A Noruega fez gol enquanto eu estava mijando. Achei essa a forma mais apropriada possível de começar esta história. Né nem porque o lance aconteceu exatamente naquele momento, mas porque existe algo poeticamente humilhante em passar três anos acompanhando uma seleção, analisando cada convocação, cada crise, cada recorde negativo, cada escândalo, cada entrevista, cada jogo, para descobrir que o capítulo final acontece justamente quando você está em um banheiro de bar tentando fechar o zíper da calça. Pode ter sido apenas azar. Ou destino, sei lá. Quem sabe a Seleção Brasileira estivesse apenas encerrando seu ciclo da mesma forma que viveu boa parte dele: transformando o ridículo em coerência narrativa. Mas antes de chegar ao banheiro, ao gol da Noruega e ao silêncio que tomou conta daquele bar, acho importante voltar alguns dias.
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Preciso voltar para a estreia contra Marrocos. Porque essa história não começa com a eliminação. Ela começa comigo em pé, sozinho, dentro da minha sala. Com a mão no peito. Cantando o hino nacional. E chorando. Acontece que percebi que aquele choro ia além do que a Seleção Brasileira desperta em mim.
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Quatro anos atrás eu não estava cobrindo Copa do Mundo. Quatro anos atrás eu estava sobrevivendo. Existe uma diferença enorme entre essas duas coisas. Eu tinha diploma. Tinha vontade. Tinha sonhos. Mas também tinha contas, inseguranças, luto e uma sensação permanente de que a vida estava andando enquanto eu permanecia parado.
Quando começou aquela Copa no Catar, resolvi fazer uma coisa meio patética. Ou talvez corajosa, dependendo do ângulo. Peguei meu celular e comecei a fazer coberturas pelos stories do Instagram. Para duzentos seguidores desengajados. Sem credencial. Sem veículo. Sem audiência. Sem perspectiva.
Eu fingia para mim mesmo que aquilo era treinamento. Que estava praticando comunicação e exercendo jornalismo. Mas, olhando hoje, percebo outras nuances. Era sobrevivência emocional e uma tentativa desesperada de continuar sendo jornalista antes que a vida me convencesse do contrário.
Foi uma forma de não abandonar uma versão de mim mesmo que eu ainda acreditava existir. E, pensando bem, acho que funcionou. Porque quatro anos depois me vejo sentado diante do computador. Preparado. Trabalhando. Fazendo exatamente aquilo que sonhei fazer.
A estreia da Seleção contra Marrocos começou. O hino tocou. Eu me levantei. Coloquei a mão no peito. E cantei. Até o fim. Com os olhos cheios d’água. Naquele instante minha emoção transcendeu o futebol. Era sobre mim. Eu tinha conseguido. Eu estava ali, oficialmente fazendo parte da imprensa. Essa vitória é pessoal.
O banheiro, Andreas Pereira e Haaland
O futebol já tinha me ensinado muito antes que banheiro é território amaldiçoado. Na final da Libertadores de 2021, entre Flamengo e Palmeiras, também resolvi levantar num momento decisivo para me aliviar. No meio do caminho ouvi o bar explodir. Saí correndo acreditando que fosse mais um gol do Gabigol.
Quando voltei, olhei para a televisão, encontrei apenas o replay de Andreas Pereira escorregando. Deyverson corria sozinho. Meu amigo Bruno estava apático. E ali morreu uma Libertadores.
Quando Haaland fez o gol da Noruega, eu estava exatamente repetindo o mesmo ritual. Realmente devo ser muito pé-frio. Deve existir alguma entidade sobrenatural que utilize essa bexiga como instrumento narrativo das maiores tragédias esportivas da minha vida. Ou tudo isso apenas combine perfeitamente com a trajetória dessa Seleção. Porque seria estranho um ciclo que colecionou recordes negativos terminar de maneira convencional.
A Copa que assisti sem sentir
Nesta Copa eu me obriguei a assistir aos jogos da Seleção como jornalista. Anotando. Observando. Interpretando. Tentando ser frio e técnico. Tentando não permitir que o torcedor interferisse no analista.
