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Economia

China impulsiona mecanismos financeiros na África em busca da desdolarização

A nação asiática amplia sua infraestrutura para transações em yuan, visando diminuir a dependência do dólar no comércio continental.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
China impulsiona mecanismos financeiros na África em busca da desdolarização
© Valter Campanato/Agência Brasil/Arquivo
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A China tem intensificado seus esforços para fortalecer a infraestrutura financeira na África, com o objetivo de reduzir a dependência do dólar norte-americano nas transações comerciais. Essa estratégia de desdolarização permite a negociação de bens e serviços diretamente em moedas africanas e no yuan chinês, marcando um passo significativo na relação econômica entre a China e o continente africano.

Contudo, apesar desses avanços, a utilização do yuan (também conhecido como renminbi) ainda representa uma parcela minoritária das operações no continente. A completa desdolarização, inclusive, ainda não é vista como uma meta de curto prazo pelas próprias autoridades de Pequim.

Um marco recente dessa estratégia ocorreu no final de junho, quando o Banco Central da China concedeu autorização para pagamentos diretos em yuan via Standard Bank. Este, que é o maior grupo bancário da África, com sede na África do Sul, atua em colaboração com o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC).

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Em comunicado, o Standard Bank, que possui operações em 21 nações africanas, destacou que a parceria o "coloca em uma posição única para lidar com o renminbi chinês (RMB)". Isso facilita que empresas efetuem e recebam pagamentos em RMB para liquidações comerciais, impulsionando o intercâmbio comercial entre a África e a China.

A relevância da China como principal parceira comercial da África é inegável. Dados da Administração Geral de Alfândegas (GAC) da China revelam que, entre os anos 2000 e 2024, o volume comercial bilateral registrou um crescimento médio anual de 14%.

Adicionalmente, em 1º de maio, a China anunciou a isenção de taxas de importação para produtos africanos. Essa medida visa fortalecer ainda mais as relações comerciais entre o gigante asiático e o continente africano.

O yuan e sua ascensão gradual na África

Para o analista geopolítico Marco Fernandes, membro do Conselho Popular do Brics, a expansão do yuan na África ainda se mostra cautelosa. Contudo, ele enfatiza que a China está desenvolvendo uma infraestrutura robusta para viabilizar o comércio no continente sem a intermediação do dólar.

Fernandes descreve essas ações como um ponto de partida. "A China tem implementado diversas iniciativas semelhantes globalmente para operar comercialmente sem o dólar", explica. Ele ressalta, porém, que o volume transacionado em yuan permanece insignificante frente à magnitude da economia mundial, comparando o processo à "construção dos trilhos para o trem bala chinês passar no futuro".

O analista do portal Brasil de Fato acrescenta que a maior parte das commodities, como energia e alimentos, continua sendo negociada em dólares globalmente.

"Atualmente, o yuan figura como a quinta moeda mais utilizada no comércio internacional, respondendo por aproximadamente 8,5% das transações globais, um percentual ainda modesto", afirma Marco Fernandes. Ele pondera, contudo, que essa participação tem demonstrado crescimento constante quando comparada a períodos anteriores.

Desafios à hegemonia do dólar

A "desdolarização" da economia global tem sido uma pauta central para o Brics, grupo que engloba nações do Sul Global como Brasil, China, Índia e África do Sul. A justificativa reside nas vantagens econômicas e políticas que a hegemonia do dólar no mercado internacional confere aos Estados Unidos (EUA).

Essa agenda, no entanto, é contestada pelo presidente Donald Trump, que promete lutar para preservar a hegemonia do dólar dos EUA globalmente.

A cautela da China na promoção do yuan

Marco Fernandes, que também atua como editor da revista Wenhua Zongheng International, ressalta que a China não demonstra interesse em uma desdolarização imediata. Entre as razões, estão as vultosas reservas em dólar que o país ainda detém e a necessidade de Pequim em preservar o valor de sua moeda para manter a competitividade das exportações chinesas.

Um obstáculo adicional reside na relutância da China em abrir sua conta de capitais, uma medida considerada crucial para a plena internacionalização do yuan. Essa cautela visa proteger o sistema financeiro chinês de possíveis turbulências decorrentes da especulação global. A conta de capitais, vale lembrar, monitora o fluxo de recursos financeiros transfronteiriços.

"Uma desvalorização acelerada do dólar acarretaria um prejuízo substancial, tanto para o Estado chinês quanto para suas empresas", argumenta Marco Fernandes. Ele enfatiza a importância de que o processo de desdolarização ocorra de forma "lenta, gradual e segura".

Propostas para uma alternativa monetária global

Em junho deste ano, o economista brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr., ex-vice-presidente do banco do Brics, publicou um artigo propondo a criação de uma nova moeda de reserva para o comércio internacional.

Nogueira Batista reconhece que a rede de pagamentos do Banco Popular da China (PBOC), que já integra mais de 40 bancos centrais, tem expandido o protagonismo da moeda chinesa nas operações de liquidação do comércio global.

Contudo, o especialista aponta que a substituição direta do dólar pelo yuan ainda não se alinha aos interesses da economia chinesa. Em vez disso, ele sugere a criação de uma moeda específica para o comércio global, composta por uma "cesta" de moedas das nações do Sul Global.

Em seu texto para o Valdai Discussion Club, centro de estudos com sede em Moscou, Paulo Nogueira detalha sua proposta: "A criação de uma nova unidade de conta por um grupo de países do Brics (não necessariamente todos) e outras nações do Sul Global. Em determinado momento, a unidade de conta seria convertida em uma nova moeda, preservando os mesmos pesos".

Para Marco Fernandes, a desdolarização da economia é fundamental para promover maior equidade no cenário mundial. Ele argumenta que essa mudança também contribuiria para diminuir o poder político e econômico dos EUA, que frequentemente utilizam sanções e embargos financeiros para alinhar outras nações aos seus interesses.

"Devido à hegemonia do dólar, cada elevação das taxas de juros pelo Banco Central dos EUA provoca uma desvalorização das moedas em países em desenvolvimento", conclui Fernandes. Ele explica que isso encarece as importações, elevando os preços de produtos essenciais como trigo, arroz e milho. "Uma pequena variação pode resultar em fome, ou até mesmo na morte, de milhares de pessoas", alerta.

FONTE/CRÉDITOS: Lucas Pordeus León – Repórter da Agência Brasil
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