O Tribunal de Contas da União (TCU) notificou o governo federal sobre potenciais falhas no plano de reestruturação financeira dos Correios, alertando que o modelo atual pode infringir a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) sem as devidas correções. A Corte estabeleceu um prazo para que o governo revise o processo e fortaleça os mecanismos de controle sobre os recursos envolvidos na operação.
A decisão, proferida nesta quarta-feira (27), ocorreu durante a análise de processos referentes a um empréstimo de R$ 12 bilhões contraído pelos Correios no final do ano passado, com a União como garantidora. Isso implica que, em caso de inadimplência da estatal, o governo federal poderá ser compelido a cobrir a dívida.
TCU questiona a aprovação do plano
A principal preocupação do TCU reside na alegada aprovação do plano de recuperação financeira dos Correios sem a realização de análises técnicas aprofundadas, consideradas essenciais para a avaliação dos riscos inerentes à operação.
Segundo o ministro relator Benjamin Zymler, o governo teria acatado as projeções financeiras apresentadas pela estatal sem uma avaliação criteriosa da viabilidade das metas e das estimativas de receita projetadas.
O ministro destacou que órgãos governamentais, incluindo o Tesouro Nacional, o Ministério da Fazenda, o Ministério das Comunicações e a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais (Sest), realizaram análises consideradas superficiais.
Para o TCU, essa conduta pode configurar um descumprimento da Lei de Responsabilidade Fiscal, que preconiza planejamento, transparência e avaliação prévia de riscos em operações que possam impactar as finanças públicas.
Empréstimo bilionário sob escrutínio
O empréstimo de R$ 12 bilhões, autorizado no final de 2025, faz parte da estratégia para reverter a situação financeira dos Correios, que desde 2024 figura na lista de alto risco do TCU em virtude de suas dificuldades financeiras.
Adicionalmente à operação de crédito, o plano prevê novos aportes de capital na estatal, sendo necessário que o governo assegure um montante adicional de pelo menos R$ 6 bilhões até 2027 para a continuidade do plano.
O TCU manifestou apreensão quanto à capacidade dos Correios de honrar as obrigações financeiras estabelecidas, o que poderia levar a União a arcar com custos adicionais para evitar o colapso da operação.
Risco para as finanças públicas
Os ministros do tribunal ressaltaram que os riscos transcendem a esfera dos Correios, podendo afetar diretamente as contas públicas da União.
A União figura como garantidora da dívida, o que significa que, em caso de falha no pagamento das parcelas do empréstimo pelos Correios, o Tesouro Nacional poderá ser acionado pelos bancos credores.
O tribunal também apontou que o governo não realizou uma avaliação adequada da capacidade de pagamento real dos Correios antes de conceder a garantia federal.
Na perspectiva do TCU, houve uma demora na atuação governamental diante da crise financeira da estatal, mesmo após alertas prévios sobre a deterioração das finanças da empresa.
Monitoramento rigoroso exigido
Apesar das críticas, o TCU não invalidou o plano de reestruturação, mas impôs uma série de medidas de acompanhamento e controle.
O governo dispõe de 120 dias para implementar mecanismos de monitoramento dos aportes previstos aos Correios e dos riscos fiscais associados à operação.
Os Correios, por sua vez, deverão submeter relatórios periódicos mais detalhados, abrangendo:
- Progresso das ações de recuperação
- Metas e indicadores de desempenho
- Resultados financeiros
- Identificação de riscos do plano
- Plano de contingência em caso de falha na reestruturação
O objetivo, conforme o TCU, é aumentar a transparência e viabilizar um acompanhamento contínuo da situação financeira da estatal.
Investigação sobre responsabilidades
Paralelamente às exigências de monitoramento, o tribunal determinou a instauração de um processo autônomo para investigar possíveis responsabilidades de servidores públicos na aprovação do plano e da garantia concedida pelo Tesouro Nacional.
Esta análise poderá apurar a existência de falhas técnicas, omissões ou irregularidades na condução do processo.
Dependendo das conclusões, servidores poderão ser individualmente responsabilizados.
Contexto financeiro dos Correios
Os Correios, empresa pública federal responsável pelos serviços postais no Brasil, não dependem oficialmente de recursos orçamentários da União para sua operação. Contudo, a estatal tem enfrentado consideráveis dificuldades financeiras nos últimos anos.
O TCU observou que a empresa acumula passivos significativos e problemas contábeis de relevância.
Um dos pontos criticados pelo tribunal é a persistência da classificação dos Correios como estatal “não dependente”, mesmo diante da necessidade de empréstimos garantidos pelo governo federal para a manutenção de suas operações e a execução do plano de recuperação financeira.