A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado do Senado Federal realizou, nesta terça-feira (24), questionamentos à Meta, conglomerado proprietário do WhatsApp, Facebook e Instagram, a respeito de eventuais benefícios financeiros obtidos pela companhia norte-americana com atividades criminosas em suas plataformas digitais.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI, destacou que os lucros advindos de anúncios de golpes e fraudes online podem somar bilhões de dólares, configurando um incentivo para a permanência desses conteúdos nas redes.
“Aparentemente, a Meta tem deliberadamente dificultado a ação das autoridades. Ao criptografar conteúdos, mesmo diante de relatos internos alertando que essa medida favorece a criminalidade, a empresa prosseguiu com tal prática”, declarou o relator.
A criptografia de ponta a ponta é um sistema que restringe o acesso de terceiros às mensagens trocadas no WhatsApp, Messenger do Facebook e Instagram, protegendo a privacidade das conversas.
Durante a audiência, a diretora de políticas econômicas para a América Latina da Meta, Yana Dumaresq Sobral Alves, refutou a alegação de que a empresa teria interesse financeiro em anúncios fraudulentos.
“Nosso interesse é manter nossas plataformas livres de agentes maliciosos e conteúdos ilícitos. Afirmar que isso não está alinhado aos nossos interesses comerciais seria incorreto, pois ter tais conteúdos em nossas plataformas é prejudicial. Por isso, implementamos medidas robustas, proativas e em tempo real para identificar e bloquear campanhas fraudulentas”, explicou.
Para Vieira, a empresa pode adotar essa postura pois minimiza o risco de ter que arcar com indenizações, uma vez que a Justiça não consegue acessar conteúdos que prejudicaram vítimas, por exemplo, de exploração sexual.
O senador acredita que a decisão da Meta de tolerar a divulgação de conteúdo criminoso não afeta sua imagem, dada a sua posição de gigante global sem concorrentes diretos.
“Trata-se de um megamonopólio de comunicação, e, de fato, precisaremos chegar a um ponto de regulamentação por meio de legislação. Temos divergências pontuais sobre ajustes e conteúdos, mas o fato é que enfrentamos um problema gravíssimo com o avanço digital na sociedade”, ponderou.
A Meta enfrenta um processo judicial nos Estados Unidos (EUA) sob a acusação de facilitar a exploração sexual de crianças e adolescentes e promover conteúdos ilegais para obter lucro. A gigante da tecnologia nega as acusações.
O uso de redes sociais para exploração sexual afeta outras plataformas, como a X. A União Europeia iniciou uma investigação em janeiro deste ano sobre o uso da Inteligência Artificial (IA) Grok, da plataforma X, para gerar imagens sexualizadas de indivíduos, incluindo menores de idade.
Audiência no Senado
Na CPI do Crime Organizado no Senado brasileiro, o relator Alessandro Vieira havia solicitado a oitiva do diretor-geral da Meta no Brasil, Conrado Leister, para obter mais detalhes sobre reportagens que indicariam ganhos bilionários da empresa com fraudes e crimes na internet.
“Esses documentos sugerem que a Meta registrou um faturamento de aproximadamente US$ 16 bilhões em 2024, proveniente da veiculação de anúncios de golpes e produtos proibidos. Esse valor representaria cerca de 10% da receita anual total da companhia”, justificou o parlamentar sergipano.
Em substituição ao diretor-geral da Meta, a empresa enviou para a audiência na CPI a diretora Yana Dumaresq Sobral Alves. Ela destacou que a companhia obteve resultados reconhecidos por autoridades de segurança pública e pelo Judiciário no combate a fraudes na internet, com decisões que julgaram improcedentes pedidos de condenação por suposta omissão.
Adicionalmente, a diretora da Meta informou que as equipes da empresa desativaram quase 12 milhões de contas no Facebook, Instagram e WhatsApp associadas a centros de atividades criminosas de golpes, além de terem removido 134 milhões de anúncios fraudulentos globalmente em 2025.
“A confiança em nossas plataformas é um requisito absoluto para o sucesso de nossos negócios. Nosso objetivo é proteger usuários e empresas contra práticas enganosas”, concluiu.
Documentos internos vazados
O senador Vieira questionou Yara sobre uma notícia da agência Reuters, de dezembro de 2025, que aponta que documentos internos da Meta instruem gestores a evitar regulamentações estatais que visam coibir anúncios de golpes na internet.
“Trabalho com esse tema dentro da empresa há mais de dois anos e meio e nunca vi nenhum documento, e não me recordo de ter visto, que apresentasse esse tipo de interesse ou abordagem”, respondeu Yara, diretora de política econômica da Meta para a América Latina.
Exploração sexual de crianças e adolescentes
O relator da CPI, Alessandro Vieira, também buscou esclarecimentos sobre a capacidade da Meta de identificar e impedir a disseminação de imagens de abuso sexual de crianças e adolescentes nas redes sociais. O senador citou estudos que evidenciam o uso das plataformas para o aliciamento de menores.
“Em 2020, um relatório do ONG Human Trafficking Institute indicou que o Facebook foi a plataforma mais utilizada por traficantes sexuais para aliciar e recrutar crianças, com 65% dos casos de aliciamento e recrutamento ocorrendo através da sua plataforma”, ressaltou o senador.
A diretora da Meta, Yara Alves, não conseguiu fornecer uma resposta precisa sobre a capacidade da empresa de identificar conteúdos de pornografia infantil e impedir sua divulgação.
“Não consigo detalhar se nossas ferramentas de detecção proativa, baseadas em metadados e outras tecnologias, são suficientes para impedir a transferência de fotos, como o senhor mencionou especificamente. No entanto, coloco a equipe da Meta à disposição desta Comissão”, declarou.
Paralelamente, a representante da Meta enfatizou que o combate à exploração sexual de crianças e adolescentes é uma prioridade para a multinacional, que tem implementado medidas de controle parental para contas de adolescentes.
“O tema de crianças e adolescentes dentro da Meta é de altíssima prioridade e envolve diversos times dedicados nas áreas de produto, conformidade, jurídica, políticas públicas e operações”, afirmou.
Perguntas sem respostas
A diretora da gigante tecnológica também demonstrou desconhecimento em relação a questões levantadas pelos senadores sobre temas específicos, como os limites da criptografia e o uso de algoritmos nas redes sociais para promover determinados conteúdos políticos.
A falta de clareza em algumas respostas levou o relator da CPI a solicitar uma nova convocação do diretor-geral da Meta no Brasil, Conrado Leister.
“A empresa informou, ao solicitar a substituição do diretor-geral por vossa excelência, que a senhora teria condições de atender perfeitamente [a CPI]. Novamente, em benefício desse princípio de boa-fé, que é tão valioso nas relações, vamos considerar que foi um erro de avaliação e reiteraremos a convocação do diretor-geral”, declarou o relator da Comissão.