Um novo relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), divulgado nesta quinta-feira (13), revela que a violência contra indígenas escalou no Brasil em 2025, resultando em 258 assassinatos. O aumento, que supera os 211 casos de 2024, foi impulsionado pela paralisação nas demarcações e pela intensificação dos conflitos por terras nos estados de Roraima, Amazonas e Mato Grosso do Sul.
O documento do Cimi aponta que o cenário de insegurança nos territórios desencadeou uma onda de invasões e ataques diretos a comunidades originais. O levantamento identificou altas expressivas em três eixos centrais: agressões contra a pessoa, violações do patrimônio e episódios de omissão do Poder Público.
Além disso, o estudo documentou a ampliação de disputas associadas a direitos territoriais, suicídios e altos índices de mortalidade na infância.
Violência contra a pessoa
Casos graves marcaram o período de análise. No início do ano, quatro indígenas do povo Avá-Guarani foram baleados na Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, no Paraná, durante disputa territorial. Em março, o líder Pataxó Vitor Braz foi morto na Bahia. Já em novembro, o Guarani Kaiowá Vicente Fernandes acabou assassinado em Mato Grosso do Sul.
A publicação ressalta que essas mortes ocorreram em áreas já delimitadas formalmente pela União. Contudo, os processos administrativos de demarcação arrastam-se há mais de uma década, alimentando a vulnerabilidade local.
Mesmo com operações pontuais de desintrusão promovidas pelo governo federal e respaldadas por decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a ação de invasores e grupos ilegais permaneceu constante nos territórios.
A análise vincula diretamente o aumento das agressões às incertezas jurídicas causadas pela Lei 14.701/2023, conhecida como Lei do Marco Temporal. A demora do STF em julgar as inconstitucionalidades do dispositivo agravou a pressão sobre as terras.
O relatório ressalta que a legislação abre brechas para a exploração econômica por terceiros, somando-se à pressão pela mineração, exploração de petróleo e grandes obras de infraestrutura.
Violência contra o patrimônio
Em 2025, foram contabilizados 1.276 episódios de violência contra o patrimônio indígena. Desse montante, 897 registros referem-se à morosidade na regularização fundiária, enquanto 210 tratam de invasões possessórias e exploração ilegal de recursos naturais.
Atualmente, das 1.443 reivindicações territoriais registradas no Brasil, 897 aguardam providências do Estado. Apenas 582 áreas sequer tiveram seus processos demarcatórios iniciados pela administração pública.
Apesar do cenário desafiador, houve avanços pontuais da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e do Ministério da Justiça, com a homologação de sete terras e a criação de 16 grupos técnicos. Porém, o relatório alerta que o ritmo permanece insuficiente perante as urgências das comunidades.
Omissão do Poder Público e crise sanitária
A omissão estatal refletiu-se tragicamente nos índices sociais. O país registrou 215 suicídios de indígenas, número superior aos 208 do ano anterior, com maior prevalência entre jovens de 20 a 29 anos. Amazonas, Mato Grosso do Sul e Roraima concentraram os registros.
A mortalidade infantil também sofreu uma alta expressiva, somando 1.024 óbitos de crianças de até 4 anos. A maioria dessas mortes — cerca de 57% — decorreu de causas evitáveis, como pneumonia, diarreia e desnutrição severa.
Foram computados 366 casos diretos de desassistência, destacando-se a escassez de água potável, saneamento e equipes médicas. Esse quadro foi agravado pela contaminação de rios por garimpo e agrotóxicos, afetando gravemente populações acampadas em margens de rodovias no Rio Grande do Sul.
Ameaça iminente aos povos isolados
O relatório também alertou para a situação crítica de grupos em isolamento voluntário. Das 119 ocorrências registradas pelo Cimi, apenas 28 contam com confirmação oficial da Funai, deixando dezenas de grupos expostos a riscos genocidas sem qualquer proteção governamental.