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Terça-feira, 21 de Abril 2026
Direitos Humanos

Crianças quilombolas enfrentam escuridão para alcançar a educação

Pesquisadores do Incra realizaram levantamentos na comunidade em Goiás nesta semana.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Crianças quilombolas enfrentam escuridão para alcançar a educação
© Valter Campanato/Agência Brasil
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Ao amanhecer, por volta das 4h30, quando o som do Córrego da Inês se torna mais perceptível, o pequeno Aleandro, de 6 anos, desperta ansioso para ir à escola. Ele arruma seu uniforme e se junta aos irmãos mais velhos, Alecssandro (7) e Tawane (15). Juntos, eles iniciam uma jornada de aproximadamente 50 minutos, percorrendo quase dois quilômetros de subida em meio à escuridão. O trajeto é feito por uma estrada de terra estreita e irregular, repleta de pedras e cascalhos, serpenteando pelo cerrado.

Os estudantes da comunidade quilombola Antinha de Baixo, localizada na zona rural de Santo Antônio do Descoberto (GO), precisam ser ágeis para não perder o transporte escolar, uma kombi que passa às 6h10. Este veículo leva cerca de 12 crianças da região até as escolas municipais no centro da cidade, a uma distância de aproximadamente 15 km. A situação, no entanto, já foi consideravelmente mais difícil.

Raízes profundas e lutas pela terra

Os pais das crianças, os agricultores Roberto Braga, 42, e Mayara Soares, 35, expressam orgulho pelo trajeto que seus filhos iniciam, tanto na estrada quanto na vida. Eles relatam ter abandonado os estudos por falta de qualquer suporte para se deslocar até a cidade.

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Joaquim Moreira, avô das crianças, reside com a família. Aos 87 anos, ele é o morador mais antigo da comunidade e vive na mesma casa onde nasceu. Ao observar os netos se preparando para ir à escola, ele manifesta a esperança de que as novas gerações não enfrentem as mesmas adversidades do passado.

Seu Joaquim, como é conhecido na localidade, foi quem recebeu no ano passado, em Brasília (DF), o certificado de autorreconhecimento como comunidade remanescente de quilombo. Atualmente, cerca de 400 famílias residem no local.

Este documento trouxe um sopro de esperança para a comunidade, após uma prolongada disputa judicial em que fazendeiros e grileiros reivindicavam a posse do território. Houve casos em que casas de quilombolas foram demolidas após decisões desfavoráveis, mas uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu os despejos. Adicionalmente, os moradores relataram ter sido alvo de ameaças constantes por indivíduos armados.

Recentemente, equipes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), incluindo antropólogos, estiveram na comunidade para a elaboração do Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID) de Antinha de Baixo. O órgão informou que o levantamento abrange estudos técnicos e científicos para caracterizar a área, reunindo informações geográficas, históricas e etnográficas.

A certificação é vista como um avanço significativo, aproximando a comunidade da possibilidade de demarcação e titulação de seu território. Além disso, a certificação já incentiva a busca por políticas públicas que atendam às necessidades dos moradores, incluindo as famílias cujos filhos mais novos precisam acordar cedo para ir à escola.

“Ainda é muito complicado para eles irem estudar”, lamenta a mãe, Mayara. O pai complementa, desejando alguma iluminação para a estrada: “Hoje é muito escuro”, afirma.

Um futuro de aprendizado

Para os irmãos Aleandro e Alecssandro, a escola representa não apenas um local de aprendizado, mas também de novas amizades. Por isso, eles consideram que vale a pena a caminhada noturna.

Aleandro mostra orgulhoso seu caderno com as primeiras sílabas copiadas do quadro. A família nutre a expectativa de que os meninos aprendam a ler ainda neste ano.

As aulas se estendem até as 11h, mas o retorno para casa só ocorre após as 13h30. Nenhum morador pode frequentar as aulas no período da tarde, pois não há transporte disponível para o trajeto de volta. Em dias de chuvas intensas, situação não rara, o transporte torna-se praticamente inviável.

Superando obstáculos

A irmã mais velha, Tawane, de 15 anos, que cursa a sétima série, enfrentou dificuldades consideráveis no percurso. Há três anos, para chegar à escola, era necessário cruzar um córrego para alcançar o transporte que a levaria ao centro da cidade, resultando em chegada ao colégio com as roupas molhadas. Após reclamações da mãe à prefeitura, um veículo adicional passou a atender outra parte da comunidade.

“Eles não queriam vir buscar desse lado de cá. E a gente tinha que atravessar. Quando chovia à noite, era impossível ir para escola”, recorda Mayara. Atualmente, a filha demonstra apreço por português e ciências, e sonha em cursar veterinária, o que a tornaria a primeira da família a ingressar no ensino superior.

Do outro lado do rio, Débora, de 6 anos, está aprendendo as primeiras letras e também madruga para ir à escola. Além das atividades escolares, ela se diverte no recreio com jogos de pega-pega com as colegas.

Em seu caderno, além das letras, Débora dedica espaço a desenhos, especialmente de flores, inspiradas pelas paisagens ao redor de sua casa. “Meu caderno é todo cheio de folhas”. Miguel, primo de Débora, também com 6 anos, aprecia os momentos de futebol e diversão com os amigos na escola.

Atualmente, três veículos transportam aproximadamente 40 alunos da comunidade para as escolas. Contudo, as longas distâncias diárias percorridas pelas crianças geram cansaço.