Confesso que a sensação é estranha. Pois pela primeira vez na vida, eu não estava vivendo os jogos da Copa, mas estudando eles. E existe uma diferença brutal entre amar algo e dissecar algo.
Quando você disseca, inevitavelmente perde um pouco da magia. Acontece com o futebol, a política, a música. Acontece com as pessoas. Quanto mais você entende os bastidores, mais difícil fica acreditar nos contos de fadas.
Mas então chegou o domingo. Estava de folga e sabia que poderia ser o último jogo do Brasil. Então decidi me dar o direito de voltar a ser torcedor com todos os ônus e bônus da categoria.
Um gaúcho, um menino e uma mesa de bar
Fui assistir ao jogo num bar. Cerveja gelada. Televisão ligada. Pessoas reunidas em torno de uma mesma esperança. O tipo de lugar onde o futebol ainda consegue parecer simples.
Sentei ao lado de um amigo novo. Professor universitário de física. Gaúcho. Colorado. Gente boa pra cacete. Com ele e sua turma, estava o afilhado. Devia ter uns 9 ou dez anos.
Ali percebi algo curioso, porque estava sentado entre duas formas diferentes de viver o futebol. Um veterano e uma criança. Experiência e inocência dividindo a mesma mesa.
O menino acreditava. Acreditava de verdade. Quando Neymar foi chamado para entrar, seus olhos acenderam. Ele tinha certeza absoluta de que o camisa 10 iria salvar tudo, que haveria redenção, e o herói chegaria no momento decisivo. E, por alguns segundos, me permiti entrar naquele espírito infantil e me vi torcendo de verdade pra que isso acontecesse. Entre uma jogada e outra, o garoto soltava alguns palavrões populares de seu vocabulário em construção. Instantes antes da partida começar, a mãe dele disse que tava permitido xingar durante os 90 minutos. Ele se permitiu, com cautela, e fez até palavras de baixo calão em versão moderada parecerem poesias de Manoel de Barros.
Sentir esperança é contagioso quando ela ainda não foi derrotada pela realidade. Quando Neymar apareceu à beira do campo, o bar explodiu. Parecia gol. E aquilo era bonito.
Independentemente do que penso sobre Neymar, sobre seu ciclo ou sobre sua carreira, é muito poderoso a capacidade que o futebol tem de produzir esse tipo de reação coletiva. Por alguns segundos, centenas de pessoas acreditaram na mesma mentira.
O professor também acreditava. Mas acreditava de outro jeito. Enquanto o garoto esperava um milagre do Neymar, o gaúcho comemorava cada defesa do Alisson como quem comemora um gol do Internacional.
Havia beleza naquela fidelidade ao goleiro. Em uma das defesas mais difíceis da partida, ele deu um tapa tão forte na mesa que meu copo de cerveja virou inteiro sobre a meu colo. Olhamos um para o outro. Caímos na gargalhada. Enchi novamente os dois copos. Levantei o meu: “Ao Alisson.” Ele ergueu o dele: “Ao Alisson.” Brindamos.
Talvez aquele tenha sido o único título que o Brasil conquistou naquela tarde. É curioso como o futebol produz amizades instantâneas. Você passa noventa minutos dividindo emoções com pessoas que, em qualquer outro contexto, jamais encontrasse. Durante uma Copa do Mundo, desconhecidos viram companheiros de arquibancada improvisada. Um professor de Física, um jornalista, um menino de dez anos e dezenas de pessoas espalhadas por um bar tornam-se uma comunidade temporária movida por um objetivo comum: acreditar.
Descobri naquele domingo que isso também cansa. Porque a esperança exige um esforço enorme quando os fatos passam meses dizendo exatamente o contrário.
Passei boa parte desse ciclo escrevendo que aquela Seleção caminhava para isso. Vi a pior campanha da história nas Eliminatórias. Vi derrotas inéditas. Vi tabus caindo um atrás do outro. Vi quatro treinadores diferentes. Vi campanhas publicitárias tentando fabricar emoção onde já não existia espontaneidade. Vi a instituição mais poderosa do futebol brasileiro atravessar escândalos enquanto o campo respondia com um futebol cada vez mais pobre. Mesmo assim, naquele bar, quis esquecer tudo.
