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Quarta-feira, 29 de Abril 2026
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Whey e creatina para crianças: o que a ciência realmente diz?

A infância molda a relação com a comida, definindo a percepção de texturas, sabores e a construção de hábitos alimentares saudáveis.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Whey e creatina para crianças: o que a ciência realmente diz?
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A declaração recente da personal trainer Carol Borba, que afirmou administrar whey protein e creatina à sua filha de 3 anos, gerou controvérsia. Embora a justificativa apresentada seja de que "é melhor que achocolatado", essa comparação ignora um aspecto fundamental: suplementos esportivos não são desenvolvidos para o público infantil.

Independentemente de opiniões, um fato é inegável: a Anvisa determina que esses produtos exibam em seus rótulos a advertência "Este produto não se destina a menores de 19 anos". Essa orientação não é um mero formalismo, mas sim a ausência de comprovação de segurança para essa faixa etária.

Creatina: eficácia comprovada em adultos, mas com ressalvas para crianças

A creatina é um dos compostos mais extensivamente pesquisados globalmente. Em adultos, há um consenso consolidado sobre seus benefícios no aprimoramento do desempenho em atividades de alta intensidade, otimizando a geração de energia. Contudo, no universo infantil, os estudos são escassos e concentram-se predominantemente em cenários clínicos específicos, como enfermidades neuromusculares e distúrbios metabólicos raros. Para crianças saudáveis, faltam dados robustos que atestem a segurança a longo prazo. É crucial considerar que o organismo infantil está em pleno desenvolvimento, com órgãos vitais como rins e fígado ainda amadurecendo. A introdução de creatina sem uma necessidade clínica justificada contraria o princípio primordial da pediatria: evitar a exposição a riscos desnecessários e sem benefícios comprovados.

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Whey protein: mais do que um suplemento, um ultraprocessado

Frequentemente associado à ideia de saúde, o whey protein é, na realidade, um produto ultraprocessado. A maioria das formulações contém:

  • adoçantes artificiais
  • aromatizantes
  • corantes

Pesquisas indicam que adoçantes artificiais podem impactar negativamente a microbiota intestinal e desregular o metabolismo da glicose. Esses efeitos são ainda mais pronunciados na população pediátrica, cujo sistema microbiano está em formação. Adicionalmente, há um risco menos evidente, mas significativo: o consumo excessivo de proteínas na infância. Embora possa parecer contraintuitivo em um contexto de valorização da proteína, a maioria das pessoas não necessita de quantidades elevadas, especialmente crianças. A chamada Hipótese da Proteína Precoce sugere que uma ingestão proteica elevada nesta fase pode elevar hormônios como IGF-1 e insulina, o que, por sua vez, pode favorecer:

  • aumento do acúmulo de gordura
  • ganho de peso acelerado
  • maior propensão a desenvolver obesidade e diabetes futuramente

Em suma, a tentativa de "nutrir melhor" pode, paradoxalmente, predispor o metabolismo a desenvolver doenças mais tarde.

Desmistificando o "melhor que achocolatado"

A comparação entre whey e achocolatado cria uma falsa dicotomia. A escolha não se resume a optar entre açúcar ou um produto proteico ultraprocessado. Existem inúmeras outras alternativas alimentares mais nutritivas.

Leite, frutas, ovos, iogurte natural, pães, vegetais e legumes são opções ricas em nutrientes reais, sem rótulos chamativos ou promessas exageradas.

O impacto oculto no paladar infantil

Este é talvez o ponto mais subestimado e crucial. A infância é o período em que o cérebro aprende a comer, desenvolvendo a relação com os alimentos através de texturas, aromas, sabores e a experiência da mastigação. Quando a alimentação é substituída por bebidas açucaradas e artificiais:

  • o paladar se acostuma a níveis elevados de doçura
  • aumenta a aversão a alimentos naturais
  • intensifica-se a neofobia alimentar (medo de experimentar novos alimentos)

Um shake de whey, por exemplo, não ensina:

  • a crocância de uma cenoura crua
  • a suavidade de um abacate
  • o sabor autêntico de uma fruta madura

Esses aspectos, embora não evidentes em tabelas nutricionais, têm um impacto duradouro na saúde ao longo das décadas.

A armadilha da conveniência

As versões prontas de "whey" podem parecer uma solução prática para lanches, mas para crianças, acarretam desvantagens claras:

  • Excesso de proteína: Uma única porção pode suprir quase a totalidade da necessidade diária de proteína de uma criança, dependendo da idade.
  • Prejuízo à mastigação: Alimentos líquidos não promovem a mesma saciedade e podem interferir no desenvolvimento da musculatura facial e na habilidade de mastigar.

Alternativas nutritivas para o dia a dia

Sem radicalismos, diversas opções saudáveis podem compor a dieta infantil:

  • pão com ovo;
  • iogurte natural com frutas;
  • queijo quente;
  • frutas com aveia;
  • pipoca;
  • milho cozido;
  • bolo caseiro simples;
  • crepioca;
  • tapioca com recheio de frango desfiado;
  • cuscuz com ovo;
  • vitamina de abacate;
  • muffins caseiros (banana, aveia e ovo);
  • homus com palitos de cenoura;
  • ovos de codorna com tomate cereja;
  • wrap com pasta de ricota temperada;
  • suco de fruta natural (para maiores de 2 anos), entre outras.

Quando a suplementação é realmente necessária?

A suplementação pode ser indicada em situações específicas durante a infância, tais como:

  • quadros de desnutrição;
  • doenças crônicas;
  • condições neurológicas específicas.

Nesses casos, são empregadas fórmulas pediátricas desenvolvidas especialmente para essa faixa etária, que diferem substancialmente de suplementos destinados a adultos ou ao público esportivo.

Conclusão: o essencial para a infância

Crianças não necessitam de whey protein.

Crianças não necessitam de creatina.

O que elas precisam é de:

  • diversidade alimentar
  • alimentos de verdade
  • experiências sensoriais com a comida

O desenvolvimento pleno não advém de um frasco, mas sim de um prato equilibrado e variado.

FONTE/CRÉDITOS: Karol Gomes
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