Um teste recente conduzido pela Anistia Internacional Brasil revelou falhas graves na contenção de desinformação eleitoral pelo Facebook, a poucas semanas do primeiro turno do pleito. A organização programou publicações com conteúdos enganosos para testar o sistema de filtragem da Meta, que acabou permitindo o agendamento da maioria das peças antidemocráticas.
Ao todo, os ativistas submeteram 15 campanhas pagas em português direcionadas a eleitores brasileiros maiores de 16 anos. Das 14 peças contendo narrativas enganosas, mais da metade teve sua veiculação autorizada pela rede social. Nenhuma delas chegou a ir ao ar publicamente, pois foram canceladas previamente pela própria entidade.
A ONG dividiu os conteúdos em três estratégias principais: deslegitimação do sistema de votação, construção de inimigos institucionais e apologia ao autoritarismo com a defesa de intervenções militares como solução para a desordem política.
Aprovação pelo sistema de filtragem
Ao todo, oito anúncios acabaram aprovados pela plataforma. Curiosamente, as sete peças rejeitadas — incluindo um post neutro — não foram barradas devido ao teor inverídico do conteúdo, mas sim por exigências formais de verificação de identidade da conta para assuntos políticos ou sociais.
A diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, Jurema Werneck, classificou a falha no sistema como alarmante. Segundo a executiva, o resultado evidencia que a empresa não faz o suficiente para evitar que sua rede seja um vetor de fake news, enquanto obtém receitas bilionárias com publicidade.
Disparos efetuados do exterior
Outro ponto crítico apontado pelo relatório foi o envio das campanhas a partir de Londres sem o uso de VPN para ocultar a localização. Para a organização, a aceitação desses anúncios abre margem para interferências estrangeiras no processo político nacional.
O pesquisador em Inteligência Artificial da ONG, Ummar Bashir, ressaltou que a investigação demonstra a falta de consistência das salvaguardas da plataforma no combate a conteúdos nocivos às vésperas da votação.
Posicionamento da Meta e regras do TSE
Em nota, a Meta defendeu que o levantamento se baseou em uma amostra reduzida de anúncios que jamais foram veiculados. A empresa afirmou dispor de múltiplas camadas de verificação e ressaltou a aplicação de recursos expressivos para proteger as eleições brasileiras.
A legislação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) determina que os provedores devem adotar medidas eficazes para combater a circulação de fatos inverídicos. A regra impõe a remoção imediata de publicações que descredibilizem as urnas eletrônicas, independentemente de notificação judicial.