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Terça-feira, 14 de Julho 2026
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Direitos Humanos

O blackwashing e o antirracismo de fachada: como empresas lucram com a causa racial

Estudo da ACT Promoção da Saúde detalha táticas corporativas que instrumentalizam o antirracismo para disfarçar a busca por lucro.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
O blackwashing e o antirracismo de fachada: como empresas lucram com a causa racial
© Imagem Joédson Alves/Agência Brasil
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Um estudo recente, elaborado por pesquisadores da organização não governamental (ONG) ACT Promoção da Saúde, propõe-se a desvendar o fenômeno do blackwashing e a forma como as corporações o utilizam para impulsionar suas marcas e maximizar seus lucros. A pesquisa busca explicar como essa tática instrumentaliza a causa antirracista para fins comerciais.

A publicação, cujo título já provoca uma reflexão profunda, questiona: “as corporações são, de fato, engajadas na pauta racial?”.

Com 133 páginas, o levantamento foi disponibilizado no site da ONG no final de junho e elenca diversas estratégias de comunicação e marketing empregadas por empresas que adotam uma “aparência antirracista”.

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O que é blackwashing

Em uma tradução literal, blackwashing pode ser compreendido como “lavagem racial”, sugerindo uma “maquiagem de diversidade racial”. O termo guarda semelhança com conceitos como greenwashing, que se refere à maquiagem ambiental, e pinkwashing, relacionado à instrumentalização da pauta LGBTQIA+.

Os autores do estudo da ACT Promoção da Saúde definem o blackwashing como uma “tática corporativa que instrumentaliza a causa antirracista para disfarçar a busca implacável por lucro”.

Essa prática é duramente criticada por simular um engajamento com as pautas de justiça racial, sem, contudo, enfrentar as iniquidades raciais de maneira estrutural.

Os pesquisadores identificaram e catalogaram oito modalidades distintas de blackwashing:

  • Divulgação seletiva: A comunicação corporativa foca exclusivamente nas melhorias em questões raciais, omitindo áreas de estagnação ou piora. Essa abordagem é vista como um “antirracismo de aparência”.
  • Políticas e reivindicações vazias: Implementação de políticas que prometem transformações radicais nas relações raciais, mas que possuem pouco poder de execução ou baixo potencial de alterar o status quo.
  • Certificações duvidosas: Uso de selos de terceiros para promover produtos ou empresas como benéficos para pessoas negras, sem comprovação efetiva.
  • Apoio e parceria com ONGs cooptadas: Associações com organizações que atuam na pauta racial, visando conferir credibilidade aos esforços corporativos em equidade racial.
  • Programas voluntários sem eficiência: Criação de programas e códigos voluntários para promover a equidade racial no ambiente de trabalho, mas com mecanismos de aplicação frágeis.
  • Narrativas e discursos enganosos: Campanhas de marketing que posicionam a corporação como referência antirracista, desconsiderando seu histórico real na área.
  • Marcas enganosas: Utilização estratégica de logos, influenciadores e vozes para sugerir que a marca é intrinsecamente antirracista.
  • Acessar e influenciar a formulação de políticas: Busca por acesso e influência em espaços de decisão sobre políticas de equidade racial, saúde e direitos da população negra.
  • Sem representatividade no topo

    Ao expor o uso da representatividade racial como mera fachada em certas empresas, o estudo da ACT Promoção da Saúde recorre a dados de um levantamento do Instituto Ethos, que analisou as 1.100 maiores companhias do país.

    A pesquisa ressalta a alarmante falta de representatividade de pessoas negras, especialmente mulheres, em posições de liderança dentro dessas organizações.

    Embora 55,5% da população brasileira se identifique como preta ou parda, esse grupo corresponde a menos de 6% dos conselhos das empresas e a menos de 14% dos cargos executivos e de diretoria.

    O relatório também aponta que muitas organizações divulgam iniciativas de diversidade, mas falham em apresentar informações transparentes sobre a composição racial de seus quadros de liderança.

    Os autores do estudo enfatizam que o blackwashing “não é um desvio de percurso, mas uma peça de engrenagem que mantém a desigualdade racial funcional à acumulação”.

    Para os pesquisadores, o combate a essa prática exige mais do que denúncias isoladas ou apelos éticos.

    “Requer a construção de respostas capazes de incidir sobre a arquitetura que o torna possível”, concluem.

    FONTE/CRÉDITOS: Bruno de Freitas Moura - Repórter da Agência Brasil
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