O recente tarifaço aplicado pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, embora focado em apenas 18% das exportações nacionais para o mercado estadunidense, é projetado para ter um impacto limitado na balança comercial geral do Brasil. Contudo, especialistas consultados pela Agência Brasil alertam que a indústria exportadora nacional enfrentará desafios mais significativos, com perdas de competitividade em setores específicos.
Áreas como máquinas, aço, alumínio, calçados e automóveis são as mais vulneráveis, conforme a análise de especialistas ouvidos pela Agência Brasil. Esses segmentos, que dependem fortemente do mercado americano, possuem menor flexibilidade para redirecionar suas operações para outros destinos.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) revelam que, no primeiro semestre do ano corrente, o Brasil registrou um déficit de US$ 1,5 bilhão em sua relação comercial com os Estados Unidos, importando mais do que exportou. Este cenário de desequilíbrio persiste, mesmo com a retração do comércio bilateral observada desde o ano anterior.
Comércio bilateral em retração
As trocas comerciais entre Brasil e Estados Unidos totalizaram US$ 36,4 bilhões no primeiro semestre, representando uma queda de 12,8% em comparação com o mesmo período do ano passado.
As exportações brasileiras para os EUA diminuíram 13%, atingindo US$ 17,4 bilhões, enquanto as importações de produtos americanos caíram 12,5%, somando US$ 19 bilhões. Consequentemente, o Brasil encerrou o período com um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão.
Em junho, as exportações tiveram um crescimento de 3,7%, alcançando US$ 3,47 bilhões. No entanto, este resultado foi impulsionado principalmente pelo aumento de 11% nos preços médios, enquanto o volume de produtos embarcados registrou uma retração de 6,6%.
Impacto concentrado em setores específicos
Lia Valls, pesquisadora associada do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getulio Vargas e professora da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), argumenta que o tarifaço dificilmente alterará o desempenho agregado da balança comercial brasileira. Ela justifica que os Estados Unidos representam atualmente uma parcela menor das exportações nacionais.
"É pouco provável que o saldo da balança seja alterado em termos macroeconômicos. Nosso principal mercado é a Ásia, especialmente a China, e a participação das exportações para os Estados Unidos caiu para cerca de 9,4%", explica Valls.
Segundo a economista, os efeitos mais pronunciados serão percebidos por empresas e segmentos industriais que possuem maior dependência do mercado americano.
"Podemos observar impactos mais microeconômicos em empresas, sobretudo nos setores de máquinas, equipamentos, madeira e calçados", detalha a pesquisadora.
José Augusto de Castro, presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), corrobora a visão de que o tarifaço não terá um efeito significativo sobre o superávit comercial geral do país.
“O superávit comercial brasileiro é quase que exclusivamente impulsionado pelas commodities. O tarifaço, convenientemente, poupou justamente os produtos primários nos quais o Brasil compete com os Estados Unidos, como soja, suco de laranja e carnes”, esclarece Castro.
Prejuízo para a indústria nacional
Para José Augusto de Castro, o maior prejuízo recairá sobre a indústria nacional, responsável pela produção de bens de maior valor agregado.
"Embora tenhamos um grande superávit comercial, enfrentamos um déficit gigantesco no segmento de manufaturados. Este déficit é preocupante, pois o setor manufatureiro é o principal gerador de empregos no Brasil", ressalta.
Castro acrescenta que as novas barreiras tarifárias tendem a beneficiar concorrentes internacionais.
"Como a sobretaxa incidiu diretamente sobre os produtos manufaturados, abre-se espaço para outros países que antes não exportavam esses itens e agora podem ocupar essa fatia de mercado", complementa.
Motivações políticas por trás das tarifas
Na análise de Lia Valls, a escalada das tarifas deixou de ser pautada exclusivamente por critérios econômicos, passando a incorporar argumentos de cunho político. Essa perspectiva ganha força, especialmente porque, ao contrário da maioria dos países, o Brasil mantém um déficit comercial com os Estados Unidos.
"Quando ele [Trump] elevou [as tarifas] para 40%, os argumentos eram, de fato, muito mais políticos do que econômicos", afirma.
A economista aponta que temas como decisões do Supremo Tribunal Federal (STF), a regulamentação de plataformas digitais, o Pix e políticas ambientais foram utilizados como justificativas para a ampliação das sanções comerciais.
Debate sobre a retaliação brasileira
O governo federal considera a possibilidade de recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica como resposta ao tarifaço americano. No entanto, especialistas demonstram ceticismo quanto aos potenciais benefícios de tal retaliação.
Lia Valls avalia que o Brasil não possui a capacidade necessária para impor perdas significativas aos Estados Unidos.
"O problema é que não temos capacidade de retaliação efetiva contra os Estados Unidos. Se não conseguimos causar um dano real ao outro, a medida pode acabar se voltando contra nós. O ganho seria ínfimo. O caminho mais prudente é denunciar a medida e levar o caso à Organização Mundial do Comércio", sugere.
José Augusto de Castro também considera que uma resposta tarifária tende a ser ineficaz.
"Não acredito em retaliação. O comércio internacional se constrói através de negociações, não de retaliações. O Brasil não tem cacife para retaliar os Estados Unidos. Temos tudo a perder e nada a ganhar. Na teoria, a reciprocidade parece uma abordagem adequada, mas, na prática, sua implementação é extremamente complexa", adverte.
Setores e produtos sob o impacto das tarifas
As tarifas foram instituídas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento frequentemente empregado pelos Estados Unidos para aplicar medidas comerciais unilaterais.
Embora a alíquota-padrão seja de 25%, em 24% dos produtos atingidos, ela chega a 50%. Isso ocorre porque o tarifaço, nesses casos, foi somado a tarifas já impostas anteriormente pelos Estados Unidos.
Entre os setores mais afetados estão aço, alumínio, automóveis, máquinas, equipamentos, calçados e produtos de madeira. Por outro lado, aeronaves, componentes aeroespaciais, petróleo, soja, café, carne bovina e suco de laranja foram isentos das sobretaxas.