Nesta sexta-feira, 26 de junho, os restos mortais de Grenaldo de Jesus Silva, ex-militar da Marinha assassinado pela ditadura militar em 1972, foram finalmente sepultados em São Paulo. A cerimônia, carregada de emoção, ocorreu no Cemitério Dom Bosco, em Perus, local onde ele havia sido inicialmente enterrado como indigente na vala clandestina. O ato simboliza um passo crucial na busca por justiça e memória para as vítimas do regime.
A mensagem “Descanse em paz, pai!”, gravada por Grenaldo Mesut para seu pai, adornava uma coroa de flores. Ela foi cuidadosamente depositada sobre o pequeno caixão, marcando o descanso final dos restos mortais que por tanto tempo estiveram à espera de um sepultamento digno.
Enquanto o público presente entoava a icônica canção “Pra Não Dizer que Não Falei das Flores”, de Geraldo Vandré, o cortejo percorreu o cemitério. Cinquenta e quatro anos após sua morte, o caixão com os restos mortais de Grenaldo foi depositado na sepultura 105, na gleba 1, quadra 2, do Cemitério Dom Bosco, espaço cedido pela concessionária Cortel.
Para assegurar que o país jamais esqueça as vítimas da ditadura, uma placa robusta foi instalada na sepultura. Ela exibe uma fotografia de Grenaldo, informações sobre sua identidade e a data de seu falecimento, complementada pela comovente frase de seu filho: “Podia ser diferente, não é, meu pai?”.
Este sepultamento é o desfecho de um esforço conjunto. Ele envolveu a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (Cemdp) do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), a Comissão de Familiares de Pessoas Mortas e Desaparecidas Políticas de São Paulo, a Concessionária Cortel e o Centro de Arqueologia e Antropologia Forense da Universidade Federal de São Paulo (Caaf/Unifesp).
Homenagem
Antes do sepultamento, Grenaldo Mesut, filho do falecido e portador do mesmo nome, prestou uma homenagem emocionante ao pai que mal pôde conhecer.
“Para mim é uma felicidade muito grande, é uma mistura de emoções, mas eu estou muito feliz”, declarou Grenaldo, acompanhado de sua filha e esposa.
Ele expressou o desejo de que “essa felicidade possa também ser passada aos outros que estão ainda na luta buscando os seus entes queridos e seus familiares. E que um dia eles possam ter a mesma felicidade que eu estou tendo, de poder dar um lugar digno para o meu pai, que foi um herói dessa nação”.
Profundamente emocionado, Grenaldo não conseguiu ler a mensagem que havia preparado com a filha para o momento. Coube à sua filha, então, a leitura das palavras.
“Hoje eu me despeço de alguém que nunca pôde realmente fazer parte da minha vida. Existem dores que nascem da convivência e outras que nascem da ausência. A sua ausência atravessou décadas, gerações e histórias que nunca puderam ser vividas e mesmo assim, senti falta de todos esses momentos que nunca tive”, ela leu.
A mensagem prosseguiu: “Perder alguém que nunca as teve parece impossível de se explicar. É sentir falta de conversas que não aconteceram, de abraços que não vieram e de memórias que não puderam ser construídas. Ainda assim, sua existência permaneceu viva na espera, na busca e na esperança de que um dia eu o encontraria”.
“Mesmo que não fosse da maneira que eu imaginei. Hoje dou um lugar à memória, ao luto que ficou suspenso e a história que insistiu em permanecer. Que esta despedida traga a possibilidade do descanso que eu não pude ter durante todos esses anos e que o senhor, meu pai, possa finalmente encontrar esse descanso e, desta vez, de uma forma digna, honrada e justa, assim como imagino que o senhor tenha sido em vida”, concluiu a neta.
Memória e justiça
A ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello, esteve presente no sepultamento. Ela enfatizou que o momento possui “um profundo significado para a história do Brasil” e representa “um grande avanço para o Estado brasileiro”.
“A gente quer garantir não só o direito à memória, mas à verdade, à reparação e à justiça. Esse sepultamento para a gente tem um simbolismo muito grande, principalmente por ser realizado no dia de hoje, que é o Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura. Isso mostra o compromisso do nosso governo em não aceitar que a tortura seja uma prática possível dentro do nosso país em nenhum outro momento”, disse a ministra à imprensa.
Janine Mello reiterou que o governo federal manterá o investimento em recursos para os trabalhos de identificação das vítimas da ditadura militar, o que possibilitou o sepultamento de Grenaldo.
“A gente ainda tem um longo caminho pela frente. A gente já conseguiu alguns avanços importantes aqui em relação à alteração das certidões de óbito. A gente tem tido também avanço na identificação de vítimas da ditadura. Hoje a gente avança do ponto de vista simbólico com esse sepultamento, mas temos um plano de ação pela frente que vai nos demandar muito trabalho e muito esforço, mas que estamos muito comprometidos a fazer”, afirmou.
Para a procuradora da República Eugênia Augusta Gonzaga, presidente da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, a cerimônia contribui para restaurar a dignidade das famílias afetadas pelas violências da ditadura militar brasileira.
“Isso devolve a dignidade para esses corpos que foram escondidos e que ficaram aqui no meio da lama, e também devolve para as famílias a esperança de um dia poder fazer esse sepultamento”, disse ela.
“Esse é um momento de valor imensurável para a família dele e, de certo modo, para todas as famílias, porque a luta de um é a luta de todos”, acrescentou a procuradora.
Em entrevista à Agência Brasil, o professor da Unifesp e coordenador do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense, Edson Teles, destacou a importância da identificação das ossadas da vala clandestina do Cemitério Dom Bosco para a construção da memória nacional.
