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Terça-feira, 26 de Maio 2026
Justiça

Provas digitais do celular da babá foram cruciais para desvendar agressões contra Henry Borel

O delegado Edson Henrique Damasceno revelou como prints de mensagens de Thayná de Oliveira Ferreira desmascararam a farsa sobre a morte do menino.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Provas digitais do celular da babá foram cruciais para desvendar agressões contra Henry Borel
© Tomaz Silva/Agência Brasil
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O delegado Edson Henrique Damasceno, responsável pela investigação da morte de Henry Borel, de 4 anos, em março de 2021, afirmou nesta terça-feira (26) no 2º Tribunal do Júri, no Rio de Janeiro, que as provas digitais obtidas do celular da babá Thayná de Oliveira Ferreira foram decisivas para desvendar a “farsa” por trás das agressões que culminaram na morte da criança. Ele enfatizou que, sem esses registros, a verdade sobre o caso permaneceria oculta, marcando um ponto crucial no segundo dia do julgamento.

Damasceno, então titular da 16ª Delegacia Policial na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio, liderou a investigação que apontou Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, e Monique Medeiros da Costa e Silva como acusados pela morte de Henry.

Dr. Jairinho, vereador à época, era padrasto de Henry, filho de Monique Medeiros e Leniel Borel de Almeida Junior. A criança faleceu na madrugada de 8 de março de 2021, com múltiplas lesões corporais.

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Lesões e manchas

Inicialmente, o caso foi reportado à delegacia como um acidente doméstico. Contudo, as informações preliminares do laudo cadavérico, que indicavam “lesões sérias”, impulsionaram Damasceno a mudar a linha de investigação.

O delegado detalhou a gravidade, mencionando “lesões no rim, pulmão, cabeça, fígado e equimoses (manchas roxas) pelo corpo” da criança.

Durante os depoimentos, o casal Jairinho e Monique sustentava uma versão de harmonia familiar, atribuindo as lesões de Henry a uma suposta queda da cama.

No entanto, uma reprodução simulada realizada na residência do casal demonstrou que as lesões eram, de fato, incompatíveis com um acidente doméstico.

“Henry foi vítima de lesões que culminaram em sua morte”, declarou Damasceno, ressaltando que o laudo pericial foi assinado por oito especialistas.

Prints de celular

A convicção de que Henry havia sofrido agressões foi consolidada quando o delegado teve acesso aos prints de mensagens extraídas do celular de Thayná de Oliveira Ferreira, a babá.

A análise das conversas entre a babá, Monique e o namorado de Thayná revelou relatos de outras agressões de Jairinho contra o menino de 4 anos, contradizendo o depoimento inicial da própria babá na delegacia.

“Ficou inequivocamente demonstrado que o menino já era submetido a violência dentro de casa”, afirmou o delegado.

Uma das conversas entre a babá e Monique descrevia um episódio em que Henry foi trancado em um quarto com Jairinho, saindo de lá mancando e queixando-se de dor de cabeça.

Damasceno acrescentou que, apesar do pedido da babá para que Monique retornasse, a mãe só chegou em casa aproximadamente duas horas e meia depois, pois estava em um salão de beleza.

Em 13 de fevereiro, Henry foi levado ao hospital por Monique, apresentando queixas de dores e dificuldade para andar.

“A mãe alegou que Henry havia caído da cama, a mesma versão que o casal apresentou no depoimento sobre a causa da morte”, pontuou o delegado.

Posição de Monique

As mensagens confirmaram para o delegado que Monique tinha pleno conhecimento das agressões sofridas pelo filho. Além disso, outros diálogos indicaram que ela não mantinha uma postura de submissão a Jairinho.

“Monique confrontava Jairo, ameaçando prejudicá-lo severamente caso ele não cumprisse com suas obrigações financeiras. Ninguém era subjugado naquele cenário”, constatou Damasceno.