Por duas horas eu queria voltar a ser apenas um torcedor. Vai ver no fundo ninguém queira ter razão quando a própria razão significa assistir ao fracasso do time que aprendeu a amar antes mesmo de entender o que era futebol.
Existe uma frase que ouvi durante anos: “Em Copa é diferente.” Era. Não foi. A diferença desapareceu justamente quando a Seleção deixou de parecer uma Seleção.
Ao longo desse ciclo já critiquei o excesso de marketing, a artificialidade das campanhas, e a tentativa desesperada de fabricar conexão emocional. Parecia que tudo vinha embalado antes mesmo de acontecer. O slogan já nascia pronto. O vídeo institucional era produzido antes da história existir. Queriam criar legado antes de produzir feitos.
Toda grande geração da história do futebol foi lembrada porque primeiro viveu algo extraordinário. Só depois vieram os documentários. Esta resolveu inverter a ordem. Produziu o trailer antes de fazer o filme e terminou sem roteiro.
No meio disso tudo, ainda guardo a imagem daquele menino sentado ao meu lado. Ele comemorou a entrada do Neymar como eu comemoraria aos dez anos. Com a convicção absoluta de que o herói resolveria tudo. Olhei para ele e tive a estranha sensação de estar vendo a mim mesmo em 2006. Só que agora eu conhecia o final da história. Percebi ali que é difícil continuar amando as mesmas coisas sabendo que elas já não são capazes de devolver a mesma inocência.
Endrick e o peso de nunca ter virado protagonista
Existe outra história que vai demorar anos para entendermos. A de Endrick. É curioso como ele continua sendo tratado sempre como joia, promessa, futuro. Como se estivesse sempre chegando, mesmo tendo protagonizado roteiros que poderiam credenciá-lo ao lugar de quem já é realidade. Mas parece que existe algo que os treinadores enxergam e sabem e nós não.
Os grandes jogadores da história quase nunca foram tratados como promessa durante muito tempo. Foram tratados como protagonistas cedo demais. Pelé recebeu o mundo nas costas aos 17 anos. Ronaldo. Neymar. Messi. Até Vinícius Júnior, quando finalmente encontrou um treinador disposto a sustentá-lo mesmo errando, virou outro jogador. Endrick nunca teve isso. Recebeu expectativa, cobrança, manchetes, e a obrigação de provar, a cada oportunidade, que merecia continuar existindo naquele espaço. Resultado: no momento mais importante da carreira dele, na bola da vida, se equivocou e não conseguiu se consagrar.
Confiança verdadeira, aquela que faz um garoto entender que pode errar porque continua sendo o escolhido, parece que ele nunca recebeu. É impossível saber se os treinadores perceberam limitações que nós nunca enxergamos ou se simplesmente desperdiçaram um talento raro por medo de bancá-lo. Pode acontecer que o Endrick realmente nunca passe da condição de promessa. Quem sabe ainda ocorra, em algum lugar, alguém disposto a tratá-lo como aquilo que um dia parecia ser.
O fim melancólico de Neymar
E Neymar… o mais triste nem seja é fim. É a forma. Durante anos ele foi apresentado como o último elo entre o Brasil e a possibilidade de um novo gênio. O menino que pisaria onde Pelé, Romário, Ronaldo e Ronaldinho caminharam. No fim, terminou entrando no segundo tempo para alimentar uma esperança que já parecia morta antes mesmo de ele tirar o colete.
O bar explodiu quando seu nome apareceu porque milhões de brasileiros ainda tentavam salvar uma memória. Era a última tentativa de convencer a si mesmos de que aquele garoto de 2011 ainda existia em algum lugar. Não existia.
O futebol foi embora antes do personagem. Restou a novela e a expectativa. Restou a eterna promessa de uma redenção que nunca chegava. Como se ele fosse capaz de salvar algo que já estava condenado havia muito tempo.






