A grande maioria dos residentes de comunidades no Rio de Janeiro, cerca de nove em cada dez, desaprova as operações policiais que envolvem confronto armado, modelo que tem sido frequente nos últimos anos na cidade.
Esses resultados provêm de uma pesquisa pioneira conduzida por seis organizações da sociedade civil, que investigou a opinião dos moradores sobre tais operações.
O levantamento, intitulado "Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?", foi divulgado nesta quarta-feira (20).
Um total de 4.080 pessoas foram entrevistadas pessoalmente em janeiro deste ano nas comunidades do Complexo do Alemão, Complexo da Penha e Maré, localizadas na zona norte do Rio de Janeiro, e na Rocinha, na zona sul. Cada localidade contou com 1.020 participantes, distribuídos igualmente. A pesquisa foi supervisionada pela diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva.
A escalada de confrontos armados que se tem observado ao longo do tempo foi o fator motivador para a realização deste estudo. Apenas na Maré, entre 2023 e 2025, foram registradas 92 operações policiais marcadas por confrontos, mortes e feridos.
Conforme Eliana Silva, "não se pode presumir que o morador que vive ali, que precisa se deslocar diariamente para trabalhar ou levar os filhos à escola, aprove esse tipo de operação de forma simplista, sem análise e contextualização. É preocupante que essa ideia seja generalizada dessa maneira", declarou à Agência Brasil.
Brutalidade policial é amplamente rejeitada
Os dados revelam que 73% dos moradores dos complexos do Alemão e da Penha, da Maré e da Rocinha discordam do formato atual das operações policiais. Em contrapartida, 25% manifestaram concordância e 2% não forneceram resposta.
Ao serem indagados sobre a continuidade do modelo atual de operações, 92% expressaram reprovação. Desses, 68% afirmaram que as operações precisam ser conduzidas de maneira diferente, enquanto 24% consideram que não deveriam ocorrer operações policiais em favelas.
Mesmo entre aqueles que concordam com a realização de operações, apenas 20% defendem o modelo em vigor. Eliana ressaltou a importância de compreender o contexto, indo além da percepção histórica de que esse tipo de intervenção policial é a única abordagem possível nas favelas.
Eliana salientou que, para uma parcela significativa da população, os habitantes de favelas são retratados de forma bastante negativa. Isso pode levar à crença de que o confronto armado é a estratégia mais eficaz para combater o crime nessas áreas. Contudo, os impactos dessas operações na rotina dos moradores raramente são considerados.
Um total de 91% dos moradores percebe excessos e ilegalidades por parte da polícia durante essas operações. Essa percepção é compartilhada por 85% daqueles que apoiam as ações policiais. Para 90% dos entrevistados, tais excessos são inadmissíveis. Dentre os que se opõem às operações, 95% repudiam a brutalidade.
Entre os que aprovam as operações em favelas, 74% condenam os excessos cometidos pela polícia. "Ou seja, concordar com as operações não significa aceitar a violência", conclui a pesquisa.
Segundo Eliana Silva, não existe uma solução eficaz para o combate ao crime organizado sem uma visão mais abrangente e coletiva da cidade.
"A abordagem é focada. O problema são as favelas. E os próprios moradores acabam sendo influenciados por essa visão, que também é disseminada pela mídia", observou.
No entanto, quando questionados sobre abusos policiais e violações de direitos, a maioria das pessoas declara não concordar com tais práticas.
O sepultamento de uma vítima da Operação Contenção – a mais violenta e letal da capital fluminense, que resultou em mais de 120 mortes – Joédson Alves/Agência Brasil
Direitos humanos e impacto social
O objetivo do estudo, segundo seus organizadores, é analisar como o combate ao crime afeta os moradores das comunidades, que frequentemente ficam impossibilitados de sair para trabalhar ou estudar.
Desde 2016, organizações comunitárias atuantes diretamente nas áreas pesquisadas buscam compreender o impacto desses confrontos nas comunidades e gerar conhecimento sobre o tema.
"Observamos uma escalada em relação a esses enfrentamentos, à forma como a violência se manifesta e, também, à sua naturalização", comentou Eliana Silva.
A coordenadora do estudo menciona o impacto na educação. Com 140 mil habitantes, o Complexo da Maré, por exemplo, possui diversas escolas municipais para atender a comunidade.
"Essas escolas existem, mas não operam com a qualidade necessária porque fecham e ficam sem aulas por 30, 40 dias".
Para Eliana Silva, a pesquisa visa demonstrar que os moradores dessas comunidades devem ser reconhecidos como sujeitos com direito à cidade.
A restrição de mobilidade surge como o impacto mais comum das operações policiais na vida dos residentes, apontado por 51% dos que discordam das operações e por 41,5% dos que concordam. Em seguida, aparece a invasão de domicílios, estabelecimentos comerciais ou veículos, citada por 37,5% dos que discordam e 22,9% dos que aprovam as operações.
Tiroteios frequentes e a ocorrência de balas perdidas foram mencionados por 30,5% dos que discordam e por 20,7% dos moradores que declararam concordar com essas intervenções policiais.
