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Direitos Humanos

A 12ª Marcha das Mulheres Negras no Rio de Janeiro intensifica a luta contra o racismo

Este evento, parte do Julho das Pretas, mobiliza mulheres negras de diversas cidades fluminenses em um dos maiores atos políticos do movimento negro no estado.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
A 12ª Marcha das Mulheres Negras no Rio de Janeiro intensifica a luta contra o racismo
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Em 26 de julho, a partir das 10h, a orla de Copacabana, no Posto 2, será palco da 12ª Marcha das Mulheres Negras do Estado do Rio de Janeiro. Este importante evento, que se insere na programação do Julho das Pretas, tem como objetivo central a luta contra o racismo, a defesa da democracia e a busca por reparação histórica, reunindo mulheres negras de diversos municípios fluminenses em uma das maiores marchas políticas do movimento negro no estado. O tema deste ano é "Em defesa da democracia, contra o racismo, pela reparação e bem viver".

Precedendo a caminhada, a organização realizará, no próximo domingo (19), a tradicional Oficina de Pirulitos. O evento ocorrerá no Instituto de Pesquisas das Culturas Negras (IPCN), localizado no Centro do Rio.

Este encontro não se limita à confecção dos cartazes que serão exibidos durante a marcha, mas também serve como um valioso espaço de formação política, integração e fortalecimento entre as participantes. Um churrasco colaborativo, preparado coletivamente pelas próprias mulheres negras, complementa a programação.

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Clatia Vieira, coordenadora da 12ª Marcha das Mulheres Negras-RJ, destaca que a oficina simboliza a metodologia de organização de todo o movimento.

"A criação dos pirulitos transcende a simples arte; é um ato político fundamental", explica Vieira. "É neste espaço que as mulheres negras se reúnem, debatem as pautas da marcha e consolidam uma rede de solidariedade. A colaboração é incentivada, seja através de contribuições para o churrasco ou pela participação ativa, garantindo que nenhuma mulher seja excluída."

Embora esta seja a 12ª edição no Rio de Janeiro, a trajetória da Marcha das Mulheres Negras teve início em 2011. Naquele ano, organizações de mulheres negras de todo o Brasil propuseram a realização de uma grande marcha nacional. Após quatro anos de intensa articulação, a iniciativa culminou em 2015, quando aproximadamente 100 mil mulheres tomaram as ruas de Brasília.

Em 2015, o Rio de Janeiro sediou sua primeira marcha estadual, que se tornou um evento anual, integrante da mobilização contínua do Fórum Estadual de Mulheres Negras. Desde então, o movimento tem demonstrado crescimento constante. A articulação permaneceu ativa inclusive durante a pandemia de covid-19, período em que duas edições foram realizadas virtualmente.

"Chegamos à 12ª marcha. Embora tenhamos tido duas edições online devido à pandemia, estamos há uma década ocupando as ruas desde 2015", reitera Clatia Vieira. "A marcha jamais cessou, pois o racismo infelizmente também nunca deixou de existir."

A coordenadora ressalta que, no ano anterior, o movimento não apenas organizou a marcha estadual, mas também colaborou na construção da 2ª Marcha Nacional das Mulheres Negras, ocorrida em Brasília, fortalecendo a articulação interestadual. Nos últimos anos, a marcha estabeleceu uma vasta rede de mobilização por todo o território fluminense.

Rose Cipriano, membro da coordenação, informa que mulheres negras de dezenas de municípios estão organizando caravanas para se juntar à caminhada.

"Estamos mobilizando mulheres negras de localidades como São Francisco de Itabapoana, Cantagalo, Niterói, da Baixada Fluminense e de outras diversas regiões do estado", detalha Rose Cipriano. "A projeção é reunir entre 10 e 15 mil mulheres em Copacabana."

A iniciativa vai além da simples participação em um ato público. O objetivo é que estas mulheres negras retornem aos seus municípios empoderadas para estabelecer fóruns locais, aprofundar o diálogo sobre o racismo e reivindicar junto ao poder público a implementação de políticas eficazes para a população negra.

