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Domingo, 10 de Maio 2026
Direitos Humanos

Bloco de Brasília promove um carnaval acessível e inclusivo para pessoas com deficiência

Iniciativa pioneira em Brasília combate o capacitismo e garante que a folia seja um espaço para todos, desde crianças a adultos.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Bloco de Brasília promove um carnaval acessível e inclusivo para pessoas com deficiência
© Valter Campanato/Agência Brasil
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Em meio à efervescência carnavalesca, inúmeros ambientes ainda apresentam barreiras significativas que impedem a plena participação de pessoas com deficiência (PCD). A ausência de rampas, calçadas adequadas e pisos táteis, a escassez de transporte público adaptado, a falta de espaços elevados para cadeirantes e o número limitado de intérpretes de Língua Brasileira de Sinais (Libras) são apenas alguns dos obstáculos que marginalizam esse público da celebração.

Com a convicção de que acessibilidade é um direito fundamental, e não um favor, a historiadora Lurdinha Danezy Piantino, em parceria com pais e representantes de associações de PCDs, fundou há 14 anos o bloco de carnaval Deficiente é a mãe. A iniciativa nasceu com o propósito de combater o capacitismo, uma forma de discriminação que subestima as capacidades de pessoas com deficiência, tratando-as como inferiores.

“A pessoa com deficiência tem que ocupar todos os espaços: sociais e culturais. E o momento cultural mais importante do ano é o carnaval. Então, a pessoa com deficiência tem que estar junto”, afirma Lurdinha, ressaltando a importância da presença de PCDs em todas as esferas da sociedade.

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Lurdinha é mãe de Lúcio Piantino, de 30 anos, um artista multifacetado que se destaca como Úrsula Up, a primeira Drag Queen com síndrome de Down do Brasil e uma voz ativa na comunidade LGBTQIA+. Além dos palcos e de sua persona drag, Lúcio demonstra seu talento como ator, artista plástico, dançarino e palhaço.

Assumidamente gay e um apaixonado pelo carnaval desde a infância, Lúcio acredita que os blocos são instrumentos cruciais para promover a inclusão e levar a alegria da festa a todos. “Sinto-me ótimo. É a vida, que é muito boa”, expressa ele com entusiasmo.

Bloco na rua

Na linha de frente dessa batalha contra o preconceito, encontra-se também Luiz Maurício Santos, servidor público aposentado de 60 anos e outro cofundador do bloco. Cadeirante há 28 anos, devido a um acidente de moto, Luiz destaca que, apesar dos desafios burocráticos e da limitação de recursos para organizar o bloco, o esforço é recompensado pela alegria e inclusão que ele proporciona.

Contudo, ele enfatiza a necessidade de que mais pessoas com deficiência reconheçam o carnaval como um espaço que também lhes pertence.

"Temos ainda a dificuldade de mobilizar o segmento. As pessoas ainda ficam um pouco receosas de participar, de sofrer alguma discriminação. Então, sempre tentamos mobilizar essa turma para que apareçam", explica Luiz, sublinhando o trabalho contínuo para encorajar a participação.

Um dos frequentadores assíduos dos encontros anuais do bloco é Francisco Boing Marinucci, de 22 anos, que possui Transtorno do Espectro Autista (TEA). Sua mãe, a professora Raquel Boing Marinucci, o leva ao bloco por sua paixão por música e seu conhecimento de marchinhas e diversos sambas.

Para o carnaval de 2026, Francisco e Raquel planejam homenagear os personagens do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, uma obra literária e televisiva que marcou a infância de Francisco. Ele expressa sua satisfação em ter a companhia da mãe durante os quatro dias de folia: "A mãe me adora, me ama de paixão. A mãe é minha companhia."

Raquel vê o bloco para PCDs como um ambiente seguro e verdadeiramente inclusivo para ambos.

"Quando as pessoas com deficiência intelectual são pequenas, há mais compreensão, porque, em geral, as crianças não são preconceituosas. Mas para um jovem ou adulto com deficiência intelectual não há inclusão de verdade. Por isso, não é possível deixá-lo sair sozinho em um ambiente sem um cuidador contratado ou alguém da família", reflete Raquel sobre a complexidade da inclusão para adultos com deficiência intelectual.

Sociedade mais consciente

Dados do IBGE revelam que o Brasil possui 18,6 milhões de pessoas com deficiência com 2 anos ou mais de idade, o que corresponde a 8,9% da população nessa faixa etária. A deficiência visual é a mais prevalente, afetando aproximadamente 3,1% da população.

Entre eles está Thiago Vieira, auxiliar de biblioteca, que tem baixa visão desde o nascimento. Neste carnaval, sua fiel companheira é a cão-guia Nina. Thiago se descreve como um entusiasta do carnaval e enfatiza a importância de eventos que promovam a inclusão.

"No ano inteiro, a gente é bastante esquecido. Este bloco é um começo, me sinto seguro aqui. Quem sabe a sociedade se conscientiza para abrir mais lugares acessíveis para a gente?", almeja Thiago, expressando seu desejo por uma sociedade mais atenta e inclusiva.

Alegria e otimismo

Outro frequentador assíduo do bloco, feito por e para pessoas com deficiência, é o secretário escolar Carlos Augusto Lopes de Sousa, que atua em um centro de ensino no Recanto das Emas, Distrito Federal. Ele chegou ao bloco de carnaval, no centro de Brasília, em sua cadeira de rodas, determinado a desfrutar a segunda-feira de folia.

"Isso se chama inclusão e respeito", declara Carlos, cuja paralisia foi causada por uma fratura na coluna há 37 anos, após um desabamento.

Carlos mantém-se otimista com os avanços das pesquisas da professora doutora Tatiana Coelho de Sampaio, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que desenvolveu um medicamento (composto polilaminina). Os primeiros experimentos demonstraram resultados promissores na regeneração de lesões medulares.

"Ela é incrível! Heroína nacional", celebra Carlos Augusto, entre um sucesso e outro carnavalesco. A pesquisa aguarda a autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para prosseguir com estudos clínicos mais abrangentes.

FONTE/CRÉDITOS: Daniella Almeida - Repórter da Agência Brasil
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