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Terça-feira, 05 de Maio 2026
Educação

Pesquisa da OCDE aponta que a maioria das famílias raramente lê para crianças de 5 anos

Estudo revela que a leitura compartilhada é pouco frequente no Brasil, contrastando com a média internacional e evidenciando desigualdades desde a primeira infância.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Pesquisa da OCDE aponta que a maioria das famílias raramente lê para crianças de 5 anos
© Elza Fiúza/Arquivo Agência Brasil
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Uma investigação internacional conduzida pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e divulgada nesta terça-feira (5) indica que 53% dos lares brasileiros informam que nunca ou raramente dedicam tempo à leitura de livros para crianças de 5 anos que frequentam a pré-escola em três estados: Ceará, Pará e São Paulo.

Nessas regiões, apenas 14% dos responsáveis realizam a leitura compartilhada com seus filhos entre três e sete vezes por semana. Em contrapartida, a média global para essa prática alcança 54%.

Os resultados provêm da publicação intitulada 'Aprendizagem, bem-estar e desigualdades na primeira infância em 3 estados brasileiros: Evidências do International Early Learning and Child Well-being Study (IELS)'.

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Tiago Bartholo, coordenador do estudo e pesquisador do Laboratório de Pesquisa em Oportunidades Educacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (LaPOpE/UFRJ), descreve a situação como preocupante, mesmo em segmentos socioeconômicos mais favorecidos, onde o índice de leitura frequente não ultrapassa 25%.

Segundo o pesquisador, o principal obstáculo reside na falta de clareza sobre a importância da leitura compartilhada como um componente essencial no processo de alfabetização infantil. Adicionalmente, a ausência desse vínculo acarreta consequências negativas para o desenvolvimento das crianças.

“Essa informação ainda não está devidamente disseminada. São momentos muito importantes para o bem-estar e para o desenvolvimento das crianças.”

As conclusões apontam para a necessidade de expandir políticas intersetoriais e programas de apoio à parentalidade, bem como de reforçar a colaboração entre famílias e instituições de educação infantil.

“Nossa perspectiva é sempre pensar em família e escolas de forma conjunta, potencializando o bem-estar e o desenvolvimento das crianças”, afirma Tiago Bartholo.

Radiografia do estudo

A coleta de dados para este estudo internacional concentrou-se nos estados do Ceará, Pará e São Paulo por limitações orçamentárias.

A pesquisa abrange três grandes áreas do desenvolvimento infantil em crianças de 5 anos, divididas em dez domínios específicos. Estas áreas incluem:

  • Aprendizagens fundamentais (conhecimentos básicos em linguagem e raciocínio lógico-matemático)
  • Funções executivas (processos de autorregulação que controlam a atenção, impulsos e adaptação a regras e demandas, incluindo avaliação da memória de trabalho e flexibilidade mental)
  • Habilidades socioemocionais, que englobam a compreensão de si e dos outros, a construção de relacionamentos sociais, como empatia, confiança e comportamento pró-social.

No total, 2.598 crianças participaram do estudo, distribuídas em 210 escolas, sendo 80% delas públicas e 20% privadas, localizadas nas três unidades federativas mencionadas.

A metodologia do estudo IELS-2025 envolveu a coleta individual de dados das crianças por meio de atividades lúdicas e interativas, estruturadas em formato de jogos e histórias adequadas à faixa etária.

A pesquisa também buscou captar a percepção de famílias e professores sobre o aprendizado, o desenvolvimento e o comportamento das crianças, utilizando questionários específicos para cada grupo.

Os resultados inéditos, projetados em larga escala, podem subsidiar o Brasil na formulação de políticas públicas eficazes voltadas à primeira infância e no aprimoramento de estratégias nas áreas de saúde, educação e assistência social.

Habilidades iniciais: literacia e numeracia

No contexto do IELS, a literacia emergente refere-se ao desenvolvimento de competências linguísticas iniciais (oral e de vocabulário) antes do início da alfabetização formal.

