Uma análise divulgada nesta terça-feira (31) pela ACT Promoção da Saúde, em colaboração com a Agência Bori, indica que a inflação dos alimentos no Brasil é um problema de natureza estrutural, resultando em um encarecimento maior de produtos frescos em detrimento dos ultraprocessados.
O levantamento foi conduzido pelo economista Valter Palmieri Junior, que possui doutorado em desenvolvimento econômico pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
De acordo com Palmieri Junior, a escalada dos preços dos alimentos no Brasil não pode ser explicada unicamente por fatores sazonais, que são variações temporárias ligadas a períodos específicos e que tendem a se normalizar com a mudança das estações, como o aumento do tomate na entressafra.
O economista também argumenta que a inflação alimentar não se resume a causas conjunturais, que envolvem flutuações decorrentes de eventos pontuais e não recorrentes, como desvalorizações cambiais abruptas.
O estudo classifica a inflação alimentar como estrutural, caracterizada por pressões contínuas que demandam modificações na organização econômica para serem solucionadas.
"A inflação é estrutural, pois não decorre apenas de choques temporários, é específica, porque está associada às características históricas do modelo de desenvolvimento brasileiro", detalha o pesquisador em seu estudo.
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Alta acima da inflação
Em um período de quase 20 anos, o valor dos alimentos consumidos pelos brasileiros cresceu 302,6%, o que equivale a uma multiplicação por quatro. Paralelamente, a inflação geral do país registrou 186,6%. Isso significa que, entre junho de 2006 e dezembro de 2025, o aumento no preço dos alimentos superou em 62% o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial da inflação.
Como ponto de comparação, Palmieri Junior aponta que, nos Estados Unidos, no mesmo intervalo, os preços dos alimentos subiram aproximadamente 1,5% acima da inflação geral.
O pesquisador destaca que, no Brasil, quando ocorrem crises que elevam acentuadamente os preços dos alimentos, há uma dificuldade notória em reverter essa tendência de alta.
"Aumentar é fácil, mas depois, em algum momento, cair um pouco, isso é muito difícil. Vi isso em relação a alguns outros países", comentou o economista durante a apresentação do estudo à imprensa.
Ao analisar os diferentes grupos de alimentos que compõem o custo da cesta básica no Brasil, a pesquisa revela os maiores aumentos:
- Tubérculos, raízes e leguminosas (359,5%),
- Carnes (483,5%) e
- Frutas (516,2%)
Alimentos saudáveis versus ultraprocessados
O levantamento evidencia que a perda do poder de compra afeta mais intensamente os alimentos in natura.
"Se uma pessoa destinasse, por exemplo, 5% do salário mínimo para comprar alimentos em 2006, hoje, com essa mesma proporção, ela conseguiria levar mais produtos ultraprocessados e menos alimentos saudáveis", explica.
No período de 2006 a 2026, o poder de compra para frutas diminuiu cerca de 31%, e para hortaliças e verduras, 26,6%.
Em contrapartida, para a aquisição de refrigerantes (+23,6%) e embutidos como presunto (+69%) e mortadela (+87,2%), houve um aumento.
Quanto aos ultraprocessados, o economista atribui o barateamento à presença de aditivos industriais, que apresentam menor volatilidade de preço. Outro fator é a prática de "monoculturas", onde o solo é explorado repetidamente para poucos tipos de culturas, o que compromete a resiliência do plantio.
"Poucos ingredientes básicos, como trigo, milho, açúcar e óleo vegetal, passam a ser transformados em milhares de produtos distintos por meio da adição de aditivos químicos", afirma.
O economista avalia que o menor impacto da inflação nos alimentos ultraprocessados influencia as escolhas de consumo, levando as pessoas a optarem por produtos menos nutritivos.
"Você vai tendo uma mudança nos padrões de consumo a partir disso".
Uma pesquisa recente divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) abordou os fatores que impulsionam o consumo de alimentos ultraprocessados por crianças em áreas urbanas.
Modelo voltado para exportação
Um dos elementos que contribuem para o aumento contínuo dos preços é a inserção internacional do Brasil e seu modelo agroexportador.
O status do país como um dos maiores exportadores de alimentos do mundo leva os produtores a priorizarem a venda para o exterior, buscando retorno em dólares, em vez de focar no mercado interno.
Na década de 2000, o Brasil exportava 24,2 milhões de toneladas de alimentos e importava 14,2 milhões. Em 2025, as exportações alcançaram 209,4 milhões de toneladas, enquanto as importações totalizaram 17,7 milhões.
