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Sexta-feira, 10 de Abril 2026

Saúde

Horta comunitária do Salgueiro integra memória, cuidado e cidadania no Rio

No Morro do Salgueiro, zona norte carioca, o Coletivo de Erveiras e Erveiros atua com voluntariado local, provendo alimentos e plantas medicinais à comunidade.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Horta comunitária do Salgueiro integra memória, cuidado e cidadania no Rio
© Tânia Rêgo/Agência Brasil
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Há um ano, a jornada diária de Vera Lúcia Silva de Souza, de 74 anos, tem início logo pela manhã. Após regar as plantas em sua residência, ela desce a pé a encosta íngreme do Morro do Salgueiro, na zona norte do Rio de Janeiro, para dedicar-se à horta comunitária localizada na parte inferior da favela, onde complementa sua renda.

Membro ativa do Coletivo de Erveiras e Erveiros do Salgueiro, Vera faz parte de um grupo que, desde 2019, se empenha em registrar e preservar espécies vegetais e conhecimentos tradicionais, cultivando plantas que são familiares aos habitantes da região, mas muitas vezes desconhecidas pela população do "asfalto".

Este espaço de cultivo integra o conjunto de 84 hortas comunitárias apoiadas pela Prefeitura do Rio através do programa Hortas Cariocas, estabelecido há aproximadamente duas décadas. Conforme dados da Secretaria de Ambiente e Clima, em 2025, a produção total dessas hortas alcançou 74 toneladas, com a unidade do Salgueiro contribuindo com 700 kg.

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Memória

Vera Lúcia justifica seu despertar precoce pela manhã, explicando que este é o período ideal para o manuseio da terra, quando as temperaturas são mais brandas e a água não prejudica as plantas.

"Primeiro regamos e depois limpamos para o replantio. Devido ao forte sol do verão, muitas culturas não prosperaram. Este local recebe bastante insolação", relata ela.

Recentemente, Vera encontrou na sua infância a motivação para retomar o contato com a terra. Suas recordações a transportam para um tempo em que os remédios eram preparados em casa por sua mãe e avó, figuras que a introduziram ao universo das ervas e às receitas transmitidas por gerações.

"Eu nasci no ponto mais elevado do morro", explica Vera, indicando uma região ainda acima de sua atual moradia, hoje desocupada. "Aos 14 anos, mudei-me para cá. Foi aqui que minha mãe e minha avó me instruíram sobre o plantio, a preparação de chás, xaropes e temperos. Lembro-me vividamente", assegura.

Situada nas proximidades do Parque Nacional da Tijuca, a residência de Vera é cercada por vegetação, um cenário incomum em muitas favelas cariocas, que frequentemente registram temperaturas superiores à média urbana.

Em seu quintal arejado, não são apenas as lembranças que ela cultiva. "Consegue sentir este aroma? São minhas plantas. Tenho saião, alfavaca, assa-peixe, e ora-pro-nóbis, da variedade maior, que produz uma bela flor rosada", descreve a erveira.

Os canteiros de Vera tornaram sua casa um ponto de referência na comunidade. "Possuo muitas mudas aqui. Algumas plantamos na mata, outras, quando solicitadas, eu doo uma pequena porção", conta. "Meu boldo, por exemplo, está quase no fim. As moradias aqui são pequenas, e nem todos têm espaço para cultivar".

Diversidade de opções

Em um vídeo que destaca a horta comunitária, Marcelo Rocha, também membro do coletivo, estabelece um paralelo entre a limitada oferta de produtos nos supermercados e a vasta gama de alimentos que as pessoas consumiam quando cultivavam em seus próprios quintais:

"É frequente encontrar nos supermercados apenas alface, cheiro-verde e rúcula. No entanto, dispomos de uma riqueza de plantas comestíveis, familiares desde a época da minha avó e bisavó, como ora-pro-nóbis, caruru, alemirão, taioba e serralha", exemplificou.

Desprovida de sinalização ou identificação na entrada, a horta do Salgueiro é um segredo conhecido apenas pelos residentes. No local, cultivam-se ervas e outros vegetais, que posteriormente são destinados à doação para a Escola Municipal Bombeiro Geraldo Dias.

Walace Gonçalves de Oliveira, de 66 anos, carinhosamente chamado de Tio Dadá e também membro do coletivo, revela que até mesmo profissionais da saúde recomendam as ervas e produtos da horta comunitária aos seus pacientes.

"Alguns indivíduos necessitam de uma verdura ou legume específico. Nesses casos, a equipe do posto de saúde os encaminha para buscar conosco", explica.

Da remoção ao plantio

A área onde o coletivo estabeleceu a horta foi originada por um processo de desapropriação. Uma vila completa, construída em encostas acentuadas, teve suas residências removidas devido ao perigo iminente de deslizamentos de terra.

Com chapéu e enxada em mãos, Tio Dadá recorda como a comunidade converteu o terreno, antes repleto de resíduos, em uma horta próspera:

"Aqui cultivamos berinjela, alface, chicória, cenoura. Há uma grande variedade. Também temos limão e uma laranja pouco comum, vermelha por dentro, a laranja sanguínea, que é excelente", descreve ele, revelando suas predileções: "Ora-pro-nóbis é delicioso com frango ou carne assada. Não o utilizo em chás, não aprecio", ressalta.

Alimento e cidadania

De acordo com a prefeitura, as hortas urbanas têm contribuído para a diminuição da ocupação irregular de terrenos baldios e para o aumento da inclusão social, oferecendo aos residentes da comunidade alimentos frescos, sem transgênicos ou agrotóxicos.

Tainá de Paula, secretária municipal de Ambiente e Clima do Rio de Janeiro, assegura que o apoio técnico da pasta é constante. "Mantemos uma distribuição contínua de sementes, sempre acessíveis para retirada", afirma.

FONTE/CRÉDITOS: Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil
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