Lutas e anseios familiares

Willianderson Moreira, irmão de Débora, preside a associação de famílias da comunidade quilombola Antinha de Baixo. A associação, que obteve registro oficial recentemente, conta com 120 membros dedicados a lutar pela melhoria das condições do local, refúgio de seus ancestrais escravizados.

“Quando o Incra fizer a desapropriação da área, vai ser emitido um título particular para a associação administrar a área. Então são os associados que vão tomar conta de todo o território”, explica.

A associação projeta que a demarcação e titulação do território ocorram em 2027.

Moreira destaca as prioridades da comunidade: creche, escola, posto de saúde, iluminação pública, estradas de qualidade, transporte, fomento à agricultura familiar e segurança.

Em relação às vias de acesso, a comunidade já protocolou um ofício na prefeitura. O encaminhamento das demandas conta com o apoio da professora Railda Oliveira, ativista e liderança comunitária em Santo Antônio do Descoberto.

Foi Railda quem auxiliou na organização dos documentos e explicou a importância da certificação para a proteção do modo de vida quilombola.

“Essa comunidade passou por uma situação muito difícil e estiveram bem perto de serem retirados daqui. Hoje, já começaram a respirar”, afirma Railda.

A reportagem da Agência Brasil contatou a prefeitura de Santo Antônio do Descoberto e o governo de Goiás em busca de informações sobre políticas públicas para a comunidade. Até o momento da publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para manifestações do poder público.

Saúde e bem-estar em risco

Os moradores de Antinha de Baixo relatam viver em constante apreensão diante de qualquer febre entre crianças e idosos, dada a ausência de transporte público e a dependência da solidariedade de poucos vizinhos com veículos para buscar ajuda. “Já tivemos que sair de madrugada procurando ajuda pelos meus filhos e pelo meu pai”, relata Roberto Braga. Agentes de saúde não conseguem chegar às residências, e o hospital mais próximo fica a 20 quilômetros de distância.

“Quem não tem carro e não consegue ajuda fica só rezando mesmo”, lamenta Willianderson Moreira.

Os trabalhadores rurais também necessitam de suporte, mesmo em uma área ainda preservada. O Córrego da Inês, que em tempos de infância de Mayara e Roberto era um rio caudaloso, hoje está seco. “Meu pai até tirava areia para vender e a areia também acabou. Hoje o dia é muito mais seco do que antes”, constata Mayara.

Roberto, apesar de não ter completado os estudos, recorda-se de uma mata circundante à sua casa que oferecia uma variedade de frutos muito maior do que a atual. “Hoje está tão seco que não tem mais fruta-de-ema, bacupari, gabiroba… O que ainda ficou é o caju do cerrado. Meus filhos têm menos opção do que eu tive em relação a isso”.

As mudanças climáticas podem não ser a única causa. A comunidade alega que a instalação de fazendeiros e grileiros na região resultou no uso de agrotóxicos, prejudicando a vegetação nativa.

Ainda assim, as crianças não se imaginam vivendo longe da liberdade do campo. Débora expressa seu contentamento com a plantação de milho próxima de sua casa. “É muito bom morar aqui. Tem várias coisas pra fazer. Tem como debulhar o milho e, quando está no ponto, dá pra fazer pamonha”, diz a menina com um sorriso.

Rejane Moreira, 41 anos, mãe de Débora e Willianderson, nasceu e foi criada na mesma casa. Ela não teve a oportunidade de prosseguir com os estudos após o fechamento de uma escola rural. “Estudei até a quarta série”.

Desafios educacionais e resiliência

Ana Clity Vieira, 57 anos, vendedora autônoma, é outra moradora que luta para concluir sua formação. Ela participa de um curso do programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) no centro de Santo Antônio do Descoberto. Em uma ocasião, a reportagem da Agência Brasil a encontrou chorando ao não conseguir realizar provas para avançar na sétima série por falta de transporte. Quando consegue estudar, precisa pernoitar na casa de colegas, pois não há como retornar para casa.

No ano passado, quando fazendeiros obtiveram sucesso na desapropriação de terras quilombolas, a casa de Ana só não foi demolida porque seguranças a utilizaram como ponto de apoio. “Eu fui a primeira pessoa expulsa”. Ela precisou se mudar para o centro da cidade, alugando um imóvel e acumulando dívidas. Após a decisão do STF, retornou à sua casa e hoje sobrevive da venda de produtos que cultiva.

“Aqui eu posso criar minhas galinhas, plantar minhas coisinhas, como o açafrão e fazer azeite de mamona para vender”.

Ana planeja usar os recursos da venda de produtos da terra para realizar dois sonhos: abrir uma loja e escrever um livro sobre sua trajetória, narrando as dificuldades enfrentadas em busca do aprendizado e as dores da vida. O livro, ainda sem data para ser escrito, já tem título: Resistência. Ela também aguarda o título de propriedade da terra.

Entre as lágrimas, há também as lembranças da perda de uma irmã atropelada. Com a indenização recebida, Ana conseguiu construir sua casa na comunidade. As dores da infância, marcadas pela fome após o abandono do pai, também compõem sua história.

Jéssica Gonçalves, 35 anos, dona de casa e mãe de Henrique, o bebê de oito meses da comunidade, enfrenta hoje a impossibilidade de trabalhar fora devido à falta de creche próxima. Ela anseia que o filho cresça em um território demarcado e seguro, com acesso a oportunidades que ela própria não teve. Contudo, Jéssica considera fundamental que Henrique conheça a história de sua comunidade e as lutas travadas em busca de um futuro melhor.

FONTE/CRÉDITOS: Luiz Claudio Ferreira – Repórter da Agência Brasil
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