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Terça-feira, 23 de Junho 2026
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Direitos Humanos

Mulheres muçulmanas enfrentam islamofobia no Brasil, revela relatório da USP

O estudo do Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias) aponta que oito em cada dez são vítimas de intolerância nas ruas e na internet.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Mulheres muçulmanas enfrentam islamofobia no Brasil, revela relatório da USP
© Rovena Rosa/Agência Brasil
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Oito em cada dez mulheres muçulmanas no Brasil são vítimas de islamofobia, enfrentando ataques de intolerância e ódio à sua religião tanto no ambiente online quanto nas ruas. Essa alarmante realidade é revelada pela 3ª edição do Relatório de Islamofobia do Brasil, um estudo científico conduzido pelo Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes (Gracias), da Universidade de São Paulo (USP).

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores do Gracias analisaram os depoimentos de 328 mulheres, englobando tanto a vertente sunita quanto a xiita. As participantes foram segmentadas em quatro grupos distintos: brasileiras de famílias com tradição islâmica, brasileiras convertidas, estrangeiras nascidas muçulmanas e estrangeiras que se converteram.

A análise da equipe revelou que a maioria das vítimas de islamofobia, precisamente 84,5%, são brasileiras que se converteram ao Islã. Os estudiosos sugerem que a intensa articulação coletiva dessas mulheres pode ser um fator contribuinte para essa maior exposição.

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A incidência de ataques diminui para 80,4% entre as brasileiras que já nasceram em famílias islâmicas. Para as estrangeiras convertidas e as nascidas muçulmanas, os percentuais são de 75% e 60%, respectivamente, conforme detalhado no relatório divulgado no último sábado, dia 20.

A islamofobia no cotidiano: ruas, internet e ambiente de trabalho

De forma alarmante, quase a totalidade das participantes brasileiras convertidas (96,7%) confirmou a existência de discriminação contra mulheres muçulmanas no país.

As fiéis islâmicas são frequentemente vitimadas em diversos ambientes: nas ruas (36,4%), na internet (30,9%) e no local de trabalho (19,7%). Os membros do Gracias inferem que a islamofobia se manifesta com maior intensidade em contextos de exposição pública e interação social cotidiana.

Para muitas das mulheres entrevistadas, a discriminação resulta em sérios impactos psicológicos, incluindo quadros de depressão e transtorno de ansiedade.

Uma das entrevistadas relatou: "Fui obrigada a migrar de carreira após a reversão, não consegui mais atuar na área", evidenciando o impacto profissional da intolerância.

A associação indevida de mulheres muçulmanas ao terrorismo constitui outra forma corriqueira de menosprezo. "No trabalho, fui chamada de mulher bomba por um médico", desabafou uma das vítimas, ilustrando a natureza das ofensas.

Outra mulher descreveu sua demissão de uma empresa: "Eu era recepcionista num conjunto de salas. O contador veio muito simpático e falso perguntar sobre a minha religião e vestimenta e depois disse para meu chefe que não era bom que eu trabalhasse na recepção, pois causava má impressão aos clientes dele. Fui demitida."

A coordenadora do Gracias, professora Francirosy Campos Barbosa, critica a postura da mídia: "A mídia não tem interesse em dar espaço ao Islã, aos muçulmanos, não tem interesse em aprender que usar o véu não retira o pensamento, não transforma mulheres em seres ignorantes, nem tudo é sobre opressão, pode ser também liberdade, escolha e principalmente devoção. A imprensa é colonizada, há domínios de agências de notícias."

Apesar da gravidade dos ataques, apenas 6% das brasileiras convertidas registram boletim de ocorrência, uma taxa inferior aos 8,7% das brasileiras nascidas muçulmanas. A falta de confiança na investigação das denúncias é apontada como um dos motivos para a subnotificação.

A dimensão exata da comunidade islâmica no Brasil permanece incerta, uma vez que o Censo Demográfico não fornece dados desagregados. O número de indivíduos que se declaram muçulmanos é agrupado com o de outras religiões com menor número de adeptos.

A escalada da islamofobia no ambiente virtual

Conforme o levantamento do Gracias, o Instagram se destaca como a plataforma social com o maior número de agressões, totalizando 120 casos, o que representa 74,5% do total.

O Facebook, parte do grupo Meta, e o WhatsApp somam 55 ocorrências (34,2%). Já o TikTok e o X (antigo Twitter) foram mencionados em 27 (16,8%) e 12 (7,5%) ocasiões, respectivamente.

Os pesquisadores apontam que, no Instagram, a exposição da aparência, do cotidiano e das práticas religiosas das mulheres muçulmanas facilita a marginalização. No Facebook, a polarização gerada pela formação de comunidades é o principal fator.

O TikTok, por sua vez, contribui para a disseminação de conteúdo islamofóbico ao permitir a rápida replicação de vídeos para uma ampla gama de públicos.

Em suas diretrizes, o Instagram afirma ter como meta "prevenir possíveis casos de violência no meio físico que possam estar relacionados ao conteúdo em nossas plataformas."

A plataforma complementa: "Embora entendamos que as pessoas geralmente expressam desdém ou desacordo por meio de ameaças ou incitação à violência de maneiras casuais e sem seriedade, removemos palavras que incitem ou facilitem a violência e ameaças plausíveis ​​à segurança pública ou pessoal."

Contudo, a professora Francirosy Campos Barbosa argumenta que a política da plataforma, formulada nesses termos, tende a minimizar a seriedade das ameaças e incitações à violência.

Procurada pela reportagem, a Meta, empresa controladora do Instagram e Facebook, declarou que não tolera "conteúdo que promova ataques contra pessoas com base em características protegidas, conforme estabelecido em seus Padrões da Comunidade, como raça, etnia, nacionalidade, deficiência, religião, casta, orientação sexual, sexo, identidade de gênero e doença grave."

A empresa acrescentou: "Removemos esse tipo de conteúdo sempre que identificamos violações e aplicamos as medidas previstas em nossas diretrizes. Também incentivamos as pessoas a denunciarem qualquer publicação que considerem violar nossas diretrizes."

O TikTok não se manifestou em resposta ao questionamento da Agência Brasil. A reportagem também não obteve sucesso ao tentar contatar a plataforma X até o fechamento desta matéria.

FONTE/CRÉDITOS: Letycia Treitero Kawada - Repórter da Agência Brasil
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