisando lotes da vacina e examinando os adolescentes. Doze jovens com sintomas mais severos foram encaminhados à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) para uma bateria de exames.
Estresse vacinal e desinformação
Especialistas da USP concluíram que dois irmãos apresentavam epilepsia de origem genética, enquanto os demais sofriam de crise psicogênica não epilética (CNEP), uma resposta física involuntária ao estresse. Isso confirmou que os sintomas não foram causados pela vacina, mas sim pelo estresse associado ao ato de vacinar, somado a fatores pessoais e familiares.
Sociedades Brasileiras de Pediatria e Imunizações esclarecem que a CNEP é uma manifestação de estresse vacinal documentada desde 1992 em diversos países, relacionada a diferentes imunizantes, mas sem vínculo biológico com o conteúdo das vacinas. Elas alertam para a influência negativa das redes sociais na propagação de informações falsas, que podem desencadear novos casos e atribuir efeitos 'sequelares' aos imunizantes.
Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), aponta que o movimento antivacina se aproveitou do episódio no Acre para disseminar medo em todo o país. A resistência de alguns pais, baseada na crença de que a vacina poderia estimular a 'sexualidade precoce' devido à via de transmissão do HPV, combinou-se a essa desinformação, resultando em uma queda abrupta na adesão à vacinação.
A vacinação em ambiente escolar, considerada a estratégia mais eficaz para adolescentes, foi descontinuada. Consequentemente, em 2018 e 2019, menos de 10% dos adolescentes acreanos compareceram aos postos de saúde para se vacinar, um reflexo devastador da repercussão do caso.
Avaliação de eventos adversos
Renata Quiles e Mayra Moura ressaltam que eventos adversos são esperados para qualquer medicamento, incluindo vacinas. A segurança de um produto é determinada pela gravidade desses episódios e pela relação risco-benefício, avaliada tanto em testes pré-comercialização quanto após o uso em larga escala.
Aline Okuma, gerente médica de vacinas da MSD, destaca a baixa taxa de eventos adversos e a alta efetividade da vacina contra o HPV, com estudos já demonstrando a redução da incidência de câncer por HPV em países que a introduziram. A MSD, em parceria com o Instituto Butantan, produz a vacina oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Com 20 anos de estudos e acompanhamento, a vacina contra o HPV tem seu perfil de riscos e benefícios amplamente monitorado. A prevenção é crucial, considerando que o câncer por HPV pode se desenvolver de forma silenciosa. A vacina é oferecida pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de grupos específicos como imunodeprimidos e vítimas de abuso sexual.
O Ministério da Saúde também implementou o resgate vacinal para adolescentes de 15 a 19 anos que não foram vacinados na idade recomendada, imunizando mais de 217 mil jovens. A vacina protege contra os tipos 16 e 18 do vírus, os de maior risco, e a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a eliminação do câncer de colo de útero uma meta alcançável com altas coberturas vacinais e rastreamento.
Recuperação da confiança
Apesar do impacto do episódio de 2017, Renata Quiles vê a extensa investigação como uma prova da segurança da vacina. A confiança na vacina foi reforçada, permitindo que os profissionais de saúde reiterem sua importância para a saúde pública.
O trabalho contínuo dos profissionais de imunização tem levado a um crescimento gradual das coberturas vacinais no Acre e no Brasil. No entanto, a lembrança do episódio de 2017 ainda persiste, especialmente na capital Rio Branco.
Com o tempo, a ausência de novos casos e a continuidade da administração da vacina ajudaram a dissipar o medo. A população acreana, antes hesitante, hoje se mostra mais receptiva à vacinação, embora mais seletiva. A formação de profissionais de saúde, inclusive aqueles que atuam em comunidades isoladas, é um foco importante para reverter a desinformação, capacitando-os com técnicas de comunicação eficazes.
Estratégias inovadoras, como o "Cinema da Imunização" em Porto Walter, onde adolescentes recebiam ingressos para filmes após a vacinação, têm sido bem-sucedidas em aumentar a cobertura. Essas iniciativas buscam contrapor a desinformação disseminada nas redes sociais, mostrando que é possível reverter o jogo e convencer a população da importância da vacinação.
Prevenção do câncer de HPV
A reversão dos malefícios da desinformação exige estratégias combinadas e contínuas, como adverte Mayra Moura. A vacinação contra o HPV é uma necessidade urgente, com os cânceres causados pelo vírus ceifando cerca de 7,5 mil vidas brasileiras anualmente. O câncer de colo de útero, em particular, representa uma parcela significativa desses casos, com o Acre apresentando uma das maiores taxas de incidência.
A vacina do SUS protege contra os tipos mais perigosos do HPV, e a OMS projeta a eliminação do câncer de colo de útero com altas coberturas vacinais e rastreamento. A vacinação também pode reduzir drasticamente outros tipos de câncer associados ao HPV, reforçando a importância da imunização para a saúde pública.