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Terça-feira, 11 de Agosto 2026
Política

Pesquisa revela que violência política de gênero afeta a maioria das vereadoras nas câmaras

Estudo da Rede A Ponte mostra que a maior parte dos ataques ocorre nas próprias Casas Legislativas e tem como principais agressores colegas de partido.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Pesquisa revela que violência política de gênero afeta a maioria das vereadoras nas câmaras
© Tomaz Silva/Agência Brasil
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Um levantamento inédito da Rede A Ponte divulgado nesta terça-feira (11) apontou que a violência política de gênero atinge a maioria das vereadoras brasileiras, ocorrendo predominantemente no ambiente da própria Câmara Municipal. A pesquisa ouviu mais de 70 parlamentares e revelou que o problema afeta 60% das parlamentares brancas e 80% das negras, expondo as graves barreiras enfrentadas por mulheres no exercício do mandato.

Mesmo com a sanção da Lei 14.192/2021, criada para assegurar os direitos políticos femininos, homens brancos cisgêneros figuram como responsáveis por 80% dos casos de agressão registrada.

De acordo com o relatório intitulado Raio X da Violência Política de Gênero e Raça no Legislativo Municipal, 64% das abordagens hostis acontecem durante o próprio exercício do mandato legislativo.

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Além disso, cerca de 34% das situações relatadas envolvem o chamado "fogo amigo", conjuntura na qual a conduta violenta parte de colegas do próprio partido da vítima.

Manifestações e tipos de agressões

As agressões psicológicas lideram as estatísticas do estudo, afetando 89% das vítimas por meio de cortes de microfone, interrupções sistemáticas, humilhação pública e ataques no ambiente digital.

Logo em seguida, a violência simbólica atinge 82% das parlamentares, resultando na exclusão frequente dos espaços de tomada de decisão e provocando um forte efeito de autocensura.

O levantamento indica ainda que 59% das mulheres relatam sofrer violência moral, marcada por injúrias, calúnias e difamações direcionadas a descredibilizar a atuação do mandato.

Ataques focados na identidade de gênero, raça e orientação sexual atingem 30% das parlamentares. O estudo descreve também outras dimensões recorrentes dessa violência:

  • Violência econômica: corte, desvio ou retenção indevida de repasses e recursos partidários;
  • Violência processual: abertura de processos e denúncias sem respaldo técnico para gerar desgaste de imagem;
  • Assédio sexual: toques corporais sem autorização e vinculação de articulações políticas a favores sexuais;
  • Violência física: episódios de agressão direta, ameaças e tentativas de feminicídio.

Acomodação partidária e omissão estatal

Segundo a diretora-executiva da Rede A Ponte, Amanda de Albuquerque, o desamparo surge logo após a eleição, momento em que as parlamentares costumam ser abandonadas pelas próprias legendas.

A resposta das instituições estatais também se mostra insuficiente. De 44 registros formais sobre opressão de gênero e raça, apenas 12 avançaram para denúncias oficiais, mas nenhum resultou em punição na Justiça ou nos partidos.

A gestora de Mobilização e Articulação Política da entidade, Lauana Chantal, ressalta que essa conduta compromete diretamente a qualidade da democracia e reduz a representatividade no país.

Para a especialista, a imprensa cumpre papel estratégico ao dar visibilidade a esse problema público, permitindo que a sociedade civil organizada cobre respostas e responsabilização dos governos.

Isolamento e desestímulo à permanência

As vereadoras ouvidas pela pesquisa denunciaram uma tentativa sistemática de invisibilizar sua atuação. A naturalização dos comportamentos agressivos força a saída prematura de muitas mulheres da vida pública.

Nas redes sociais, a proliferação de ofensas misóginas afeta a saúde mental das parlamentares, tornando a continuidade no cargo um desafio complexo sem o apoio de redes de proteção.

A apreensão estende-se ao cotidiano fora do plenário. Em municípios menores, vereadoras chegam a ser abordadas nas ruas por homens que questionam duramente seus posicionamentos políticos.

Para acionar as sanções previstas no Código Eleitoral, a denúncia precisa tramitar pelo Ministério Público até a Justiça Eleitoral, processo dificultado pela falta de identificação da violência por parte da população.

Sub-representação nos dados do TSE

Com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entre 2000 e 2024, o relatório aponta que as mulheres ocuparam apenas 18,2% das vagas nas câmaras municipais na última eleição.

Em 734 municípios brasileiros, nenhuma mulher foi eleita. O cenário é ainda mais crítico para mulheres negras, que ocupam 7,5% dos assentos, embora representem 28% da população do país.

Em 2024, mais da metade das cidades brasileiras não elegeu vereadoras negras. Apenas 5% das candidatas negras obtiveram sucesso nas urnas, contra 19% de eleição entre homens brancos.

A sub-representação é ainda maior entre mulheres indígenas: das 924 candidatas em 2024, apenas 39 foram eleitas (0,07% das vagas), número dez vezes inferior à proporção indígena na população nacional.

FONTE/CRÉDITOS: Alana Gandra - repórter da Agência Brasil
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