Aguarde, carregando...

Terça-feira, 02 de Junho 2026
Economia

Pequena África e Cais do Valongo buscam reconhecimento no afroturismo carioca

Especialistas e empreendedores defendem a valorização do patrimônio histórico e cultural da região portuária do Rio de Janeiro como um destino de peso internacional.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Pequena África e Cais do Valongo buscam reconhecimento no afroturismo carioca
© Tomaz Silva/Agência Brasil
IMPRIMIR
Espaço para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.

A Pequena África, no coração do Rio de Janeiro, emerge como um ponto crucial para o afroturismo, mas ainda luta por reconhecimento internacional, conforme apontado por especialistas na Feira Preta Festival, que se encerrou no último domingo (31) no Píer Mauá. A região, berço do Cais do Valongo – o maior porto de desembarque de africanos escravizados nas Américas e Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO desde 2017 –, possui uma riqueza histórica e cultural inestimável para a compreensão da diáspora africana e a formação do Brasil.

Tradicionalmente, os roteiros turísticos do Rio de Janeiro se concentram em ícones como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Contudo, o jornalista e gestor Antonio Pita, um dos fundadores da plataforma Diáspora Black, argumenta que a Pequena África, com seus atrativos singulares, deveria figurar entre as principais atrações internacionais da cidade.

“Uma boa parte das pessoas tem no imaginário o Rio de praias, de festas, mas ainda não vinculou o turismo com o aspecto tradicional”, observou Pita, ressaltando a desconexão entre a percepção comum do Rio e sua rica herança cultural afro-brasileira.

Publicidade

Leia Também:

Além do Cais do Valongo, a área da Pequena África é um verdadeiro complexo cultural e histórico. Ela engloba o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), que preserva vestígios do desembarque de escravizados, o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos e a emblemática Pedra do Sal. Todos esses pontos fazem parte do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana.

A vitalidade cultural da região também se manifesta no Grupo Afoxé Filhos de Gandhi, um dos mais antigos blocos afro do carnaval carioca. Anualmente, em 2 de fevereiro, o grupo presta homenagem a Iemanjá e desfila, mantendo viva uma tradição que se originou no bloco de Salvador.

Apesar do crescente fluxo de visitantes atraídos pelo apelo cultural e gastronômico, Pita observa que a experiência turística na Pequena África muitas vezes é incompleta. Ele aponta que, embora as pessoas frequentem a Pedra do Sal, o Largo da Prainha e museus próximos, como o Museu de Arte do Rio e o Museu do Amanhã, muitos acabam não explorando o Cais do Valongo.

“As pessoas saem sem compreender o berço que é a Pequena África para a ocupação da cidade, para o samba e para o carnaval. Tudo começou aqui”, enfatizou Pita, sublinhando a necessidade de uma imersão mais profunda na narrativa histórica do local.

Adriana Barbosa, diretora executiva do Preta Hub, ressaltou a relevância simbólica da escolha da Pequena África como sede da Feira Preta. Ela destacou a profunda transformação do espaço, que outrora foi um mercado de pessoas africanas escravizadas.

“Estamos aqui, em um lugar que já foi um mercado de pessoas africanas escravizadas, em outra lógica econômica, em que pessoas negras não são mais mercadorias, mas proponentes de relações comerciais a partir de nossa identidade e criatividade”, afirmou Adriana.

A edição da Feira Preta contou com a participação de aproximadamente 130 empreendedores e atraiu um público de cerca de 10 mil pessoas, reforçando o potencial econômico e cultural da comunidade negra.

Investimento em divulgação e combate ao racismo estrutural

A afro-turismóloga Emily Borges, fundadora da Etnias Turismo e Cultura, que participou dos debates no Festival, defende a inclusão da Pequena África em guias e roteiros de grandes agências. Ela também sugere investimentos em campanhas de divulgação em locais estratégicos, como os aeroportos cariocas, para ampliar a visibilidade do destino.

Para Borges, o afroturismo oferece uma experiência de memória e conexão profunda. “Em um mundo cada vez mais acelerado, talvez o verdadeiro luxo das viagens esteja na profundidade das experiências vividas”, reflete a especialista.

Antonio Pita complementa que é fundamental que operadores de turismo e redes hoteleiras incorporem o roteiro da Pequena África em suas ofertas. Ele aponta uma barreira significativa para a promoção do local.

“A gente tem o produto, temos bons operadores, guias, todos com conhecimento, mas ainda há um certo racismo em destacar este destino”, lamentou Pita, evidenciando o desafio do preconceito na indústria do turismo.

Pita cita o sucesso do turismo na Rocinha como prova do potencial de destinos autênticos. Ele recorda a viralização de um vídeo de drone na favela da zona sul, onde turistas chegam a esperar por duas horas e pagam R$ 150 para gravar vídeos com vistas aéreas da comunidade, demonstrando o interesse por experiências genuínas.

Apesar da riqueza histórica e dos atrativos culturais, tanto especialistas quanto moradores da Pequena África são unânimes em clamar por apoio e políticas públicas efetivas para o território. As demandas incluem investimentos urgentes em sinalização, conservação, coleta de lixo e segurança pública.

“É preciso pensar o território como um todo, se está bom para o morador, está bom para o turista também”, ponderou o gestor do Diáspora Black, reforçando a interdependência entre a qualidade de vida local e a atratividade turística.

Há sinais de progresso: o Ministério do Turismo tem demonstrado apoio à consolidação da Pequena África como um roteiro internacional. Um exemplo é a realização do Black Travel Summit, um encontro global de afroturismo, previsto para 2025 na região. “É um movimento que está começando, trazendo visibilidade”, avaliou Pita.

Com o objetivo de fortalecer as organizações locais e as experiências que celebram a herança africana, o Diáspora Black e a Feira Preta lançarão o edital Rede Memória Viva. Esta iniciativa visa oferecer treinamento e recursos, além de mapear outros roteiros afro com potencial de desenvolvimento comunitário em todo o país.

FONTE/CRÉDITOS: Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil
WhatsApp Opina News
Envie sua mensagem, estaremos respondendo assim que possível ; )
Termos de Uso e Privacidade
Esse site utiliza cookies para melhorar sua experiência de navegação. Ao continuar o acesso, entendemos que você concorda com nossos Termos de Uso e Privacidade.
Para mais informações, ACESSE NOSSOS TERMOS CLICANDO AQUI
PROSSEGUIR