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Segunda-feira, 11 de Maio 2026
Direitos Humanos

Garimpo ilegal adota novas táticas para driblar fiscalização, aponta estudo

Relatório da UEPA revela que garimpeiros trocam maquinário pesado por equipamentos menores e buscam novas formas de financiamento.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Garimpo ilegal adota novas táticas para driblar fiscalização, aponta estudo
© Polícia Federal/divulgação
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Em terras indígenas Munduruku, localizadas no Pará, observa-se uma alteração nas táticas dos garimpeiros, que estão substituindo equipamentos de grande porte por instrumentos menores e de menor potência. Essa adaptação ocorre em resposta à intensificação das operações de retirada de invasores em Terras Indígenas (TIs) durante o atual governo federal. Embora a redução da atividade e a mudança técnica possam sugerir um declínio no setor, a análise indica que se trata de uma estratégia para contornar a fiscalização e manter o alto faturamento.

A constatação integra o relatório "O Circuito Espacial do Garimpo Ilegal no Pós-Desintrusão", divulgado nesta terça-feira (11) pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), em colaboração com o Instituto Mãe Crioula. Os Munduruku, assim como os Yanomami e Kayapó, figuram entre os povos indígenas mais impactados pela atividade de garimpo no Brasil.

O estudo também evidencia que o mesmo sistema financeiro ligado a facções criminosas, já exposto em operações como a Carbono Oculto, é responsável por sustentar as estruturas de extração mineral. Esse apoio financeiro, conforme aponta a pesquisa, tem desfeito a linha divisória entre o garimpo artesanal e a mineração industrial de grande escala. Operações recentes da Polícia Federal desvendaram esses esquemas, que envolvem fundos de investimento, lavagem de dinheiro e organizações criminosas.

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Mão de obra

A investigação sobre a origem da mão de obra empregada nos garimpos ilegais no Pará aponta o Maranhão como principal estado de procedência. Esse cenário reforça uma tendência de migração intrarregional iniciada nos anos 1990, onde trabalhadores alternam entre atividades agrícolas e o garimpo, realizando deslocamentos dentro da mesma região.

A análise abrangeu as dinâmicas socioespaciais de municípios como Jacareacanga e Itaituba, onde reside a etnia Munduruku. Há anos, o povo indígena denuncia as violações de direitos decorrentes da exploração de suas terras por não indígenas.

Os pesquisadores destacam que as redes econômicas que sustentam os pontos de garimpo vão além de postos de combustível, aeronaves e embarcações. Pequenos comércios e prestadores de serviços locais são essenciais para a manutenção das atividades garimpeiras e, ao mesmo tempo, dependem delas. Fabiano Bringe, um dos autores do estudo, descreve essa interdependência como "minero-dependência".

A falta de alternativas de renda e subsistência leva muitos indígenas a se envolverem no garimpo. Essa dinâmica contribuiu para a formação do bairro dos Alagados, em Jacareacanga. O município, situado às margens do rio Tapajós, tem uma presença tão significativa dos Munduruku que o nome da etnia é o sobrenome mais comum na cidade. De acordo com o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os indígenas compõem 59,1% dos residentes locais.

"Ocorre a desterritorialização deles, que se deslocam para periferias próximas, formando bairros precários similares aos encontrados em grandes e médias cidades, com condições de saneamento deploráveis", afirma Bringe.

Os jovens indígenas também demonstram pouca atração pela agricultura devido ao esforço físico exigido. "A atividade no garimpo também é árdua. Contudo, a remuneração é consideravelmente superior à obtida na agricultura, pesca ou artesanato", pondera o pesquisador.

Em 2023, o salário médio dos habitantes da cidade alcançou 2,6 salários mínimos, com 2.442 pessoas empregadas formalmente. Em 2010, quase metade da população (48,6%) sobrevivia com uma renda mensal per capita de até meio salário mínimo.

Mudança

Dados da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas (Fapespa) indicam que o número de caminhões em Jacareacanga quase triplicou entre 2014 e 2023, saltando de 25 para 69. Houve também um aumento expressivo de caminhonetes e motocicletas. Paralelamente, o Produto Interno Bruto (PIB) municipal cresceu de R$ 177.489 para R$ 625.760 no mesmo período. O número de estabelecimentos comerciais com vínculo empregatício aumentou de 10 para 34 entre 2010 e 2021, enquanto os de serviço passaram de 6 para 14.

O governo federal tem implementado diversas ações de desintrusão para proteger os Munduruku. Em fevereiro de 2025, a Polícia Federal deflagrou a operação Munduruku Log, bloqueando R$ 24 milhões de suspeitos. Anteriormente, em dezembro de 2024, a operação Flygold II investigou um grupo envolvido na movimentação de R$ 6 bilhões através do comércio ilegal de ouro.

O levantamento realizado pela UEPA, com o apoio do Ministério dos Povos Indígenas e outras esferas do governo federal, abrange o período de 2017 a 2023.

FONTE/CRÉDITOS: Letycia Treitero Kawada - Repórter da Agência Brasil
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