"Esse indicador mostra a quantidade líquida de alimentos produzidos no país cujo destino é o mercado externo, reforçando o papel do Brasil como grande exportador e aumentando a influência do mercado internacional sobre os preços internos", explica.
A priorização do mercado externo leva os produtores brasileiros a darem preferência a culturas de alta demanda internacional, como soja, milho e cana-de-açúcar.
A área cultivada com essas commodities expandiu de 41,93 milhões de hectares em 2006 para 79,30 milhões em 2025, uma área maior que o território da Alemanha.
No mesmo período, a área destinada ao cultivo de arroz, feijão, batata, trigo, mandioca, tomate e banana encolheu de 10,22 milhões de hectares para 6,41 milhões. Para comparação, o estado da Paraíba tem uma área de 5,64 milhões de hectares.
Insumos com preços elevados
Outro fator apontado como causa do encarecimento recorrente dos alimentos é o custo dos insumos agrícolas, como fertilizantes, defensivos e maquinário.
O estudo comparou os preços médios dos períodos 2006-2008 e 2022-2024, observando os seguintes aumentos em moeda real:
- fertilizantes: 2.423%;
- herbicidas e reguladores de crescimento: 1.870%;
- colheitadeiras: 1.765%;
- inseticidas: 1.301%;
- ureia (fertilizante nitrogenado): 981%;
- peças e partes de máquinas agrícolas: 667%.
Para o pesquisador, isso reflete a falta de uma estratégia de desenvolvimento que priorize commodities baseadas em insumos e tecnologias controlados por oligopólios de países desenvolvidos.
O autor detalha um ciclo vicioso que impacta os preços internos.
"Isso afetou o preço para todo mundo, inclusive para aquele pequeno produtor de feijão. Ele nem exporta, mas vai pagar o alto custo do preço dos insumos, e esse custo vai ser repassado para o preço do feijão", exemplifica.
Concentração do mercado
Essa dependência de insumos estrangeiros está associada a outro fator que, na opinião de Palmieri Junior, contribui para a inflação alimentar: a concentração da cadeia produtiva.
O estudo revela que apenas quatro empresas estrangeiras de sementes detêm 56% do mercado global.
No segmento de pesticidas, quatro companhias internacionais controlam 61% do mercado.
Em máquinas agrícolas, quatro empresas estrangeiras respondem por 43% do mercado.
Na indústria alimentícia, cinco marcas de duas empresas dominam 74,2% do mercado brasileiro de margarina.
Uma situação similar ocorre no mercado de macarrão instantâneo (73,7%), onde cinco marcas de três empresas detêm 83% do mercado de chocolates e bombons.
Inflação não contabilizada
O economista menciona que a inflação alimentar é ainda mais severa do que os números indicam, devido à chamada "inflação invisível". Este fenômeno ocorre quando produtos mantêm o preço, mas têm sua qualidade reduzida pela substituição de ingredientes caros por outros mais baratos.
Um exemplo é o sorvete, que passa a conter menos leite e mais açúcar. O mesmo acontece com o chocolate, que tem a proporção de cacau diminuída em favor de mais açúcar.
"Se o custo é reduzido piorando a qualidade, e vende com o mesmo preço, é uma inflação que não é computada pelos órgãos de pesquisa. Como você vai captar isso?", questiona.
Propostas de solução
A publicação apresenta algumas estratégias com potencial para reverter a trajetória inflacionária dos alimentos.
"O preço da comida não é apenas uma variável econômica. Expressa escolhas políticas, distributivas e civilizatórias sobre o modelo de sociedade que se pretende construir", ressalta o autor.
Entre as sugestões estão:
- desconcentração produtiva e fortalecimento das economias locais;
- reequilíbrio entre exportação e abastecimento interno;
- fortalecimento de órgãos como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e as Centrais de Abastecimento dos estados (Ceasas);
- ampliação do acesso à terra;
- concessão de crédito à produção condicionado ao abastecimento do mercado interno.
Palmieri Junior cita o exemplo de países desenvolvidos, como os Estados Unidos e nações europeias, que implementaram reformas agrárias.
"Significa fazer com que a terra seja mais acessível a um conjunto da população. Isso contribui para uma soberania alimentar", defende.
Ele argumenta que a reforma agrária beneficia os interesses do capitalismo.
"Se o alimento é barato, sobra mais dinheiro para o cidadão comprar outras coisas que o capitalismo está produzindo e lucrando muito mais", avalia.
"Se para a população de um país, boa parte da renda tem que ser destinada para alimento, outros setores produtivos são prejudicados", conclui.