Cenário eleitoral e segurança pública
Somente em 2025, a letalidade na Maré registrou um aumento de 58% em comparação com 2024. Eliana Sousa Silva defende a busca por métodos alternativos de combate ao crime nas favelas, que não envolvam o uso de mais armas e fuzis.
Eliana Silva exemplificou com o direcionamento de emendas parlamentares para a aquisição de fuzis para a polícia do Rio de Janeiro.
"É muito questionável quando vemos que recursos públicos, que deveriam ser destinados a ampliar a capacidade e o acesso das pessoas a políticas públicas, estão sendo usados para comprar mais armamento para a polícia".
Na operação mais letal já registrada na capital fluminense – ocorrida nos complexos do Alemão e da Penha em outubro do ano passado, com 122 mortos –, ficou evidente que o morador de favela não apoia nem concorda com esse tipo de confronto, garantiu a diretora fundadora da Redes da Maré.
"Eu acredito que todos nós, que temos origem na favela, ficamos muito incomodados com esse processo".
Quando perguntados se operações semelhantes deveriam se repetir, 85% dos moradores responderam negativamente, 7% indicaram "às vezes" e 7% afirmaram "sim".
Para Eliana Silva, neste ano eleitoral, a questão da segurança pública ganhará destaque.
"Porque temos candidatos que acreditam que a segurança pública se resume a invadir as favelas para eliminar traficantes ou milicianos, sem considerar o morador. E é exatamente isso que precisa ser abordado".
Ela enfatiza a importância de o eleitor analisar os projetos dos candidatos em relação à violência e ao combate ao crime organizado, e desconfiar de promessas genéricas.
Racismo e desigualdade social
Eliana Silva aponta que, embora as políticas públicas e os recursos públicos devam ser distribuídos de forma equitativa a toda a população, isso não ocorre. Consequentemente, observa-se uma condição de subordinação para certos cidadãos, como os moradores de favela, cujo direito fundamental à vida é ameaçado durante operações com confronto armado.
"No caso dos moradores de favela, das pessoas em situação de pobreza, há claramente uma estratégia de confronto que resulta, em muitos casos, em processos genocidas e chacinas. Portanto, chamamos a atenção para isso, pois lutamos intensamente pelo direito à vida".
Analisando o recorte racial dos entrevistados, nota-se que a discordância em relação às operações policiais atinge 81% entre pessoas negras, embora seja majoritária em todos os grupos raciais. A concordância com essas operações apresentou o maior percentual (30%) entre pessoas brancas.
O estudo também revela que a percepção de racismo nas operações policiais é predominante. Ao serem questionados se há racismo na forma como as operações são planejadas e executadas nas favelas, 61% responderam afirmativamente, 13% disseram "às vezes" e 25% "não".
Os jovens são os que mais discordam das operações policiais nas favelas. Na faixa etária de 18 a 29 anos, 79% são contra. Segundo o estudo, esse número pode estar associado a uma maior exposição (direta ou indireta) às dinâmicas de violência decorrentes das operações policiais.
"Seja porque estão em espaços públicos no momento em que a polícia intervém, seja porque são alvo de processos de criminalização, ou ainda pela proximidade com outros jovens – faixa etária que concentra a maioria das vítimas nesses casos", detalha a pesquisa.
Medo e percepção da polícia
O medo da polícia também foi um tema abordado na pesquisa. "Lembro-me de quando o veículo blindado começou a ser utilizado como única forma de presença na favela e foi apelidado de 'caveirão'. Realizamos muitas conversas com as crianças sobre isso, e o próprio nome já transmite uma sensação de medo", recorda Eliana.
No total, 78% dos moradores das quatro favelas relataram sentir pouco ou bastante medo da polícia durante as operações. Esse percentual atinge 85% entre os que se opõem às operações e 59% entre os favoráveis.
Há uma clara inversão na percepção do papel do Estado na proteção do cidadão, que se repete quando os moradores são questionados sobre indignação ou revolta em relação às operações: 50% dos entrevistados declararam sentir bastante indignação, 25% um pouco e 24% afirmaram não sentir indignação ou revolta.
Entre os que concordam com as operações, 61% relataram sentir indignação ou revolta em relação aos grupos armados. Chama a atenção, contudo, que nesse mesmo grupo, o medo das forças policiais (59%) supera o medo dos grupos armados (53%).
Isso demonstra que, mesmo entre aqueles que apoiam as operações, a polícia é vista como uma fonte de medo mais frequente do que os próprios grupos armados que as operações visam combater. A dedução é que os moradores de favelas convivem com duas fontes de violência: a policial e a criminosa.
Entidades envolvidas
A pesquisa foi realizada pelas organizações Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste, que atuam diretamente nas comunidades pesquisadas.
O estudo contou com o apoio da Cátedra Patrícia Acioli da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Fundação Tide Setúbal, Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Instituto Fogo Cruzado, Laboratório de Análise da Violência da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e Open Society Foundations.