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Sexta-feira, 17 de Abril 2026

Economia

Bancário lamenta repercussões do caso BRB/Master: "Estamos todos pagando a conta"

Expansão do banco e contratação de novos concursados estão suspensas. Segundo representantes de funcionários, o clima entre os empregados varia entre "profunda indignação e apatia".

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Bancário lamenta repercussões do caso BRB/Master:
© Joédson Alves/Agência Brasil
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A Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2025 para investigar um esquema de fraudes financeiras envolvendo os bancos BRB e Master, impactou a confiança na instituição pública do Distrito Federal. As consequências dessa operação ainda afetam o dia a dia dos quase 5 mil funcionários do BRB.

"Tanto a sociedade quanto os trabalhadores estão arcando com o custo de uma decisão política de socorrer o Master", declarou Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e funcionário concursado do BRB desde 2008, em entrevista à Agência Brasil.

Oliveira relatou que o sindicato tem recebido informações sobre um ambiente de trabalho mais tenso que o normal. Isso se deve especialmente aos funcionários convocados a prestar depoimento à Polícia Federal e a auditores sobre as negociações com a instituição do banqueiro Daniel Vorcaro, que está detido desde o início de março.

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"São, em particular, analistas de setores que participaram das discussões com o Master e que podem possuir informações úteis para as investigações", explicou o sindicalista.

Ele se refere às negociações que resultaram na aquisição de bilhões de reais em créditos do banco de Vorcaro e que levaram ao anúncio da intenção do BRB de comprar parte do Master por R$ 2 bilhões. O Banco Central (BC) vetou a operação dois meses antes de determinar a liquidação extrajudicial do banco privado e da deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal (PF).

A apreensão sentida pelos funcionários concursados, terceirizados e estagiários é reflexo de uma crise institucional sem precedentes na história do banco, fundado em 1964.

Oliveira confirmou que, após a operação da PF e o afastamento do então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa (PHC), por suspeitas de envolvimento em irregularidades financeiras, muitos clientes passaram a procurar as agências em busca de informações sobre a solidez do banco e os riscos para seus investimentos.

"Alguns chegam com a intenção de resgatar seus recursos. São os funcionários que têm a tarefa de convencer essas pessoas a manterem a confiança na instituição e suas aplicações", acrescentou o sindicalista.

Para ele, o principal desafio é que, além de não terem respostas completas, os próprios trabalhadores estão receosos diante da incerteza.

"Nossas posições também estão em risco. Somos cobrados a dar explicações sobre situações que fogem ao nosso controle. Quem atende o público precisa estar constantemente atento às notícias para fornecer informações que, em nossa opinião, deveriam ser comunicadas pelo banco e pelo GDF", ponderou Oliveira.

Segundo o sindicalista, o sentimento entre os funcionários tem variado entre "intensa indignação e apatia". Isso ocorre, na visão dele, porque alguns funcionários já haviam identificado indícios de irregularidades nas negociações com o Master antes mesmo de a PF tornar o caso público. Inclusive, alguns desses indícios foram comunicados ao próprio ex-presidente, PHC, que foi preso preventivamente na quarta fase da Operação Compliance Zero.

"O próprio sindicato, ao tomar conhecimento da primeira transação de compra e venda de carteira [de créditos do Master, sob investigação] em novembro de 2024, apresentou denúncia ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários, por considerarmos uma operação prejudicial ao BRB", assegurou.

Informações sobre aposentados e clientes

A preocupação também atinge cerca de 3 mil aposentados do BRB cujos planos de saúde e previdência complementar dependem da saúde financeira da instituição. A Previdência BRB busca tranquilizar esses indivíduos e outros clientes, afirmando possuir um patrimônio superior a R$ 4,39 bilhões, separado dos recursos de patrocinadores e instituidores, incluindo empresas do conglomerado BRB.

"Os patrimônios são completamente distintos [...] e a gestão dos recursos e a operação da Previdência BRB são autônomas e independentes", garante a Previdência BRB em comunicado destacado em seu site.

Com mais de seis décadas de existência, o BRB também utiliza o volume de recursos sob sua gestão, mais de R$ 80 bilhões em ativos de mais de 10 milhões de clientes, para indicar sua capacidade de absorver eventuais perdas com aportes de curto prazo.

