Em um avanço socioeconômico notável, mais de 10 milhões de pessoas conseguiram sair da condição de pobreza nas regiões metropolitanas do Brasil entre os anos de 2021 e 2025, impulsionadas principalmente pela melhoria nos salários e na oferta de empregos. Essa redução histórica é revelada pelo boletim "Desigualdade nas Metrópoles", uma colaboração entre o Observatório das Metrópoles, a Rede de Observatórios da Dívida Social na América Latina (RedODSAL) e a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).
Com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estudo detalha que a taxa de pobreza em 22 metrópoles brasileiras alcançou 18,4% no ano de 2025. Este índice representa, pelo terceiro ano consecutivo, o menor valor desde o início da série histórica em 2012.
Para o economista e sociólogo Marcelo Ribeiro, professor do Programa de Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pesquisador do Observatório das Metrópoles, a diminuição é "significativa". Em entrevista à Agência Brasil, ele pondera que, "apesar do nível de pobreza ainda se manter bastante alto no conjunto das metrópoles do Brasil", o patamar de redução é considerável.
O especialista atribui essa queda da pobreza diretamente à melhora na remuneração do trabalho e à expansão da oferta de ocupações no país. Ribeiro salienta que a evolução está "muito vinculada com o fato de as pessoas mais pobres terem aumentado o seu nível de renda a partir do rendimento do trabalho".
Ele, contudo, descarta que programas sociais de transferência de renda, como o Bolsa Família, sejam os principais responsáveis por essa melhoria. Os valores pagos pelo Bolsa Família, por exemplo, não foram reajustados desde março de 2023.
Renda domiciliar per capita atinge novo recorde
O boletim "Desigualdade nas Metrópoles" também revelou que a renda média domiciliar per capita no conjunto das metrópoles brasileiras atingiu um novo recorde em 2025, alcançando o valor de R$ 2.766.
Apesar dos avanços, cerca de 15,2 milhões de pessoas (15.188.817) ainda viviam em situação de pobreza nas regiões metropolitanas em 2025. Esse grupo possuía uma renda domiciliar per capita mensal de até R$ 729. Para ilustrar, esse contingente populacional equivale à soma total dos habitantes do Pará, da Paraíba e de Sergipe.
Dentro desse universo, 2,6 milhões de indivíduos se encontravam em condição de extrema pobreza, com uma renda familiar per capita mensal de até R$ 229. Esse número é comparável à população total de cidades como Fortaleza ou Salvador.
O boletim também aponta que a taxa de extrema pobreza nas metrópoles brasileiras recuou para 3,2%. Este patamar é o segundo menor desde 2012, superado apenas pelos anos de 2013 e 2014.
Desigualdade persistente: Ricos ganham 16,1 vezes mais que os mais pobres
Adicionalmente, o estudo analisou a concentração de renda por meio do índice de Gini, que em 2025 registrou 0,511. É importante notar que, quanto mais próximo de 1, maior é a concentração de rendimento nas mãos de um menor número de pessoas.
Uma nota de divulgação do estudo ressalta que o aumento da desigualdade entre 2024 e 2025 foi evidenciado pela disparidade entre os rendimentos. Em 2025, os 10% mais ricos da população nas metrópoles recebiam, em média, 16,1 vezes mais do que os 40% mais pobres, um dado que reforça a persistência das profundas disparidades socioeconômicas no país.
Marcelo Ribeiro aponta que a histórica desigualdade social no Brasil é perpetuada por múltiplos fatores, destacando o mercado de trabalho e os rendimentos provenientes de aplicações financeiras. Ele explica que, para os indivíduos mais ricos, o mercado de trabalho oferece um "efeito especial", concentrando-os em ocupações de maior remuneração, que geralmente exigem maior escolarização.
Adicionalmente, o economista lembra que o período analisado foi marcado por taxas de juros elevadas. Somente grupos com maior poder aquisitivo conseguem realizar aplicações financeiras, cujos rendimentos, somados aos do trabalho, contribuíram para um aumento de renda proporcionalmente maior do que o observado nos estratos socioeconômicos mais baixos.
Desigualdades regionais: Um mapa da renda
Ribeiro enfatiza que a desigualdade se manifesta também em uma distribuição geográfica notável. As metrópoles das regiões Norte e Nordeste, por exemplo, apresentam uma proporção maior de pessoas em situação de pobreza em comparação com as do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Um exemplo claro é o Distrito Federal, com uma renda média mensal de R$ 4.401, que detém um valor 2,7 vezes superior à média de renda da grande São Luís (R$ 1.616).
O estudo abrangeu um total de 22 regiões metropolitanas, incluindo Manaus, Belém, Macapá, São Luís, Fortaleza, Natal, João Pessoa, Recife, Maceió, Aracaju, Salvador, Belo Horizonte, Vitória, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vale do Rio Cuiabá e Goiânia, além do Distrito Federal e da Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento de Teresina (PI).
Essas 22 regiões metropolitanas, compostas por aproximadamente 300 cidades, concentram uma parcela significativa da população brasileira: quatro de cada dez habitantes do país residem nessas áreas.