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Quarta-feira, 29 de Abril 2026
Direitos Humanos

Relatório da RSF aponta desafios para o futuro do jornalismo de qualidade

Apoio estatal e letramento midiático são algumas das recomendações da organização Repórteres Sem Fronteiras.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Relatório da RSF aponta desafios para o futuro do jornalismo de qualidade
© Bruno Peres/Agência Brasil
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Um relatório divulgado pela organização não governamental Repórteres sem Fronteira (RSF) enfatiza o combate à desinformação e o fomento à educação midiática como medidas cruciais para assegurar um jornalismo íntegro e confiável na próxima década.

O documento recém-publicado contribui para as discussões sobre a profissão, que no Brasil foi celebrada nesta terça-feira, 7, como o Dia do Jornalista.

A instituição delineia quatro cenários hipotéticos para o futuro do jornalismo no Brasil em dez anos e apresenta seis estratégias possíveis para que a sociedade possa contar com um “jornalismo íntegro e de confiança” ao final desse período.

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Os quatro cenários, elaborados pelo Laboratório de Estudos sobre Organização da Pesquisa e da Inovação (Lab-GEOPI) da Unicamp em parceria com a RSF, diferenciam-se pelo domínio das plataformas digitais, pelo fortalecimento do jornalismo, pela alta fragmentação da informação produzida e pelo declínio da atividade jornalística.

“O futuro, provavelmente, será uma combinação dos elementos dos diferentes cenários, em vez de um cenário isolado”, afirma Sérgio Lüdtke, coordenador de Projetos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e editor-chefe do Projeto Comprova, que integrou o comitê consultivo do projeto da RSF.

As seis estratégias propostas incluem:

  • Disseminar amplamente o método jornalístico;
  • Combater ativamente a desinformação;
  • Fortalecer a colaboração entre organizações jornalísticas e universidades;
  • Diversificar os modelos de financiamento do jornalismo;
  • Investir em educação midiática;
  • Defender a regulamentação do jornalismo.

Desafios

Segundo a entidade, os riscos à comunicação virtual, decorrentes da falta de distinção clara entre notícia, opinião, desinformação e propaganda em um contexto político polarizado, são uma realidade presente que molda toda essa construção.

A isso se soma o fato de que as pessoas tendem a reforçar suas crenças com base no que percebem como realidade, influenciadas pelo conteúdo selecionado pelos algoritmos das redes sociais.

“O método jornalístico é um elemento central para a compreensão da realidade e do debate público, sendo essencial para a qualidade democrática”, resume Artur Romeu, diretor do escritório da RSF para América Latina, na apresentação do relatório.

Plataformas digitais

Para Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, o futuro aponta para um cenário de predominância das plataformas digitais.

“Desde os grandes veículos [de comunicação] até a chamada mídia independente alternativa, todos dependem das plataformas digitais para veicular sua produção jornalística.”

Ela, que também participou do comitê consultivo, observa que o jornalismo se tornou refém das políticas algorítmicas dos meios digitais. “Essas [plataformas] são controladas por empresas multinacionais com total falta de transparência em suas políticas algorítmicas.”

De acordo com o diretor do escritório da RSF, Artur Romeu, o jornalismo passa a operar sob as regras cada vez mais definidas por essas grandes corporações.

“[O jornalismo] torna-se dependente dos canais de distribuição das plataformas digitais, à medida que um número crescente de pessoas consome notícias e informações por meio dessas plataformas.”

O efeito da “plataformização” resulta na desvalorização do jornalismo, que passou a competir “de igual para igual com a desinformação e com a propaganda, sendo visto como apenas mais uma narrativa”, acrescenta Sérgio Lüdtke.

Ele complementa que o uso da inteligência artificial pode intensificar o esvaziamento da profissão e levar à substituição de jornalistas em tarefas de apuração e redação.

Outros riscos

Além do domínio das plataformas digitais, outros riscos foram identificados, como o ambiente político altamente polarizado; a histórica concentração da mídia no Brasil; o baixo letramento midiático e a insuficiente escolaridade da população.

Existem também ameaças no cotidiano da comunicação, como a desregulamentação da profissão de jornalista; a precarização e o enxugamento das redações; a perseguição a profissionais (especialmente mulheres); a censura e a autocensura de repórteres e editores; a substituição de jornalistas qualificados por influenciadores; a preferência por conteúdos superficiais em busca de maior audiência; e, como consequência, visões fragmentadas da realidade.

Informação confiável

O relatório ressalta a necessidade de uma maior atuação do Estado como agente legislador para o funcionamento das plataformas digitais, regulador das atividades jornalísticas e promotor da atividade jornalística, especialmente em regiões com carência de notícias e ausência de veículos de comunicação.

O documento enfatiza a importância da colaboração com as universidades, tanto para a atualização da formação de jornalistas frente aos cenários e estratégias delineados quanto para o desenvolvimento da educação midiática.

Sérgio Monteiro Salles Filho, professor titular do Departamento de Política Científica da Unicamp e membro do Lab-GEOPI, que elaborou o relatório para a RSF, sugere a criação de “selos” para certificar o trabalho jornalístico.

Isso serviria como um indicativo para o público consumidor de notícias de que “processos de integridade e confiabilidade estão sendo respeitados” e que a matéria jornalística passou por “checagem e apuração”.

“Esta não é uma agenda exclusiva de jornalistas e meios de comunicação, mas sim uma agenda para garantir o direito de cada pessoa, cada brasileiro, ao acesso à informação livre, plural e independente.”

Nesse sentido, o relatório menciona, na página 18, a relevância da Agência Brasil e das agências estaduais como importantes centros de curadoria e distribuição de informação confiável, assegurando o acesso a fatos verificados e a conteúdos de produção humana.

“Seus produtos possuem alta capilaridade, permitindo que veículos locais e hiperlocais divulguem decisões públicas no noticiário diário das comunidades”, destaca o relatório.

A Repórteres sem Fronteiras mantém sua sede em Paris e opera com 14 escritórios regionais em todos os continentes, além de contar com uma rede de correspondentes em 150 países.

Além do Brasil, um estudo similar foi realizado na França. “Os resultados não são muito diferentes. As possibilidades de futuro estão atravessadas pelos mesmos imperativos do presente”, compara o diretor do escritório da RSF para América Latina, Artur Romeu.

FONTE/CRÉDITOS: Gilberto Costa - Repórter da Agência Brasil
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