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Domingo, 10 de Maio 2026
Direitos Humanos

Aumento do receio de mulheres em relação ao estupro

Pesquisa revela que 97% das entrevistadas sentem algum nível de medo de serem vítimas de violência sexual.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Aumento do receio de mulheres em relação ao estupro
© Rovena Rosa/Agência Brasil
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A proporção de mulheres que manifestam temor de sofrer um estupro tem registrado um aumento, conforme aponta um estudo realizado pelo Instituto Patrícia Galvão em parceria com o Instituto Locomotiva. Novos dados da pesquisa foram divulgados com exclusividade pela Agência Brasil.

Em 2020, 78% das mulheres participantes relataram ter "muito medo de ser vítimas de um estupro". Esse índice subiu para 80% em 2022 e atingiu 82% nos levantamentos mais recentes, referentes a 2025.

Adicionalmente, 15% das entrevistadas indicaram sentir "um pouco de medo", elevando para 97% o total de mulheres que convivem com alguma apreensão em relação à violência sexual.

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A preocupação é ainda mais acentuada em dois segmentos específicos: jovens de 16 a 24 anos, onde 87% expressam "muito medo", e mulheres negras, com 88% relatando o mesmo grau de temor.

Marisa Sanematsu, diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, destaca que o medo é uma constante e que nenhum ambiente é percebido como verdadeiramente seguro.

"O receio acompanha as mulheres brasileiras incessantemente, desde a infância e em todos os contextos: o lar, os deslocamentos, o transporte público lotado ou os aplicativos de transporte não oferecem segurança", afirmou.

"Essa apreensão contínua leva ao desenvolvimento de estratégias de autoproteção, como evitar sair à noite, restringir o uso de certas vestimentas e acessórios, buscar companhia e optar por rotas mais longas para uma sensação mínima de segurança".

Violência no ambiente doméstico

Os institutos apresentaram nesta segunda-feira (2) a segunda parte dos resultados da pesquisa de 2025. A primeira fase, divulgada em setembro de 2025, já havia revelado que 15% das participantes eram sobreviventes de estupro, com oito em cada dez vítimas tendo sofrido o abuso antes dos 13 anos de idade.

Os dados mais recentes indicam que, entre as vítimas com até 13 anos, 72% foram agredidas em suas próprias residências. Em metade dessas ocorrências, o agressor era um familiar e, em um terço dos casos, um amigo ou conhecido da família.

De modo geral, 84% dos estupros foram perpetrados por homens do círculo social da vítima.

Essa porcentagem se reduz ligeiramente para mulheres agredidas a partir dos 14 anos, mas indivíduos conhecidos ainda representam a maioria dos agressores: 76% eram pessoas próximas, incluindo amigos, parceiros, familiares e ex-companheiros. Além disso, 59% das violências ocorreram no domicílio.

Apoio às vítimas

A pesquisa "Percepções sobre direitos de meninas e mulheres grávidas pós-estupro" contou com a participação de 1.200 indivíduos, de ambos os sexos e de todas as regiões do Brasil.

Além das experiências individuais com violência sexual, o estudo também buscou compreender a percepção geral dos participantes sobre o tema.

A concordância sobre o medo das mulheres em relação ao estupro foi quase unânime, com 99% dos entrevistados concordando.

Apesar disso, 80% das pessoas acreditam que as vítimas raramente ou nunca compartilham o ocorrido, citando ameaças do agressor, receio de não serem ouvidas ou sentimento de vergonha como principais motivos.

Os resultados gerais espelham as informações obtidas com as entrevistadas que se declararam vítimas, conforme a primeira divulgação da pesquisa.

Aproximadamente 60% das mulheres que sofreram abuso antes dos 14 anos não o relataram a ninguém. Ademais, apenas 15% buscaram uma delegacia e 9% procuraram um serviço de saúde.

O apoio a políticas de assistência às vítimas também foi expressivo: 93% concordam que o Estado deve oferecer suporte psicológico imediato a meninas e mulheres vítimas de estupro, e a mesma porcentagem acredita que prefeituras e governos devem intensificar a divulgação dos serviços de saúde disponíveis para as vítimas.

Depoimentos

Além dos dados quantitativos, os institutos também divulgaram depoimentos de mulheres que vivenciaram a violência sexual.

