Os recentes conflitos no Irã e o subsequente choque no mercado de petróleo, agravado pelo possível fechamento do Estreito de Ormuz, revelam a vulnerabilidade energética do Brasil. O país, que suspendeu a expansão de sua capacidade de refino em decorrência da Operação Lava Jato e da pressão de multinacionais do setor, encontra-se em uma posição delicada.
Essa análise é de José Sergio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, que lançou recentemente o livro "Economia do Hidrogênio: paradigma energético do futuro". A obra, publicada pelo Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep), explora as possibilidades do hidrogênio na transição energética global.
Durante conversa com a Agência Brasil, Gabrielli enfatizou que os Estados Unidos buscam intervir no mercado petrolífero mundial por meio de suas ações na Venezuela e no Irã. Ele prevê que o conflito irá remodelar a dinâmica do comércio global, com uma provável elevação da participação de Brasil, Canadá e Guiana no fornecimento de petróleo bruto para nações como China e Índia.
Contudo, a insuficiência da capacidade de refino nacional para suprir a demanda interna, especialmente por diesel, expõe o Brasil às instabilidades do cenário atual. O ex-dirigente da Petrobras também abordou o papel das empresas importadoras de combustíveis no Brasil e as implicações da guerra para a transição energética.
Os impactos da guerra no Irã para o comércio global de petróleo e gás
Sergio Gabrielli relembrou os grandes choques do petróleo de 1973 e 1979, destacando que o cenário atual representa um terceiro grande abalo, com efeitos estruturais profundos. Ele prevê uma reconfiguração da comercialização de petróleo e, de forma ainda mais acentuada, do mercado de gás, devido aos ataques às principais fontes produtoras globais.
No segmento do petróleo, os efeitos iniciais podem ser mais amenos, mas o impacto a longo prazo será considerável. Isso se deve à construção das maiores novas refinarias do mundo no Oriente Médio, como na Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Irã, cujo principal destino é o abastecimento da China e da Índia.
Gabrielli aponta que a política externa agressiva do governo Trump visava claramente o controle do mercado de petróleo, exemplificado pelo sequestro do presidente da Venezuela e pela imposição de medidas favoráveis aos EUA. Ele explica que há uma complementaridade entre o tipo de petróleo venezuelano e as refinarias norte-americanas, que são bem adaptadas a ele.
O Irã, segundo maior produtor do Oriente Médio após a Arábia Saudita, opera em um mercado próprio devido às sanções americanas, fornecendo petróleo à China e a outras regiões através de um mercado paralelo. Com o conflito, as exportações iranianas devem mudar. Ao controlar o Estreito de Ormuz, o Irã tem permitido a passagem de navios mediante pagamento em yuans, o que revela outra faceta da crise, relacionada ao uso do dólar como moeda de negociação nesse mercado. Em resumo, o mercado de petróleo passará por transformações, tanto em relação ao dólar quanto à diminuição da influência do Oriente Médio.
O objetivo dos EUA nas intervenções no Irã
Gabrielli afirma que o objetivo dos EUA é assumir o mercado paralelo que o Irã estabeleceu fora das sanções. Ele também menciona que Canadá, Guiana e Brasil são cruciais para a nova oferta de petróleo em 2027, com uma previsão de adicionar 1,2 milhão de barris diários ao mercado. Embora essa produção seja independente da guerra, o conflito irá acelerar a modificação do suprimento para a China e a Índia, países com grande capacidade de refino, mas sem produção própria de petróleo.
O petróleo brasileiro é o mais adequado para as grandes refinarias chinesas, enquanto o canadense atende às menores. Essa dinâmica fortalecerá a relação entre Canadá, Brasil e China no setor petrolífero, aumentando a já significativa presença do Brasil como terceiro maior exportador de petróleo para a China.
Como o Brasil deve se posicionar na nova conjuntura
O Brasil enfrenta um desafio de segurança energética, pois não possui capacidade de refino suficiente para atender à demanda interna de diesel, gasolina e gás de cozinha, com uma dependência de diesel que varia entre 20% e 30% do mercado. Para mitigar essa vulnerabilidade, seria necessário expandir a capacidade de refino.
A Operação Lava Jato, no entanto, inviabilizou a construção de novas refinarias. A Petrobras tinha planos para cinco novas unidades, mas apenas uma foi concluída. Entre 1980 e 2014, nenhuma nova refinaria foi inaugurada no Brasil, até a de Pernambuco em 2014.
Houve também uma histórica oposição à expansão do refino nacional, que remonta a 1911, com a atuação de empresas como Exxon e Shell, que sempre controlaram a distribuição no Brasil. A crise atual evidencia a gravidade dessa insegurança energética. Contudo, a construção de uma refinaria leva cerca de cinco anos, tornando as soluções de curto prazo, como as adotadas pelo governo, focadas em ajustes de preços.
O papel das importadoras de combustíveis
A partir do governo Temer, cerca de 300 importadores de derivados foram autorizados no Brasil. As refinarias da Petrobras, durante os governos Temer e Bolsonaro, operaram com apenas 50% de sua capacidade, abrindo espaço para o mercado de importadores. Com a chegada do governo Lula em 2023, as refinarias voltaram a operar com até 93% da capacidade, o que ainda é insuficiente para atender à demanda.
Gabrielli critica o caráter especulativo dos importadores, que só atuam quando o preço internacional é mais baixo que o nacional, exigindo um aumento do preço doméstico para justificar a importação.
O impacto do novo choque do petróleo na transição energética
Gabrielli argumenta que o mundo não pode prescindir dos combustíveis fósseis neste momento, citando o exemplo de Cuba, que sofre com a falta de petróleo. Ele considera uma "loucura" a ideia de fechar refinarias e interromper a produção de petróleo imediatamente.
Embora a alta dos preços leve a uma contração da demanda e a uma busca por mais petróleo no curto prazo, a médio prazo haverá uma mudança de comportamento. A longo prazo, esse novo choque impulsionará a transição energética.
O hidrogênio verde como solução para o combustível fóssil
Para que o hidrogênio verde se torne uma alternativa viável, é fundamental a criação de um novo mercado. Atualmente, os maiores consumidores de hidrogênio são as refinarias e as indústrias de fertilizantes. O hidrogênio tem o potencial de descarbonizar setores como a produção siderúrgica, cimento, transporte pesado e aviação.
Devido à dificuldade de transporte do hidrogênio, sua produção deve ser próxima ao consumo. Ele também compete com os biocombustíveis, pois a partir do hidrogênio é possível produzir metanol, que, por sua vez, pode gerar gasolina, diesel e querosene de aviação sem a necessidade de petróleo.
Gabrielli explica que a substituição do petróleo por hidrogênio verde já é viável em alguns locais, mas, de forma geral, analistas preveem que o hidrogênio verde dominará o mercado de combustíveis por volta de 2035. Para que essa projeção se concretize, as decisões políticas e de investimento precisam ser tomadas agora.