Em relação ao domínio das aprendizagens fundamentais, o estudo registrou que a pontuação em literacia foi a mais elevada entre a amostra brasileira, atingindo uma média de 502 pontos, superando ligeiramente a média internacional de 500 pontos.

Neste domínio específico, observou-se pouca variação nos resultados entre diferentes níveis socioeconômicos, com as pontuações concentrando-se em um patamar médio-alto.

Mariane Koslinski, outra coordenadora da pesquisa no LaPOpE/UFRJ, sugere que políticas públicas recentes podem ter contribuído para esse desempenho positivo.

“Na literacia emergente, o Brasil foi bem porque teve várias políticas que apoiaram a alfabetização, a formação de professores e isso contribuiu, muito provavelmente, para esse resultado”, explica a pesquisadora.

O estudo também analisa o domínio da numeracia emergente, que engloba as noções matemáticas iniciais desenvolvidas pelas crianças, incluindo contagem básica, comparação de quantidades, reconhecimento e compreensão de relações espaciais e temporais.

Neste aspecto, em contraste com as habilidades de linguagem, o desempenho do Brasil em matemática inicial (numeracia emergente) foi de 456 pontos, ficando 44 pontos abaixo da média internacional de 500 pontos.

Ademais, os resultados apresentaram disparidades significativas entre as crianças avaliadas, evidenciando desigualdades já na conclusão da pré-escola e diferenças notáveis em numeracia.

Enquanto 80% das crianças de alto nível socioeconômico demonstram domínio no reconhecimento de numerais, esse índice decai para 68% entre crianças de baixo nível socioeconômico.

Recorte racial e de gênero

No âmbito da pesquisa da OCDE, o Brasil se destacou por ser o único país a realizar um recorte racial dos resultados, analisando seu impacto na aprendizagem e no bem-estar infantil.

Os dados revelam a acumulação de desigualdades relacionadas a gênero, raça e nível socioeconômico.

Meninos, crianças pretas, pardas e indígenas, e aquelas de menor nível socioeconômico enfrentam maiores desafios de aprendizagem ao final da educação infantil.

Crianças pretas, cujas famílias são beneficiárias do programa Bolsa Família e que pertencem a estratos socioeconômicos mais baixos, apresentaram as pontuações mais baixas em quase todas as dimensões investigadas, especialmente nos domínios de memória de trabalho e noções matemáticas.

As disparidades no Brasil tornam-se mais evidentes na comparação entre crianças brancas e pretas. As crianças brancas exibem uma vantagem de 17 pontos no domínio da linguagem e uma diferença ainda mais acentuada de 40 pontos em numeracia.

Telas e aprendizado

O uso de tecnologias digitais é amplamente difundido entre crianças pequenas nos estados pesquisados no Brasil, conforme constatado pela primeira vez pelo estudo IELS-2025.

Embora a pesquisa não detalhe a duração diária da exposição às telas, pais ou responsáveis informaram que 50,4% das crianças utilizam dispositivos digitais diariamente, como computadores, notebooks, tablets ou celulares, excluindo a televisão.

O percentual brasileiro, divulgado pela primeira vez, é superior à média observada nos países participantes do IELS, onde 46% das famílias reportaram o uso diário de telas de dispositivos digitais.

No Brasil, apenas 11,4% das crianças participantes do estudo raramente ou nunca utilizam “telas”.

Os dados do estudo reforçam a importância de um uso mediado e equilibrado das tecnologias.

Tiago Bartholo, pesquisador da UFRJ, aponta que crianças com uso diário de telas apresentam um desenvolvimento e aprendizado médio inferior em comparação àquelas com menos exposição, especialmente em compreensão de leitura, escrita e noções matemáticas.

“Uma coisa é uma criança fazer um uso diário de 30 minutos, uma coisa muito diferente fazer um uso diário de três a quatro horas. E a gente sabe que esse tipo de comportamento existe.”