A seleção de Copacabana como palco da marcha possui um profundo significado político. Rose Cipriano esclarece que este bairro é historicamente marcado por acentuadas desigualdades raciais e sociais.

"Muitas mulheres negras atuam em Copacabana como empregadas domésticas e frequentemente observam a marcha das janelas dos edifícios onde trabalham", pontua Cipriano. "Marchar neste local é uma forma de disputar esse território e afirmar que ele também pertence à população negra."

Clatia Vieira reitera que a ocupação da Zona Sul serve como uma denúncia contundente ao racismo estrutural intrínseco à organização urbana. "É justamente nesta Copacabana, que muitas vezes se apresenta opressora, que precisamos vocalizar as realidades das mulheres negras. Este é um território de disputa e de denúncia", afirma.

A marcha como um ato político contra o racismo

Ao longo de sua história, a Marcha das Mulheres Negras consolidou-se como um dos mais relevantes espaços de articulação política do movimento negro feminino no estado. Para Clatia Vieira, a mobilização surgiu com o propósito de confrontar o racismo estrutural e expor as profundas desigualdades enfrentadas cotidianamente pelas mulheres negras.

"A Marcha representa, acima de tudo, um ato político de denúncia veemente ao racismo", enfatiza Clatia Vieira. "Nós expomos as condições de vida das mulheres negras, a submissão às desigualdades e a forma como o racismo estrutural as priva de políticas públicas essenciais. Ao abordarmos a reparação, defendemos a divisão de poder, assegurando que as mulheres negras ocupem espaços de decisão e tenham suas vozes amplamente ouvidas."

Ela acrescenta: "Também abordamos a defesa da democracia, o enfrentamento ao racismo, o fim da escala de trabalho 6x1, a defesa da PEC da Reparação, a oposição à redução da maioridade penal, e o direito fundamental à saúde, educação, trabalho digno e à vida. Estas são pautas integralmente construídas pelas próprias mulheres negras, refletindo a realidade de quem vivencia os efeitos do racismo diariamente."

Vieira sublinha que a marcha se distingue por sua construção horizontal. "A Marcha das Mulheres Negras não possui uma proprietária; ela é concebida por mulheres negras, para mulheres negras e com mulheres negras. Todas têm o direito de se expressar. Ao participar da marcha, ninguém está ali apenas para aplaudir. Cada mulher contribui com sua voz, sua experiência e sua luta", afirma.

Embora primariamente um ato político, a marcha também abraça manifestações culturais intrínsecas à história da população negra. Durante a concentração e ao longo do percurso, o público poderá apreciar apresentações de jongo (também conhecido como caxambu), uma dança e ritmo afro-brasileiro, além de samba, uma feira de artesãs, atividades dedicadas às crianças e expressões ligadas às religiões de matriz africana.

Clatia Vieira enfatiza que esses elementos culturais simbolizam a ancestralidade que alicerça o movimento. "Um ato de gente preta é um ato de aquilombamento", declara. "Há jongo, há samba, há ancestralidade, há cultura. Nossa história tem raízes na África, e essa memória é parte fundamental de nossa resistência."

A coordenadora também destaca a relevância da imprensa na disseminação das pautas do movimento. Em sua visão, aumentar a visibilidade da marcha é um passo crucial para combater a invisibilidade histórica que acomete as mulheres negras.

"É fundamental contar com o apoio dos meios de comunicação", argumenta Vieira. "Ligamos a televisão e raramente vemos nossas histórias ou nossas pautas representadas. A marcha vai muito além de um simples encontro. Ela denuncia o racismo, fortalece a organização das mulheres negras e demonstra que continuamos firmes na luta por respeito, igualdade e pelo direito de viver com dignidade."

FONTE/CRÉDITOS: Anna Karina de Carvalho - Repórter da Agência Brasil
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