"A questão é que a falta de clareza e a demora na resolução podem assustar investidores e o mercado mais do que o impacto de uma perda, colocando este patrimônio em risco", avaliou Oliveira. Ele criticou a escassez de informações, que contribuiu para a agência de classificação Moody's rebaixar a nota do BRB.

O rebaixamento foi influenciado pela falta de detalhes sobre o impacto real da aquisição de ativos do Master e pela ausência de um plano de recuperação claro. A Moody's indicou que o banco necessitará de uma "significativa injeção de capital" para evitar dificuldades em cumprir suas obrigações.

Institucionalmente, o BRB tem se comunicado principalmente através de Avisos aos Acionistas, Comunicados ao Mercado e Fatos Relevantes. Dirigentes e outros funcionários foram instruídos a evitar contato com a imprensa sobre a situação. No entanto, o banco lançou uma campanha digital com a mensagem de que permanece "firme e forte", como uma "instituição sólida, estável e em pleno funcionamento".

Na semana passada, o novo presidente da instituição, Nelson de Souza, que sucedeu PHC, não compareceu a uma reunião com a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Distrito Federal. Souza alegou a necessidade de evitar manifestações públicas até a conclusão das auditorias internas para apurar o prejuízo com a compra de créditos do Master e a análise do balanço contábil consolidado de 2025 pelos acionistas.

A ausência de Souza na reunião da CCJ gerou insatisfação entre os deputados distritais, que aprovaram sua convocação compulsória para depor em data a ser definida.

"O não comparecimento, especialmente diante da gravidade dos fatos, não é apenas uma falta de respeito a esta comissão. É, acima de tudo, uma desconsideração com o cidadão do DF, que tem o direito de saber o que está acontecendo com o BRB", afirmou o presidente da comissão, Thiago Manzoni (PL). "Queremos entender a real situação do BRB. É isso que as pessoas estão perguntando nas ruas", complementou o deputado distrital Fábio Felix (PSOL).

Para Daniel Oliveira, do Sindicato dos Bancários, a exposição negativa na mídia fortalece o discurso a favor da privatização, o que poderia levar à venda de ativos do banco a grandes instituições financeiras por valores inferiores aos de mercado.

"Dezenas de reportagens sobre o BRB são publicadas diariamente. Isso alimenta a narrativa daqueles que propõem uma 'solução de mercado', que, sabemos, resultaria na privatização do banco. Algo que poderia interessar a grandes bancos, que adquiririam os ativos do BRB por um preço abaixo do valor real. Eles poderiam assumir gratuitamente todas as contas de governos e de pessoas jurídicas que o banco possui".

Expansão suspensa

Segundo Oliveira, com a crise atual, projetos estratégicos como a expansão do banco para outras regiões do país foram interrompidos. Isso frustrou não apenas os funcionários que planejavam se mudar, mas também os cerca de 400 aprovados no concurso de 2022, cuja convocação agora depende da resolução da crise.

O plano de expansão do banco foi uma das prioridades da gestão de PHC. Com o objetivo de crescer, o BRB passou a gerenciar a folha de pagamento de servidores públicos em diversas cidades, incluindo capitais como João Pessoa (PB). Com o apoio de seu principal acionista, o GDF, o banco abriu agências na Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, além de estabelecer correspondentes bancários em outros estados.

A expansão foi acompanhada por maiores investimentos em marketing, como o patrocínio de eventos esportivos e uma parceria com o Flamengo, que resultou na criação do Nação BRB Fla, um banco digital com quase 4 milhões de clientes. No entanto, o projeto de expansão perdeu força antes mesmo que a intenção do BRB de adquirir o Master fosse divulgada, em março de 2025. Após a operação da PF em novembro, foi interrompido por tempo indeterminado.

Na última segunda-feira (13), a governadora Celina Leão – que assumiu o cargo em março deste ano após Ibaneis Rocha deixar a função para concorrer ao Senado – admitiu que a diretoria do BRB está considerando a possibilidade de fechar agências em outras unidades da federação.

Ela informou que a decisão caberá à diretoria da instituição. Contudo, independentemente da escolha, a governadora assegurou que "o banco retornará à sua vocação original, que é ser um banco regional e atender às necessidades da população" do DF, priorizando o crédito regional.

