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Terça-feira, 02 de Junho 2026
Direitos Humanos

Mais de 150 mil agressões contra população em situação de rua no Brasil em uma década

Estudo aponta que, diariamente, ao menos 120 casos graves de violência contra pessoas em vulnerabilidade social são registrados pelo sistema de saúde.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Mais de 150 mil agressões contra população em situação de rua no Brasil em uma década
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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O Brasil registrou aproximadamente 150 mil episódios de violência contra a população em situação de rua entre 2014 e 2023. Um estudo recente, divulgado pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/POLOS-UFMG), revela que a subnotificação é um problema crônico, indicando que o número real de casos é significativamente maior. A pesquisa, intitulada 'A Cartografia Invisível: 10 anos de Violência contra a População em Situação de Rua', destaca que 70% das vítimas não buscam atendimento após sofrerem agressões, muitas vezes devido a barreiras institucionais e desconfiança.

O levantamento, que cruzou dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e do Sistema Único de Saúde (SUS) com denúncias do Disque 100, aponta que a violência contra essa parcela vulnerável da população tem se intensificado. Diariamente, pelo menos 120 casos graves de agressões são reportados ao sistema de saúde, com 12% resultando em trauma físico severo ou óbito.

Perfil das vítimas e agressores

Os dados revelam que as principais vítimas são homens jovens e negros, com pretos e pardos representando 78% das notificações. Jovens entre 15 e 49 anos concentram 82% dos ataques. Contudo, a letalidade das agressões é maior quando direcionadas a mulheres ou pessoas trans. O estudo também aponta que a aporofobia, aversão a pessoas pobres, é um fator chave, com a maioria dos agressores sendo desconhecidos das vítimas.

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O professor André Luiz Freitas Dias, coordenador do estudo, ressalta que o perfil das vítimas reflete e aprofunda violências estruturais como o racismo e desigualdades históricas. Fatores como deficiência, transtornos mentais, orientação sexual e identidade de gênero ampliam a vulnerabilidade, especialmente em relação a violências sexual e institucional.

Tipos de violência e recorrência

A violência física é a forma mais comum, respondendo por 65% dos casos, seguida pela psicológica (42%), negligência e abandono (18%), sexual (15%) e autoprovocada (10%). O estudo identifica um padrão preocupante de recorrência, onde vítimas sofrem agressões repetidas vezes, acessando serviços de saúde em emergências e retornando a condições de vulnerabilidade.

Robson César Correia de Mendonça, presidente do Movimento Estadual da População em Situação de Rua de São Paulo, corrobora a gravidade do problema, mencionando que a violência é uma realidade diária, muitas vezes perpetrada por agentes do Estado em ações de zeladoria ou remoções. Ele critica a falta de cumprimento das garantias de direitos por parte do Poder Público.

Crescimento alarmante e interiorização

Os indicadores de violência contra a população em situação de rua demonstram um crescimento contínuo e preocupante na última década. As notificações no Disque 100 saltaram de cerca de 12,5 mil em 2020 para 45,8 mil em 2023. Estados como São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Ceará e Rio de Janeiro apresentam aumentos expressivos, variando entre 127% e 206%.

O fenômeno também se interioriza, com municípios de médio porte em estados como Minas Gerais, Paraná e Santa Catarina registrando um aumento acelerado de casos. Regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, apesar de altos índices de subnotificação, também mostram expansão do problema.

Recomendações e políticas públicas

O estudo recomenda uma resposta integrada que vá além da segurança pública. Entre as sugestões estão a criação de sistemas de monitoramento preditivo, descentralização de investimentos para o interior, implementação urgente de políticas estruturantes (moradia, trabalho, educação) e fortalecimento da articulação entre saúde, assistência social, justiça e direitos humanos. A substituição de abordagens de criminalização da pobreza por estratégias de acolhimento e garantia de direitos é vista como fundamental.

O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) informou que registrou 6.381 casos de violência contra pessoas em situação de rua em 2024, um aumento de 3,5% em relação ao ano anterior. Para combater esse cenário, o ministério lançou o programa Cidadania PopRua, focado em acolhimento, atendimento psicossocial e reinserção social, reforçando que a proteção e garantia de direitos dessa população são prioridades da pasta.

FONTE/CRÉDITOS: Elaine Patricia Cruz – Repórter da Agência Brasil
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