Nesta terça-feira (30), milhares de manifestantes ocuparam a Avenida Paulista, importante via de São Paulo (SP), em um ato contundente pela abolição da escala 6x1. A mobilização, organizada por sindicatos, movimentos sociais e organizações estudantis, buscou pressionar o Senado a acelerar a votação da proposta de redução da jornada de trabalho.
Além da demanda principal sobre a jornada de trabalho, o protesto serviu como plataforma para abordar outras questões sociais prementes. Cartazes e discursos ecoavam pautas como o direito à moradia, a liberdade de manifestação e a urgência no combate ao feminicídio.
Houve críticas expressas a senadores e, em particular, ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, pela percepção de falta de empenho na tramitação do tema. A lentidão no processo legislativo foi um dos pontos centrais de insatisfação.
O impacto da escala 6x1 na vida dos trabalhadores
Marcos Biangolini, de 33 anos, que trabalha em uma garagem de ônibus sob a escala 6x1, compartilhou seu depoimento. "Desde que me entendo por gente, trabalho na escala 6x1, e isso é exaustivo demais", relatou.
Ele detalhou o impacto em sua rotina: "Você acaba trabalhando um mês inteiro e não consegue nem gastar o que recebe porque está sempre trabalhando. Tem um dia de folga para poder gastar, mas nesse dia você só quer descansar."
"Todo fim de semana estou lá trabalhando, e isso é cansativo. Não consigo nem ter tempo com a minha família. Isso, sinceramente, tem que acabar", complementou Marcos, ressaltando o desgaste pessoal.
Marcos soube do ato no trabalho e compareceu com colegas após sua jornada. Ele também criticou aqueles que, mesmo em condições de trabalho mais confortáveis, defendem a manutenção da escala e se opõem ao projeto de mudança.
Mobilização ampliada e a voz da experiência
Em contraste com manifestações anteriores neste ano, que contavam com forte presença de partidos e parlamentares de esquerda, este ato registrou um número significativamente maior de participantes. Destacou-se a presença ampliada de grupos ligados a movimentos de moradia.
A composição do público também foi notável, com mais famílias, incluindo crianças e idosos, o que sublinha a abrangência e a relevância social das reivindicações apresentadas.
Manuel de Oliveira Santos, metalúrgico aposentado de 68 anos, veio com sua família de Embu das Artes, na região metropolitana de São Paulo. Ele atendeu ao chamado do movimento, considerando a mobilização da noite justa e necessária.
"Estou aqui porque é muito importante para nós, a classe trabalhadora. Nós queremos vencer essa batalha e vamos vencer sim, com muita luta, muito trabalho, e vamos erguer a cabeça. Não importa hoje o horário de chegar em casa", brincou o operário, demonstrando resiliência.
Pai de quatro filhos e avô de seis netos, Manuel enfatiza que a luta transcende seu conforto pessoal. "E é urgente, vamos lutar", frisou, reforçando a necessidade de ação imediata.
Aspectos técnicos e a atuação policial
O protesto não registrou a presença de negociadores civis independentes, uma exigência estabelecida por um acórdão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que regulamenta a atuação policial em manifestações no estado. O governo estadual tem um prazo de aproximadamente 50 dias para finalizar a elaboração do protocolo que implementará essa medida.