Uma mulher parda, residente na região Sudeste, com idade entre 25 e 44 anos, compartilhou sua experiência:

"Fui abusada quando criança, aos 6 anos, sem sequer compreender o que se passava. O agressor me convenceu de que a culpa era minha e que ninguém acreditaria caso eu contasse. Era o meu pai."

Outra vítima, uma mulher preta, também do Sudeste, com 45 anos ou mais, tentou buscar ajuda, mas não foi atendida.

"Eu tinha apenas 11 anos, foi terrível, eu não entendia direito o que estava ocorrendo. Tentei falar com minha mãe, mas ela não acreditou, disse que eu queria prejudicar o casamento dela. Felizmente, minha avó percebeu algo estranho e me levou para morar com ela."

A gravidez resultante do estupro e a carência de suporte para o aborto seguro também emergem nos relatos. Um exemplo é o de uma jovem parda do Sudeste, entre 16 e 24 anos:

"Sofri um abuso e engravidei. Aos 13 anos, não tinha como ser mãe e estava destruindo meu futuro. Decidi não contar aos meus pais e pedi ajuda a uma amiga próxima, que me levou a um aborto clandestino."

Acolhimento garantido por lei

Marisa Sanematsu, diretora de conteúdo do Instituto Patrícia Galvão, esclarece que o atendimento imediato e completo às vítimas de violência sexual em todas as unidades do Sistema Único de Saúde (SUS), independentemente de boletim de ocorrência, é um direito garantido por lei no Brasil desde 2013.

"É essencial que o poder público, em todas as esferas, invista na disseminação de informações sobre os direitos das vítimas de estupro e os caminhos para acessá-los, visando proteger a saúde física e mental e permitir que retomem suas vidas após o trauma", acrescentou.

A maioria dos entrevistados também se mostrou favorável aos serviços de interrupção da gravidez nos casos previstos em lei, como o estupro. Nove em cada dez concordam que as vítimas devem ser informadas, em delegacias ou serviços de saúde, sobre os procedimentos para prevenir infecções sexualmente transmissíveis e gestações indesejadas.

Adicionalmente, 86% acreditam que deve haver serviços públicos em todas as cidades para a interrupção da gestação em casos de estupro. Contudo, apenas metade dos entrevistados conhece algum serviço que ofereça esse atendimento.

Segundo María Saruê Machado, diretora de pesquisa do Instituto Locomotiva, a pesquisa evidencia a necessidade de expandir e aprimorar os serviços de acolhimento.

"Há um forte apoio popular para que as vítimas de estupro tenham acesso aos direitos assegurados por lei, mas essas informações ainda não alcançam quem mais necessita".

"O estupro é uma violência próxima da realidade da maioria das mulheres, e quebrar o silêncio através da informação é um passo crucial para garantir proteção e direitos a todas", defendeu.

Direitos sob ameaça constante

Angela Freitas, comunicadora social e ativista, co-diretora da campanha "Nem Presa Nem Morta", afirma que a implementação da legislação que garante atendimento e proteção às vítimas ainda depende da vontade dos gestores políticos.

"A maioria dos municípios não oferece esse serviço, obrigando as pessoas a percorrerem longas distâncias, o que nem sempre é viável. Há uma carência muito grande. O Brasil passou por um processo de democratização, com a criação da Constituinte, do SUS, da Assistência Social e de políticas públicas. No entanto, esses avanços enfrentam ameaças constantes de retrocesso e ainda não se consolidaram como direitos inquestionáveis."

Angela Freitas, que também participou da articulação da campanha "Criança não é mãe", contra um projeto de lei que equiparava o aborto ao homicídio em casos legais, ressalta que essas deficiências são particularmente prejudiciais para crianças e adolescentes grávidas após violência.

"Frequentemente, esses episódios não são revelados imediatamente, pois elas não são preparadas para entender que seu corpo deve ser respeitado, inclusive por familiares e pessoas próximas. Há uma falha na comunicação e na informação, e uma tolerância excessiva com essas situações."

"Por isso, muitas vezes, a gravidez não é percebida pela criança ou pelos familiares. Ela só é diagnosticada tardiamente, e quando essas jovens buscam o sistema de saúde para interromper a gestação, encontram obstáculos dentro do próprio sistema."

FONTE/CRÉDITOS: Tâmara Freire - Repórter da Agência Brasil
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