Celina já havia declarado que o banco público não corre risco de falência. "O BRB tem total capacidade de cumprir o que foi acordado com o BC [Banco Central] e apresentamos o passo a passo do que tem sido feito", comentou após uma reunião com o presidente do BC, Gabriel Galípolo, em São Paulo, na semana passada.

Na ocasião, ela garantiu que uma "solução" para a crise do banco será apresentada e implementada em até 30 dias. O prazo foi criticado pelo diretor do Sindicato dos Bancários.

"Quem entende do assunto sabe que as dificuldades se agravarão diariamente se não houver um aporte [financeiro] imediato; se não houver uma solução eficaz e rápida", disse Oliveira. "A capitalização do BRB é essencial. A forma de realizá-la é uma decisão política", acrescentou.

O sindicalista defendeu que o GDF deve fornecer os recursos necessários para que o BRB recupere sua credibilidade, mantendo o controle público distrital sobre a instituição, que é fundamental para a economia local e para a execução de políticas públicas, como os programas Cartão Gás, Creche e Material Escolar, e o Sistema de Bilhetagem Automática (BRB Mobilidade), utilizado no transporte público do Distrito Federal.

Desconfiança generalizada

Para o economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), César Bergo, a ausência de divulgação do balanço de 2025 e de outros documentos contábeis pelo BRB agrava a crise de confiança, além de sujeitar a instituição a multas diárias superiores a R$ 50 mil impostas pelo Banco Central (BC) e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

"A falta de transparência, crucial neste setor, gera insegurança entre correntistas e investidores", comentou Bergo, ressaltando que a situação afeta todo o sistema financeiro.

"Ninguém deseja a falência do BRB, mas é preciso exigir transparência, pois a complacência pode impactar todo o sistema financeiro", explicou o economista. Ele defendeu ações mais firmes por parte do Banco Central e da CVM.

"Um banco não pode, nesta altura, deixar de apresentar o balanço do ano anterior. Sob nenhuma justificativa", acrescentou Bergo, criticando a demora na realização de assembleias gerais para a análise das contas de 2025 e a eleição de novos membros dos conselhos, marcada para o dia 30.

"O BRB foi vítima de um golpe que mergulhou o banco em uma crise não apenas financeira, mas, sobretudo, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que se pronunciam em nome do banco foram aprovados em assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números inconsistentes, contas que não fecham, de uma forma que nenhum acionista, economista ou contador compreende?", questionou o economista.

Possíveis soluções para a crise

Segundo Bergo, existem, em tese, quatro caminhos para gerenciar a crise do BRB. "Na minha visão, o principal é que os sócios injetem mais capital na instituição. E, nesse caso, estamos falando de recursos públicos, principalmente do GDF".

Uma alternativa à capitalização com fundos públicos seria o próprio BRB contrair empréstimos junto ao FGC (Fundo Garantidor de Créditos) ou a outros bancos, o que lhe daria fôlego financeiro, mas implicaria o pagamento de juros elevados. Outra opção seria a intervenção do governo federal, com a federalização do banco distrital, sendo absorvido por uma instituição pública federal (como Banco do Brasil ou Caixa), seguindo o exemplo do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) em 2008. Por fim, a privatização.

"A federalização, eu não acredito que o Palácio do Planalto deseje, pois envolveria transferir para a esfera federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja qual for a solução, duas coisas são certas: salvar o BRB é preferível a deixá-lo falir. E qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente", concluiu Bergo.

A Agência Brasil contatou o BRB por meio de sua assessoria para obter comentários e informações adicionais, mas não obteve resposta até o momento da publicação desta reportagem. A reportagem também não conseguiu contato com a defesa de PHC.

Em nota, a governadora Celina Leão comentou a prisão preventiva do ex-presidente do BRB ocorrida nesta manhã. "Os fatos relacionados a Paulo Henrique Costa estão sob análise do Poder Judiciário, que tem a responsabilidade de apurar e julgar", declarou Celina, acrescentando que "desde o início, todas as providências cabíveis foram tomadas, com total cooperação junto às autoridades competentes".

FONTE/CRÉDITOS: Alex Rodrigues - Repórter da Agência Brasil
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