Quase 45 anos após o ocorrido, o governo federal emitiu um **pedido de desculpas** oficial pelo desaparecimento forçado de **Paulo de Tarso Celestino**, ex-aluno da Universidade de Brasília (UnB) e militante político durante a **ditadura militar**. A cerimônia de reparação histórica ocorreu no campus da universidade, reunindo familiares, autoridades e a comunidade acadêmica para honrar a memória do advogado, capturado aos 27 anos pela repressão estatal.
O evento contou com a participação de representantes da Comissão de Anistia e da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos. Segundo o Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, a ação busca promover uma justiça simbólica que atenda não apenas aos parentes diretos de Celestino, mas a toda a sociedade brasileira, diante das graves violações cometidas no passado.
Natural de Goiás e filho de um parlamentar cassado pelo AI-5, Paulo de Tarso concluiu sua graduação em Direito em 1969. Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), ele chegou a realizar estudos de pós-graduação na França antes de retornar ao Brasil. Sua trajetória foi interrompida em julho de 1971, quando foi detido por agentes do DOI-CODI no Rio de Janeiro.
De acordo com registros do portal Memórias da Ditadura e depoimentos de sobreviventes, como Inês Etienne Romeu, o estudante foi levado para a "Casa da Morte", um centro clandestino do Exército em Petrópolis. No local, Celestino foi submetido a sessões brutais de tortura, incluindo o uso de pau-de-arara e a ingestão forçada de sal, enquanto lhe era negado o acesso a água.
Investigações da Comissão da Verdade indicam que as vítimas executadas nesse centro de detenção tinham seus corpos esquartejados para ocultar evidências e dificultar a identificação dos restos mortais. Oficialmente, a morte de Paulo de Tarso só foi reconhecida pelo Estado em 1995, amparada pela Lei 9.140, que trata de pessoas detidas por agentes públicos no período.
Reconhecimento da responsabilidade estatal
Durante a solenidade, a ministra dos Direitos Humanos e Cidadania, Janine Melo, formalizou o reconhecimento da culpa do Estado pelas atrocidades cometidas. Para a ministra, o momento é crucial para que o país confronte sua própria história e garanta que as novas gerações tenham acesso à verdade sobre o destino das vítimas do autoritarismo.
Melo destacou que o desaparecimento de Celestino é um dos exemplos mais cruéis da violência institucional. Segundo ela, a falta de informações definitivas sobre o paradeiro do ex-estudante ainda impede que a família complete o ciclo de luto, representando um desafio contínuo para a busca por memória e justiça no Brasil.
A ministra, que também é egressa da UnB, reforçou que o ato faz parte de uma estratégia de reparação simbólica conduzida pela pasta. Ela pontuou que as estruturas que permitiram tais abusos não foram totalmente desmanteladas com a redemocratização, exigindo políticas permanentes de fortalecimento dos direitos humanos.
A reitora da UnB, Rozana Naves, relembrou o impacto da repressão dentro das instituições de ensino superior. Para a dirigente, celebrar a vida de Paulo de Tarso é reafirmar o compromisso com a autonomia universitária, a liberdade de pensamento e a resistência contra qualquer forma de autoritarismo no ambiente acadêmico.
Naves encerrou o ato afirmando que a presença da memória de Celestino convoca a universidade a seguir defendendo a justiça e a democracia. Para a reitora, o legado daqueles que lutaram no passado é o que sustenta a capacidade atual da instituição de produzir conhecimento crítico e participar ativamente da vida pública nacional.