A próxima grande atração turística de uma cidade pode não estar em um guia de viagens, e sim, na cena de uma produção que milhões de pessoas acabaram de assistir no streaming. Filmes, séries e programas de televisão estão interferindo diretamente na decisão sobre onde viajar. É o que aponta uma pesquisa do Grupo Expedia realizada com 25 mil viajantes, da qual dois em cada três entrevistados afirmam que conteúdos assistidos nas telas influenciam suas escolhas de destinos.
O fenômeno ganhou até nome no mercado internacional: set-jetting, expressão usada para definir viagens motivadas por lugares vistos em filmes e séries.
Veja as fotos
Abrir em tela cheiaEntre os turistas das gerações Z e Millennial, o impacto é ainda maior. Na projeção da Expedia para 2026, 81% afirmam planejar viagens inspiradas pelo que assistem. Globalmente, 53% dos viajantes dizem que o interesse por determinado lugar aumenta depois que ele aparece em uma produção audiovisual.
Do cinema para as ruas
O Brasil já começa a experimentar esse movimento. Em Recife, o sucesso de “O Agente Secreto” despertou interesse pelos locais que serviram de cenário para a produção e abriu espaço para passeios que levam os visitantes a conhecer pontos relacionados ao filme. O que antes poderia ser apenas uma rua, um prédio, um restaurante ou uma praça passa a carregar também o valor emocional de uma história conhecida pelo público.
Lucas Estevam, criador do canal “Estevam Pelo Mundo”, acompanha essa mudança no comportamento dos turistas. Com mais de dois milhões de seguidores e viagens por mais de noventa e cinco países, ele percebe que parte do público já chega ao destino sabendo exatamente quais cenários pretende encontrar. “A plateia enjoou do cartão-postal genérico e quer pisar no lugar exato onde a cena aconteceu”, afirma Estevam. “Quando a história emociona, o destino sai da tela e entra no orçamento. O viajante chega sabendo o nome da rua, o café, o banco da praça, porque já viu aquilo várias vezes antes de comprar a passagem”, disse ele.
Quando uma locação vira atração turística
Para cidades e empresas ligadas ao turismo, essa mudança abre uma nova frente de oportunidades. Agências e operadoras podem transformar produções de sucesso em roteiros temáticos. Guias locais passam a oferecer experiências relacionadas aos bastidores das filmagens. Restaurantes, hotéis, lojas e outros estabelecimentos que aparecem nas telas também podem se tornar pontos de visitação.
Além disso, uma cidade apresentada ao longo de uma produção de alcance internacional pode chegar a milhões de potenciais visitantes sem depender exclusivamente das campanhas tradicionais de promoção turística. Isso também ajuda a explicar por que cidades e órgãos ligados ao turismo têm interesse em receber produções audiovisuais. O impacto econômico de uma filmagem pode ultrapassar o período das gravações. Quando uma obra alcança grande audiência, os cenários podem continuar atraindo visitantes durante anos.
Em “Emily em Paris”, por exemplo, a produção transformou cenários em parte da experiência de viagem de fãs que acompanham a protagonista vivida por Lily Collins em cafés, restaurantes, pontes e ruas da capital francesa. O mesmo ocorre com “The White Lotus”; depois que a segunda temporada foi ambientada na Sicília, o hotel San Domenico Palace, em Taormina, registrou um aumento reportado de 70% nas reservas. O fenômeno passou a ser chamado pelo mercado de “efeito White Lotus”.
Às vezes, basta até uma atmosfera muito específica. O filme cult russo “Brat”, dirigido por Alexei Balabanov em 1997, fez de São Petersburgo dos anos 1990 praticamente um personagem da história. Décadas depois, fãs ainda procuram o Vitebsky Station, as margens dos canais, ruas e bairros percorridos por Danila Bagrov, e existem roteiros dedicados às locações do longa.
O turista quer viver a história
Mais do que conhecer pontos turísticos, parte dos viajantes procura experiências conectadas a histórias, personagens e conteúdos que já fazem parte de seu repertório. O streaming potencializou esse comportamento ao permitir que produções realizadas em diferentes partes do mundo alcancem audiências globais quase instantaneamente.
Para Lucas Estevam, essa conexão emocional ajuda a explicar por que filmes e séries conseguem interferir de maneira tão direta na decisão de uma viagem. “Antes de chegar, aquele viajante já criou uma relação com o lugar. Ele não está indo apenas conhecer um destino. Está indo encontrar algo que, de alguma maneira, já conhece”, explicou.
Os dados indicam que a relação entre entretenimento e turismo deve ganhar ainda mais espaço. Se dois em cada três viajantes já admitem ser influenciados pelo que assistem, uma produção audiovisual deixa de ser apenas entretenimento para também funcionar como vitrine de destinos.





