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Direitos Humanos

Brasil ainda subestima os efeitos do racismo nas desigualdades raciais, aponta especialista

O núcleo Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo (Dara), vinculado à Uerj, surge para preencher lacunas metodológicas e de dados.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Brasil ainda subestima os efeitos do racismo nas desigualdades raciais, aponta especialista
© Marcello Casal jr/Agência Brasil
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Apesar da vasta produção acadêmica sobre discriminação racial, o Brasil ainda enfrenta desafios significativos na compreensão de como o racismo impacta diretamente as desigualdades raciais. Para suprir essa carência metodológica, um grupo de pesquisadores, majoritariamente negros, lançou o Dara (Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo) no final de junho, um núcleo de pesquisa ligado ao Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) que busca aprofundar a análise e a comunicação de dados sobre o tema.

Composto por 18 profissionais, incluindo coordenadores, pesquisadores e equipes de comunicação e tecnologia, o Dara opera com um modelo de financiamento misto, recebendo apoio tanto de agências públicas de fomento à pesquisa quanto de instituições filantrópicas. Este modelo permite a execução de atividades focadas em rigor metodológico e estratégias de comunicação acessíveis.

Em entrevista à Agência Brasil, Luiz Augusto Campos, professor de sociologia e ciência política e coordenador-geral do recém-criado núcleo, destacou a complexidade de mensurar a influência do racismo nas disparidades sociais. Ele enfatiza que, embora as pesquisas sobre desigualdades raciais sejam abundantes, a avaliação do racismo como mecanismo gerador dessas desigualdades ainda é incipiente no país.

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Campos, especialista no acompanhamento de ações afirmativas, ressalta que as pesquisas experimentais no Brasil ainda estão em estágio inicial. Ele também aponta que a própria formação da equipe do Dara é um reflexo do sucesso das políticas de ação afirmativa, que ampliaram o acesso de pessoas pretas e pardas ao ensino superior.

“Muitos pesquisadores do Dara fazem parte desse processo histórico”, afirma Campos, que também integra conselhos consultivos em iniciativas de inovação democrática e políticas públicas. Ele sustenta que as estratégias antirracistas podem ser aprimoradas, necessitando de novas abordagens e dados para fortalecer sua eficácia.

O papel e diferenciação do Dara

O Dados e Análises do Racismo e do Antirracismo se dedica à produção, análise e comunicação de informações qualificadas sobre o tema. O objetivo é desenvolver estudos com rigor metodológico e disseminar conhecimentos de forma acessível, contribuindo para o debate público e a formulação de políticas baseadas em evidências.

Questionado sobre como o Dara se diferencia de outros centros de pesquisa sobre questões raciais, Luiz Augusto Campos explicou que, apesar da proliferação de núcleos acadêmicos e setoriais em organizações da sociedade civil, há pouca integração entre eles e a predominância de metodologias tradicionais. O Brasil se destaca na pesquisa sobre desigualdades raciais, mas não na investigação do racismo como sua causa.

Nesse contexto, o Dara atua em duas frentes: primeiro, colaborando e integrando grupos existentes, propondo inovações metodológicas para expandir o conhecimento sobre racismo e antirracismo; segundo, aplicando ao Brasil novas metodologias que têm se sofisticado rapidamente no cenário internacional.

Desafios na mensuração do racismo

Uma das constatações mais significativas que impulsionou a criação do Dara é a regressão do Brasil no processamento de dados para compreender o funcionamento do racismo. O acesso a dados oficiais e a interlocução entre pesquisas preexistentes são falhos, dificultando a geração de estimativas sobre seus efeitos de médio e longo prazo.

Há uma alta concentração de estudos na mensuração das desigualdades raciais, com pouca atenção ao modo como as práticas racistas as produzem. Campos destaca que, embora existam diversas pesquisas de opinião e percepção do racismo, elas dialogam pouco entre si, prejudicando a comparabilidade e a criação de estimativas longitudinais. Um dos projetos do Dara visa justamente integrar essas pesquisas.

Além disso, a mensuração causal dos efeitos do racismo só é plenamente possível com a incorporação de pesquisas experimentais, como os experimentos de campo, que ainda são pouco desenvolvidos no Brasil.

Avanços e resistências do antirracismo

O conceito de antirracismo evoluiu consideravelmente nos últimos anos, gerando avanços notáveis, como as políticas de ação afirmativa na educação superior, no funcionalismo público e nas eleições. Essas conquistas são "consequências palpáveis do sucesso dos movimentos antirracistas", em um país que, até pouco tempo, se via como livre de racismo.

Entretanto, novos desafios surgem com movimentos que buscam conter ou contestar esses progressos. Setores da sociedade insistem que as ações afirmativas já teriam resolvido o problema do racismo, o que mina o avanço de outras políticas antirracistas. Para romper essa resistência, são necessários novos dados e análises que demonstrem não apenas como o racismo gera desigualdades, mas também como as políticas antirracistas podem ser aprimoradas.

A importância da representatividade na pesquisa

A equipe do Dara é majoritariamente negra, uma escolha intencional que sublinha a importância da diversidade de experiências sociais na produção científica. Historicamente, certos grupos sociais estiveram sub-representados nos espaços de produção de conhecimento, mas as políticas de ação afirmativa têm modificado esse cenário, permitindo que novas gerações de pesquisadores cheguem às universidades e à pós-graduação.

A presença de diferentes trajetórias e vivências sociais no Dara contribui para que questões e dimensões da sociedade brasileira, antes marginalizadas, sejam incorporadas às agendas de pesquisa. Essa diversidade não se opõe ao rigor científico; pelo contrário, ela amplia as perguntas, os objetos e as perspectivas da ciência, enquanto o rigor metodológico transforma essas questões em conhecimento sistemático e verificável.

Os pesquisadores acreditam que uma ciência social mais diversa fortalece a capacidade de formular novas perguntas e gerar conhecimento aprofundado sobre a sociedade brasileira.

Sobre o especialista

Luiz Augusto Campos é coordenador-geral do Dara e professor associado de sociologia e ciência política no Iesp/Uerj. Doutor em sociologia pela Uerj e bolsista de produtividade em pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), ele atua em estudos sobre desigualdades raciais, democracia, ação afirmativa e produção científica.

  • É editor-chefe da revista Dador, do Consórcio das Ações Afirmativas e do Observatório das Ciências Sociais.
  • Anteriormente, coordenou o Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), a Área Temática da Raça e Política da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP) e o Grupo de Trabalho de Relações Raciais da Associação Nacional de Pós-graduação em Ciências Sociais (Anpocs).
  • Foi pesquisador visitante na Sciences Po de Paris (França) e na New York University (EUA).
FONTE/CRÉDITOS: Bruno de Freitas Moura - Repórter da Agência Brasil
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