Um estudo recente, elaborado por pesquisadores da organização não governamental (ONG) ACT Promoção da Saúde, propõe-se a desvendar o fenômeno do blackwashing e a forma como as corporações o utilizam para impulsionar suas marcas e maximizar seus lucros. A pesquisa busca explicar como essa tática instrumentaliza a causa antirracista para fins comerciais.
A publicação, cujo título já provoca uma reflexão profunda, questiona: “as corporações são, de fato, engajadas na pauta racial?”.
Com 133 páginas, o levantamento foi disponibilizado no site da ONG no final de junho e elenca diversas estratégias de comunicação e marketing empregadas por empresas que adotam uma “aparência antirracista”.
O que é blackwashing
Em uma tradução literal, blackwashing pode ser compreendido como “lavagem racial”, sugerindo uma “maquiagem de diversidade racial”. O termo guarda semelhança com conceitos como greenwashing, que se refere à maquiagem ambiental, e pinkwashing, relacionado à instrumentalização da pauta LGBTQIA+.
Os autores do estudo da ACT Promoção da Saúde definem o blackwashing como uma “tática corporativa que instrumentaliza a causa antirracista para disfarçar a busca implacável por lucro”.
Essa prática é duramente criticada por simular um engajamento com as pautas de justiça racial, sem, contudo, enfrentar as iniquidades raciais de maneira estrutural.
Os pesquisadores identificaram e catalogaram oito modalidades distintas de blackwashing:
Sem representatividade no topo
Ao expor o uso da representatividade racial como mera fachada em certas empresas, o estudo da ACT Promoção da Saúde recorre a dados de um levantamento do Instituto Ethos, que analisou as 1.100 maiores companhias do país.
A pesquisa ressalta a alarmante falta de representatividade de pessoas negras, especialmente mulheres, em posições de liderança dentro dessas organizações.
Embora 55,5% da população brasileira se identifique como preta ou parda, esse grupo corresponde a menos de 6% dos conselhos das empresas e a menos de 14% dos cargos executivos e de diretoria.
O relatório também aponta que muitas organizações divulgam iniciativas de diversidade, mas falham em apresentar informações transparentes sobre a composição racial de seus quadros de liderança.
Os autores do estudo enfatizam que o blackwashing “não é um desvio de percurso, mas uma peça de engrenagem que mantém a desigualdade racial funcional à acumulação”.
Para os pesquisadores, o combate a essa prática exige mais do que denúncias isoladas ou apelos éticos.
“Requer a construção de respostas capazes de incidir sobre a arquitetura que o torna possível”, concluem.