Outro ponto destacado pela pesquisa internacional sobre o uso de dispositivos digitais é a baixa frequência de atividades educativas associadas a eles no Brasil.

Cerca de 62% das crianças raramente ou nunca realizam atividades educativas em computadores, tablets ou celulares, enquanto apenas 19% os utilizam com esse propósito educativo entre três a sete vezes por semana.

Crianças saem menos de casa

A realização de atividades ao ar livre, como passeios, brincadeiras livres e outras formas de lazer, é comum para apenas 37% das famílias, um índice abaixo da média de 46% nos países participantes do IELS.

Por outro lado, 29% das famílias afirmam nunca realizar esse tipo de atividade ou fazê-la menos de uma vez por semana.

Contudo, o estudo ressalta que o acesso das crianças a experiências fora de casa, como brincadeiras ao ar livre, visitas a bibliotecas, cursos, oficinas e aulas de música, dança ou esportes, “são experiências importantes para a exploração do ambiente e para o desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional, além de contribuírem para a criatividade, a resolução de problemas e a socialização”.

As razões observadas no IELS podem refletir barreiras como “custo, tempo, disponibilidade local de equipamentos culturais, esportivos ou de áreas verdes e hábitos familiares.”

Diante disso, Tiago Bartholo, pesquisador da UFRJ, defende que a prática de atividades físicas seja primariamente oferecida no ambiente escolar, sendo considerada crucial para o desenvolvimento infantil.

“A prática regular de atividade física está associada com melhores indicadores de saúde física e mental e está associada com mais cognição e tem impacto brutal na memória de trabalho.”

No Brasil, as famílias relatam menor frequência de outras atividades e interações que promovem o desenvolvimento infantil, como cantar, declamar poemas ou rimas, desenhar ou pintar com a criança, estimular a imaginação ou o faz de conta, e contar histórias não presentes em livros.

Ouvir a criança

Mais da metade das famílias (56%) relata que conversa com as crianças sobre seus sentimentos entre três e sete dias por semana.

No entanto, essa comunicação sobre emoções entre crianças e adultos brasileiros ocorre com menor frequência do que a média internacional, que atinge 76%.

O estudo explica que, durante a primeira infância, a discussão sobre sentimentos, o compartilhamento de materiais ou a resolução de pequenos conflitos “são oportunidades importantes para que as crianças aprendam a compreender as emoções e a construir relações sociais positivas. são relevantes porque fortalecem vínculos afetivos.”

Os domínios relacionados à empatia apresentaram pontuações mais elevadas em comparação à média internacional, com 501 pontos em atribuição de emoções e 491 pontos em identificação de emoções.

Funções executivas

As funções executivas avaliadas no estudo compreendem as habilidades cognitivas das crianças da educação infantil que lhes permitem planejar, concentrar a atenção, memorizar instruções e gerenciar múltiplas tarefas simultaneamente.

A memória de trabalho (capacidade de reter e manipular informações) destaca-se como o domínio mais impactado pelo nível socioeconômico, com uma diferença de 39 pontos entre crianças de nível alto e baixo, considerada uma disparidade expressiva.

As médias brasileiras nos três domínios avaliados (memória de trabalho, controle inibitório e flexibilidade mental) situam-se abaixo da média internacional, com diferenças classificadas como moderadas a grandes e estatisticamente significativas.

OCDE

Atualmente, o Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-estar na Primeira Infância está em seu segundo ciclo e inclui o Brasil, Azerbaijão, Bélgica, China, Coreia do Sul, Emirados Árabes Unidos, Holanda e Malta e Inglaterra.

O Brasil foi o único país da América Latina a participar desta pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

No Brasil, a condução do levantamento contou com o apoio de um consórcio de instituições, liderado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

FONTE/CRÉDITOS: Daniella Almeida - Repórter da Agência Brasil
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