“Quando a gente entrega para a família os restos mortais de um desaparecido, a gente também faz uma grande reparação histórica ao país e aos movimentos de direitos humanos. Conhecer essa história é entender a fundo a estrutura de violência de Estado que a gente vive de forma cotidiana no país”, explicou Teles.
Ricardo Polito, diretor executivo do grupo Cortel, afirmou que o sepultamento de Grenaldo representa não apenas “o encerramento de uma busca, mas também um símbolo da força, da memória, da verdade e da dignidade humana”.
“Quando fui procurado para que pudéssemos viabilizar esse sepultamento, entendi imediatamente que não se tratava de um serviço comum. Tratava-se de uma família que aguardava há mais de cinco décadas por um momento como este. Tratava-se da oportunidade de devolver dignidade, memória e respeito a uma história que jamais poderia ser esquecida”, detalhou Polito.
Para a escritora e ex-presa política Amelinha Teles, integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos, o sepultamento de Grenaldo é um “reconhecimento de que essa luta [dos familiares] vale a pena”.
“A luta dos familiares contribuiu para a gente construir a verdade, a memória e a justiça”, disse ela, ressaltando a importância do engajamento.
“Esse é um momento de vitória, de agradecimento e de mostrar que a necessidade dessa luta continua. O Grenaldo hoje teve a felicidade de poder enterrar o seu pai. Mas muitos ainda não tiveram essa oportunidade. A pergunta ‘onde estão os desaparecidos políticos?’ continua no ar e nós precisamos dar uma resposta para isso”, completou Amelinha Teles.
Grenaldo
Grenaldo de Jesus Silva, militar da Marinha nascido em São Luís, Maranhão, foi preso em 1964 e expulso da Força por reivindicar melhores condições de trabalho. Após fugir da prisão e viver na clandestinidade, ele foi morto em 30 de maio de 1972, durante uma tentativa de capturar uma aeronave no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Na época, a imprensa divulgou a versão da ditadura de que ele teria cometido suicídio. Contudo, o Comitê Brasileiro pela Anistia, os movimentos de familiares de mortos e desaparecidos políticos e ex-presos políticos rejeitaram essa versão oficial, e seu caso foi incluído entre as vítimas da repressão.
As circunstâncias de sua morte permaneceram obscuras até que uma reportagem da jornalista Eliane Brum, publicada em 2003, revelou que ele havia sido assassinado por agentes do Estado com dois tiros: um na nuca e outro no peito.
Documentos do Instituto Médico Legal (IML) registraram que Grenaldo foi sepultado em 1º de junho de 1972 no Cemitério Dom Bosco como indigente. Ele permaneceu na lista de desaparecidos até que seus remanescentes ósseos fossem identificados pela equipe do Projeto Perus, em abril do ano passado.
A vala
A vala clandestina de Perus foi descoberta em 1990 pelo jornalista Caco Barcellos, enquanto investigava homicídios praticados por policiais militares.
Ao analisar laudos periciais em uma sala do IML, especialmente nos processos de 1971 a 1973 referentes a encaminhamentos de mortos pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops), o jornalista notou a letra “T” escrita a lápis vermelho em alguns documentos. Ao questionar funcionários do IML, descobriu que a letra se referia a “terrorista”.
Barcellos comunicou a descoberta à gestão da então prefeita de São Paulo, Luiza Erundina, que prontamente autorizou o início das escavações. No local, foram encontrados 1.049 ossadas não identificadas, incluindo vítimas de esquadrões da morte, indigentes e presos políticos.
Após a descoberta da vala, a prefeitura firmou um convênio com a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) para a identificação das ossadas, com encaminhamentos também para a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O trabalho foi interrompido pouco tempo depois, e em 2002, as ossadas foram transferidas para o Cemitério do Araçá, em São Paulo, sob a responsabilidade da Universidade de São Paulo (USP).
A demora na conclusão do trabalho de identificação gerou questionamentos em uma ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal em 2009.
Em 2014, uma parceria entre a Secretaria Especial de Direitos Humanos (atual Ministério dos Direitos Humanos), a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) permitiu a retomada dos trabalhos de identificação dos restos mortais resgatados da vala clandestina do Cemitério de Perus. No entanto, poucas ossadas foram identificadas até hoje.
Em 2024, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania assinou um novo Acordo de Cooperação Técnica com a Unifesp e a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e da Cidadania de São Paulo. O objetivo é financiar a contratação da equipe pericial e dar continuidade aos trabalhos.
Em março do ano passado, a então ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Macaé Evaristo, reconheceu publicamente a falha do Estado brasileiro na guarda e identificação dos remanescentes ósseos da Vala Clandestina de Perus.
“O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em nome do Estado brasileiro, pede desculpas aos familiares dos desaparecidos políticos durante a ditadura militar brasileira, iniciada em 1964, e à sociedade brasileira pela negligência, entre 1990 e 2014, na condução dos trabalhos de identificação das ossadas, encontradas na vala clandestina de Perus, localizada no Cemitério Dom Bosco em São Paulo”, declarou a ministra na ocasião, dirigindo-se aos familiares das vítimas.
Até o momento, apenas seis restos mortais, das 42 pessoas que provavelmente foram assassinadas durante a ditadura militar e sepultadas na vala de Perus, haviam sido identificados: Denis Casemiro (identificado em 1991 e confirmado em 2025), Frederico Eduardo Mayr (1992), Flávio Carvalho Molina (2005), Dimas Antônio Casemiro (2018), Aluísio Palhano Pedreira Ferreira (2018) e Grenaldo de Jesus Silva (2025).