A violência física e verbal contra crianças continua sendo uma realidade presente na cultura brasileira, contrariando a percepção majoritária da população que valoriza o diálogo como método de educação. Esta constatação emerge de uma pesquisa recente conduzida pela Quaest a pedido do Instituto Infinis, destacando a persistência da violência infantil no país.
Embora casos extremos de agressão atraiam atenção, como um incidente no Paraná envolvendo um pai e sua filha, as denúncias de violações de direitos contra crianças e adolescentes somam mais de 115 mil nos primeiros quatro meses de 2026. O Brasil abriga aproximadamente 55 milhões de indivíduos com menos de 18 anos, uma parcela significativa da população vulnerável a essas práticas.
A pesquisa revela um paradoxo notável: enquanto nove em cada dez entrevistados priorizam o diálogo para corrigir comportamentos infantis, uma parcela considerável admite ter recorrido a métodos mais agressivos. Cerca de 62% confessaram ter gritado com crianças, 49% admitiram ter aplicado tapas, e 27% reconheceram ter utilizado objetos para bater.
Márcia Kalvon, diretora executiva do Infinis, ressaltou a importância de compreender essas percepções para quebrar o ciclo intergeracional de violência e direcionar políticas públicas eficazes. "Cada criança protegida hoje representa menos violência amanhã", declarou.
A violência contra crianças demonstra ser um fenômeno que atravessa gerações, com tendências de replicação em indivíduos que vivenciaram situações semelhantes na infância.
Metodologia da pesquisa
A investigação, intitulada "Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes", é a segunda edição de um estudo que já em 2023 apontava para a mesma contradição. Naquela ocasião, 93% defendiam o diálogo, mas 66% admitiam ter gritado, 52% dado tapas e 38% usado objetos em crianças.
Apesar da frequência de comportamentos agressivos, o levantamento atual indica uma redução nas agressões com objetos, que são consideradas mais graves.
O estudo entrevistou 2.202 brasileiros maiores de idade entre maio e junho de 2026. Uma das descobertas foi que dois terços dos participantes (62%) declararam não intervir ao presenciar atos de violência contra crianças. Desses, metade considera inadequado interceder por se tratar de uma questão particular.
Os demais justificaram a inação pelo receio de reações agressivas por parte do agressor, ecoando situações como a ocorrida no Paraná, onde testemunhas foram ameaçadas ao questionar a agressão.
A pesquisa também abordou a percepção sobre trabalho infantil. Embora 93% considerem os estudos a prioridade máxima para crianças, 61% acham aceitável que elas trabalhem. Adicionalmente, 88% apoiam o trabalho de adolescentes se desejarem, e 71% concordam que eles devem trabalhar conforme a determinação dos pais.
Outro dado relevante é que 71% dos entrevistados desconhecem leis de proteção à infância, mesmo diante de debates públicos recentes, como os relacionados ao ECA Digital.
Os resultados completos deste estudo serão apresentados em setembro, durante o 8º Fórum de Políticas Públicas da Saúde na Infância (FPPSI), organizado pelo Instituto Infinis.