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Sexta-feira, 01 de Maio 2026
Saúde

No Brasil, quase metade das mortes por câncer poderia ser evitada

Estudo aponta que mais de 109 mil óbitos por câncer poderiam ter sido prevenidos ou tratados precocemente em 2022.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
No Brasil, quase metade das mortes por câncer poderia ser evitada
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
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Uma pesquisa internacional sobre a mortalidade por câncer em escala global revela que 43,2% dos falecimentos causados pela doença no Brasil seriam evitáveis, mediante a adoção de medidas preventivas, diagnóstico em estágios iniciais e acesso aprimorado a tratamentos.

O levantamento estima que, dos casos de câncer diagnosticados no país em 2022, aproximadamente 253,2 mil devem resultar em óbito nos próximos cinco anos após a detecção. Desse montante, cerca de 109,4 mil poderiam ter sido prevenidos.

Intitulado “Mortes evitáveis por meio da prevenção primária, detecção precoce e tratamento curativo do câncer no mundo”, o estudo integra a edição de março da renomada revista científica The Lancet, uma das mais prestigiadas publicações médicas internacionais, e está disponível para consulta online.

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O trabalho é assinado por um grupo de doze autores, sendo oito deles vinculados à Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc), uma organização ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS) e sediada em Lyon, na França.

Os pesquisadores categorizam as quase 110 mil mortes por câncer evitáveis no Brasil em duas frentes: 65,2 mil são consideradas preveníveis, ou seja, a doença poderia nem ter se manifestado; e as restantes 44,2 mil são classificadas como evitáveis por meio de um diagnóstico antecipado e acesso adequado a tratamentos.

Cenário global

A análise oferece uma visão mundial sobre a mortalidade por câncer, compilando informações de 35 tipos da doença em 185 países.

Em âmbito global, a porcentagem de óbitos que poderiam ser evitados alcança 47,6%. Isso significa que, dos 9,4 milhões de mortes causadas pela enfermidade, quase 4,5 milhões não precisariam ter ocorrido.

O grupo de pesquisa detalha que, do total de mortes, um terço (33,2%) é prevenível, e 14,4% poderiam ser evitadas caso houvesse diagnóstico precoce e acesso oportuno a tratamentos.

Ao estimar quantas mortes poderiam ser evitadas por medidas de prevenção, os pesquisadores apontam cinco fatores de risco principais:

  • Tabagismo;
  • Consumo de álcool;
  • Excesso de peso;
  • Exposição à radiação ultravioleta;
  • Infecções (causadas por vírus como o HPV e o da hepatite, e pela bactéria Helicobacter pylori).

Contrastes regionais

Ao comparar diferentes países, regiões geográficas e níveis de desenvolvimento, o estudo evidencia significativas disparidades globais.

As nações do norte da Europa apresentam um percentual de mortes evitáveis próximo de 30%. A Suécia (28,1%) é a mais bem posicionada, seguida pela Noruega (29,9%) e Finlândia (32%). Isso indica que, a cada dez óbitos, apenas três poderiam ser evitados.

No outro extremo, as dez maiores proporções de mortes evitáveis concentram-se em países africanos. A situação mais crítica é observada em Serra Leoa (72,8%), seguida por Gâmbia (70%) e Malaui (69,6%).

Nessas nações, sete a cada dez mortes poderiam ser evitadas com maior prevenção, aprimoramento do diagnóstico e acesso facilitado a tratamentos.

Menores índices de mortes evitáveis:

  • Austrália e Nova Zelândia: 35,5%;
  • Norte da Europa: 37,4%;
  • América do Norte: 38,2%.

Maiores proporções:

  • África Oriental: 62%;
  • África Ocidental: 62%;
  • África Central: 60,7%.

A América do Sul registra 43,8% de mortes por câncer evitáveis, um indicador bastante similar ao do Brasil.

Impacto do IDH

As desigualdades também se manifestam quando os países são agrupados conforme o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), um indicador da Organização das Nações Unidas (ONU) que leva em consideração os níveis de saúde, educação e renda.

Em nações com baixo IDH, que denota menor qualidade de vida, seis a cada dez (60,8%) mortes por câncer poderiam ter sido prevenidas. Em seguida, situam-se os grupos de IDH alto (57,7%), médio (49,6%) e muito alto (40,5%). O Brasil é classificado como um país de IDH alto.

A pesquisa aponta que, nos grupos de países com baixo e médio IDH, o câncer de colo de útero figura como a principal causa de mortes evitáveis. Contudo, nos grupos de IDH alto e muito alto, este tipo de câncer sequer aparece entre os cinco mais relevantes em número de óbitos preveníveis.

Outra forma de evidenciar a disparidade entre os países é a diferença nas taxas de mortalidade por câncer do colo do útero: em nações com IDH muito alto, a proporção é de 3,3 vítimas a cada 100 mil mulheres. Já em países de baixo IDH, essa relação eleva-se para 16,3 por 100 mil.

Principais tipos de câncer

O estudo publicado na The Lancet estima que 59,1% das mortes evitáveis estão associadas a cânceres de pulmão, fígado, estômago, colorretal e colo do útero.

Quando se observa apenas os casos que poderiam ser prevenidos por medidas primárias, o câncer de pulmão emerge como o maior causador de óbitos, com 1,1 milhão de mortes, representando 34,6% de todas as mortes por câncer passíveis de prevenção.

Já o câncer de mama em mulheres lidera as mortes tratáveis, ou seja, aquelas em que a paciente poderia ter sobrevivido com diagnóstico e tratamento adequados. Foram 200 mil casos, correspondendo a 14,8% do total de mortes em situações passíveis de tratamento.

Estratégias de combate

Os pesquisadores indicam diversas estratégias para reduzir o número de mortes evitáveis. Entre elas, a implementação de campanhas e ações que visem diminuir a incidência do tabagismo e do consumo de álcool, além de sugerir o aumento de preços desses produtos para desestimular seu uso.

O estudo também foca na questão do excesso de peso. “O crescente número de pessoas com excesso de peso representa desafios consideráveis para a saúde global”, apontam os autores. Eles propõem iniciativas como intervenções que regulam a publicidade, a rotulagem e a taxação de alimentos e bebidas não saudáveis.

Os pesquisadores enfatizam a relevância da prevenção de infecções associadas ao câncer, como o HPV, que é passível de prevenção por meio da vacinação.

Os autores ressaltam ainda a necessidade de concentrar esforços em metas relacionadas à detecção do câncer de mama.

As metas da OMS incluem que “pelo menos 60% dos cânceres de mama sejam diagnosticados nos estágios um ou dois [em uma escala que vai de zero a cinco] e que mais de 80% dos pacientes recebam diagnóstico dentro de 60 dias após a primeira consulta”.

O estudo conclui que “são necessários esforços globais para adaptar a prevenção, o diagnóstico precoce e o tratamento do câncer a fim de enfrentar as desigualdades nas mortes evitáveis, especialmente em países com baixo e médio IDH”.

No Brasil, o Ministério da Saúde e o Instituto Nacional de Câncer (Inca) conduzem campanhas regulares de prevenção e diagnóstico precoce.

FONTE/CRÉDITOS: Bruno de Freitas Moura - Repórter da Agência Brasil
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