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Quarta-feira, 29 de Abril 2026
Saúde

Violência sexual eleva risco de doenças cardiovasculares em mulheres

Estudo da Universidade Federal do Ceará aponta que o trauma decorrente da violência sexual provoca alterações biológicas e comportamentais, aumentando a probabilidade de infarto em vítimas.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Violência sexual eleva risco de doenças cardiovasculares em mulheres
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Meninas e mulheres que vivenciaram violência sexual enfrentam consequências que vão além dos impactos físicos e psicológicos imediatos. Um estudo fundamentado em dados oficiais do Brasil indica que esses episódios podem elevar em 74% a probabilidade de desenvolverem doenças cardíacas.

Publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, o levantamento também detalha uma análise específica por tipo de doença. Observou-se que mulheres com histórico de violência sexual registraram incidências mais elevadas de infarto do miocárdio e arritmias, em contraste com aquelas que não passaram por tal experiência. Contudo, para angina e insuficiência cardíaca, as diferenças não foram estatisticamente relevantes.

Eduardo Paixão, pesquisador do programa de pós-graduação em Saúde Pública da Universidade Federal do Ceará, esclarece que as descobertas resultaram da aplicação de métodos estatísticos aos dados da Pesquisa Nacional de Saúde, divulgada em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Considerada o principal levantamento oficial sobre a saúde da população brasileira, a Pesquisa Nacional de Saúde é elaborada com base em mais de 70 mil entrevistas, que garantem sua representatividade. Dentre os múltiplos temas abordados, a pesquisa investigou tanto a incidência de violência sexual quanto a de doenças cardíacas, permitindo o cruzamento dessas variáveis para a análise.

Cientes de que múltiplos fatores podem influenciar o surgimento de doenças cardiovasculares, os pesquisadores empregaram recursos estatísticos para neutralizar a interferência de variáveis como idade, cor da pele, orientação sexual, escolaridade e local de residência. Desse modo, foi possível confirmar que o aumento identificado estava diretamente ligado à experiência de violência.

Repercussões

Segundo Eduardo Paixão, frequentemente a atenção se volta apenas para a saúde mental ao investigar os efeitos da violência sexual, mas o trauma pode ter repercussões em outras esferas da saúde.

“Costumamos buscar explicações biológicas para as enfermidades, mas a saúde humana é profundamente influenciada por interações sociais que afetam nosso bem-estar. Estudos internacionais já evidenciavam uma forte correlação, especialmente quando a violência acontece na infância e adolescência, com consequências que podem se estender por toda a vida”, detalha Paixão.

A equipe de pesquisa levanta a hipótese de que a violência eleva o risco cardiovascular devido a uma conjunção de fatores biológicos e comportamentais. Isso inclui quadros de ansiedade e depressão, frequentemente observados em vítimas e que possuem ligação com problemas cardíacos. Adicionalmente, esse estresse desencadeia efeitos fisiológicos.

“O estresse eleva a inflamação no organismo, ativando toxinas que podem acelerar o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Além disso, experiências traumáticas são capazes de modificar a pressão arterial e a frequência cardíaca”, aponta o pesquisador.

Paixão ainda menciona que indivíduos que passam por vivências de violência, seja de maneira pontual ou recorrente, podem apresentar uma propensão maior a adotar comportamentos prejudiciais à saúde, como tabagismo, consumo excessivo de álcool, uso de substâncias ilícitas, má alimentação e sedentarismo, todos fatores que, por sua vez, elevam os riscos cardiovasculares.

O pesquisador enfatiza que a violência sexual constitui, por si só, um grave problema de saúde pública no Brasil. Conforme a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), por exemplo, 8,61% das mulheres declararam ter sofrido ao menos um episódio de tal violência em sua vida, em comparação com 2,1% dos homens.

Ele ressalva, contudo, que essa modalidade de violência permanece amplamente subnotificada, particularmente entre os homens, pois nem todos reconhecem a agressão sofrida ou se sentem à vontade para relatá-la. Para o pesquisador, essa é a principal justificativa para a pesquisa não ter detectado um aumento na incidência de doenças cardiovasculares também em homens vítimas.

Para Paixão, o valor primordial do estudo reside em destacar um elemento que exige a atenção tanto de profissionais que atuam com vítimas de violência quanto daqueles que prestam assistência a indivíduos com doenças cardiovasculares.

“Essas enfermidades representam a maior carga global de doenças, implicando em inúmeras internações e custos elevados com procedimentos. Talvez, ao intervir em fatores de vida modificáveis, possamos reduzir significativamente essa incidência”, conclui o pesquisador.

FONTE/CRÉDITOS: Tâmara Freire - Repórter da Agência Brasil
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