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Sábado, 06 de Junho 2026
Economia

Economistas alertam que PEC no Senado pode facilitar cooptação do Banco Central

Um manifesto publicado por economistas renomados critica a PEC 65 de 2023, em pauta na CCJ do Senado, argumentando que ela fragiliza o controle democrático sobre a autoridade monetária.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Economistas alertam que PEC no Senado pode facilitar cooptação do Banco Central
© Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
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Economistas brasileiros de renome expressaram profunda preocupação com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 65 de 2023, em tramitação no Senado, alertando que sua aprovação pode facilitar a cooptação do Banco Central (BC) pelo setor financeiro. A proposta, que visa conceder autonomia financeira e orçamentária à instituição, também é vista como um fator que poderia perpetuar as elevadas taxas de juros no país, segundo avaliação publicada em manifesto contra a PEC.

O documento, que está na pauta de votações da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, argumenta que a PEC 65 estabelece uma “independência seletiva”. De acordo com os signatários, a proposta afasta o BC do controle democrático exercido pelo Estado, como o Congresso, o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Executivo, mas mantém canais de influência abertos para o setor privado.

Entre os autores do manifesto estão figuras proeminentes como Luiz Carlos Bresser-Pereira, professor emérito de economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e ex-ministro da Fazenda, e Luiz Gonzaga Belluzzo, professor de economia da Unicamp e ex-secretário de política econômica do Ministério da Fazenda. A lista completa de economistas que endossam a crítica pode ser consultada ao final da reportagem.

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A análise dos economistas indica que a PEC 65 não apenas fragiliza a fiscalização, o controle social e a responsabilização do Banco Central, mas também pode levar a um aumento da dívida pública. Além disso, destacam que a proposta poderia criar um modelo único global ao reunir autonomia financeira e operacional da autoridade monetária.

Manutenção dos juros altos sob escrutínio

O manifesto aponta um potencial conflito de interesses relacionado à senhoriagem, que é a receita gerada pela emissão de moeda. Essa receita, que deveria ser administrada pelo BC em função das condições macroeconômicas e do interesse público, passaria a beneficiar diretamente o orçamento da instituição.

“O BC passaria a se beneficiar institucionalmente de condições macroeconômicas que deveria administrar em nome do interesse público, e não de seu próprio orçamento. E como a senhoriagem depende dos juros, o BCB passaria a ter conflito de incentivos em relação à manutenção de juros elevados”, explicam os economistas no documento.

O Brasil atualmente ostenta uma das segundas maiores taxas de juros reais do mundo, um cenário que contribui significativamente para o crescimento da dívida pública nacional.

Receita da criação de moeda: um ponto de discórdia

Embora uma lei de 2021 já tenha concedido ao BC autonomia administrativa e operacional, a instituição ainda depende do Orçamento da União para suas atividades. A PEC 65, contudo, ampliaria essa autonomia ao permitir que o BC retenha os recursos provenientes da senhoriagem.

Essa receita, que entre 2017 e 2025 foi estimada em R$ 23,3 bilhões anuais, contrasta com o orçamento anual do BC no mesmo período, que foi de R$ 4,8 bilhões. Os autores do manifesto consideram que a PEC abre espaço para uma apropriação patrimonialista da senhoriagem, conferindo ao BC uma “imensa frouxidão fiscal”.

Apoio à PEC 65: Galípolo e setor bancário

A direção do Banco Central, liderada pelo presidente Gabriel Galípolo, defende a PEC 65, argumentando que a instituição necessita de mais recursos para cumprir suas missões de fiscalização e regulação do sistema financeiro. A proposta também conta com o aval de associações representativas dos bancos privados, como a Associação Brasileira de Bancos (ABBC) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).

O caso Master e a vulnerabilidade do regulador

Os economistas que criticam a PEC 65 citam o caso da emenda apresentada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), que teria sido redigida por representantes do Banco Master. Essa emenda é vista como um exemplo de como a PEC pode aumentar a capacidade de fraude no sistema financeiro.

“Um BC orçamentariamente autônomo e desvinculado da supervisão parlamentar torna-se, estruturalmente, um regulador mais vulnerável à pressão do setor que regula”, alertam os economistas, mencionando que a proposta amplia mecanismos de socorro financeiro de emergência.

Para os especialistas, a PEC pode tornar o BC mais suscetível à interferência política, de lobistas e do setor financeiro, especialmente na nomeação de diretores e na composição de seu quadro funcional.

Fiscalização e controle social fragilizados

Os signatários do manifesto apontam que a PEC 65 desmonta os mecanismos de fiscalização e responsabilização orçamentária atualmente previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA). A proposta retiraria o BC da LOA e enfraqueceria a jurisdição do TCU.

“Essa é a definição clássica de um regulador capturado: um agente concebido para servir ao público, mas cujos incentivos o aproximam sistematicamente dos interesses dos regulados”, conclui o documento. A retirada do orçamento do BC da LOA reduziria a capacidade de supervisão do Congresso, do TCU e da sociedade sobre decisões com impacto macroeconômico.

Impacto na dívida pública

Os economistas reiteram que a medida pode agravar a dívida pública, pois as receitas da senhoriagem deixariam de abater o endividamento do governo, sendo tratadas como “receita própria” do BC, sem obrigatoriedade de transferência ao Tesouro Nacional.

Um modelo único no mundo

Os autores do manifesto refutam a alegação de que a PEC 65 se alinha às melhores práticas internacionais. Eles afirmam que nenhum dos principais bancos centrais do mundo possui a combinação de autonomia financeira, isenção orçamentária e blindagem parlamentar que a proposta brasileira pretende instituir, citando exemplos dos Estados Unidos, Reino Unido, Zona do Euro e Japão.

  • Luiz Carlos Bresser-Pereira - FGV, ex-Ministro da Fazenda
  • Luiz Gonzaga Belluzzo - Unicamp, ex-Secretário de política econômica do Ministério da Fazenda
  • Flavia Dantas – SUNY – Cortland
  • Pedro Paulo Zahluth Bastos  - Unicamp
  • Élida Graziane  - FGV e Procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo
  • Paulo Nogueira Batista Jr.  – Economista
  • Leda Paulani – USP
  • Ladislau Dowbor – PUC-SP
  • Maria de Lourdes Rollemberg Mollo – UNB
  • Haroldo Silva- Presidente do Corecon – SP
  • Isabel Busato – UFRJ 
  • André Modenesi – UFRJ
  • Lena Lavinas – UFRJ
  • Luiz Fernando de Paula – UFRJ
  • Vanessa Petrelli Corrêa  - UFU
  • Carlos Aguiar de Medeiros – UFRJ
  • Rosa Maria Marques  - PUC-SP
  • Simone Deos - Unicamp
  • Antônio Prado – Vice-Presidente do Corecon – SP
  • Adriana Amado - UNB
  • Pedro Rossi – Unicamp 
  • Gilberto Bercovicci – USP
  • Larissa Naves de Deus Dornelas - UFPR
  • Marco Antônio Rocha - Unicamp
  • Juliane Furno – UFF
FONTE/CRÉDITOS: Lucas Pordeus León - Repórter da Agência Brasil
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