A complexa tarefa de retratar a vida do maior showman da história no cinema gerou por anos incertezas e foi vista como um terreno perigoso. No entanto, o diretor Antoine Fuqua aceitou o desafio e lança agora a esperada cinebiografia "Michael", que carrega consigo um enorme peso de expectativas.
Com exibições especiais disponíveis a partir desta terça-feira (21/4) em diversas salas de cinema pelo Brasil, o longa-metragem oferece um espetáculo musical vibrante, impulsionado por performances notáveis. Contudo, a produção tropeça ao tentar realizar uma espécie de "limpeza" na trajetória do protagonista.
Colman Domingo se destaca em "Michael"
Desde o início, o jovem Juliano Krue Valdi cativa o público com sua interpretação marcante de Michael Jackson [1958-2009] na infância. O garoto consegue transmitir emoção nas cenas em que o artista aparece cantando em seus primeiros ensaios, sendo verdadeiramente encantador.
É inegável o papel fundamental da direção de elenco em criar uma conexão visível entre o jovem ator e Jaafar Jackson, outro trunfo indiscutível da obra. Apesar de sua estreia na atuação ter gerado ceticismo na indústria, o sobrinho do Rei do Pop provou que nasceu para este papel.
O resultado, em muitos momentos, é impressionante. Jaafar Jackson não se limita a uma imitação coreografada ou caricata de seu tio, mas incorpora sua vulnerabilidade e genialidade. Do olhar melancólico à entrega nos bastidores de projetos importantes, o ator se mostra notável. Sua performance corporal e vocal é tão magnética que justifica a ida ao cinema para vivenciar essa experiência.
Colman Domingo é o pilar dramático de "Michael"
Dividindo o peso dramático do filme, Colman Domingo assume a desafiadora tarefa de interpretar o temido patriarca Joe Jackson, dominando a maior parte de suas aparições na tela. Sua atuação é digna de aplausos, carregada de tensão e complexidade.
Domingo constrói um personagem movido por uma ambição avassaladora, cuja rigidez moldou a genialidade do filho ao mesmo tempo em que o destruía psicologicamente. No entanto, reside aqui uma das principais falhas da cinebiografia: uma aparente falta de ousadia. Ao longo dos anos, os relatos envolvendo Joe Jackson foram significativamente mais cruéis do que o retratado no filme. A segunda metade de "Michael" sofre com problemas de ritmo e saltos temporais convenientes, evidenciando uma tentativa de suavizar e desviar de acusações graves.
Embora a narrativa do astro ganhe uma sensibilidade maior nesta versão, é sabido que diversas polêmicas também surgiram com o tempo. Por essa razão, o tom de biografia visceral é deixado de lado em favor de uma estética protetora, evitando caminhos que poderiam gerar debates controversos.
A cinebiografia de Michael Jackson buscou preservar seu legado musical?
Desde a infância conturbada, a direção de Antoine Fuqua acerta ao elucidar aspectos que sempre marcaram a trajetória do artista, como seu apreço por animais e o desejo de ajudar crianças. Contudo, o espectador sai com a sensação de que faltou aprofundamento em temas mais delicados.
Nia Long interpreta Katherine Jackson, mãe do cantor, e sua jornada levanta questionamentos sobre seu papel em equilibrar a delicada relação entre pai e filho. Em meio à empolgação do público em acompanhar essa fase da vida do astro, cresce a expectativa por um tratamento mais aprofundado de assuntos complexos em futuras produções.
Experiência sensorial
Produções cinematográficas como esta exigem uma imersão em uma tela grande e um som envolvente. É o caso de "Michael", onde a direção acerta ao resgatar a magia incomparável que Michael Jackson exercia sobre as multidões.
O projeto é, de fato, estrondoso, concebido para ser apreciado com o volume máximo, transportando o espectador para uma das grandiosas apresentações do Rei do Pop. Mesmo que o roteiro opte por ignorar a intensa tempestade que também envolveu a vida pública e pessoal de Michael Jackson, este é, sem dúvida, um filme que emocionará os fãs.
Nota: 6,5/10