As provas digitais também revelaram que pessoas próximas a Henry, como a babá, avó e empregada doméstica, foram “treinadas a mentir” pelo escritório de advocacia que inicialmente defendeu o casal. Além disso, Monique teria instruído a babá a apagar mensagens do celular.

Para recuperar esses conteúdos, a perícia utilizou o Cellebrite, um software israelense de uso exclusivo de autoridades, capaz de extrair e restaurar dados de celulares, incluindo mensagens apagadas de aplicativos como WhatsApp.

Durante os depoimentos no Tribunal do Júri, Jairinho manteve uma expressão séria, sem demonstrar reações visíveis, por vezes conversando com seus advogados. Monique, em diversos momentos, foi vista de cabeça baixa, apoiando-a com as mãos.

Pressão contra IML

Damasceno confirmou em seu depoimento que Dr. Jairinho exerceu pressão sobre o Hospital Barra D'Or, para onde Henry foi levado, para que a morte da criança fosse atestada sem a necessidade de encaminhamento do corpo ao Instituto Médico Legal (IML) para perícia.

O delegado relatou que o menino chegou à unidade hospitalar em parada cardiorrespiratória, e, apesar das tentativas de ressuscitação, não resistiu.

Damasceno explicou que, sem a perícia do IML, o corpo poderia ter sido sepultado sem a devida coleta de provas digitais e físicas essenciais para a investigação.

Um executivo da Rede D'Or confirmou ao delegado os insistentes pedidos de Jairinho para que o hospital agilizasse o atestado de óbito. A pressão foi exercida por meio de ligações e mensagens de texto, com Jairinho afirmando: “Ou vocês agilizam ou eu agilizo”.

Ao ser questionado pela acusação, o delegado destacou a influência de Jairinho, que era vereador e filho do Coronel Jairo, um policial militar com histórico de mandatos como deputado estadual no Rio de Janeiro.

Outras vítimas

Em resposta a um questionamento da acusação, o delegado mencionou ter conhecimento de relatos de duas ex-companheiras de Jairinho que buscaram a polícia para denunciar agressões contra seus filhos. Um dos casos envolvia uma menina que teria sido afogada por Jairinho.

“Ele teria enfiado a cabeça dela embaixo d'água”, detalhou Damasceno. O outro incidente se referia a um menino que sofreu uma fratura no fêmur devido a uma agressão.

Após o depoimento de Edson Henrique Damasceno, são esperados os relatos de outras testemunhas de acusação e defesa. A decisão final será proferida por sete jurados, com a expectativa de que o julgamento se estenda por aproximadamente cinco dias.

Renúncia de advogado

Na sessão desta terça-feira, Sérgio Figueiredo, um dos advogados de Jairinho, anunciou sua renúncia ao caso. Ele justificou a decisão como um repúdio à negativa do Tribunal do Júri em adiar novamente o julgamento, dado que o advogado-chefe da equipe, Fabiano Tadeu Lopes, havia sofrido um infarto e estava hospitalizado.

Na abertura do julgamento, na segunda-feira (25), Jairinho tentou um adiamento, mas recuou diante da ameaça de ser transferido para o presídio de Bangu 1, uma unidade mais rigorosa que Bangu 8, onde se encontra atualmente.

O caso

Conforme a denúncia, na madrugada de 8 de março de 2021, Dr. Jairinho espancou Henry Borel até a morte, enquanto Monique Medeiros, a mãe, teria se omitido de sua responsabilidade, culminando no homicídio. O Ministério Público aponta que, em outras três ocasiões em fevereiro de 2021, Jairo já havia submetido o menino a sofrimento físico e mental por meio de violência.

Jairo é formalmente acusado de seis crimes, incluindo homicídio qualificado por meio cruel que impossibilitou a defesa da vítima, três atos de tortura contra a criança, fraude processual e coação no curso do processo. Monique, por sua vez, responde por sete crimes, entre eles homicídio por omissão qualificado e omissão de socorro.

FONTE/CRÉDITOS: Bruno de Freitas Moura - Repórter da Agência Brasil
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