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Segunda-feira, 02 de Fevereiro 2026

Direitos Humanos

Viúva luta contra a fome e o luto após operação policial mais letal do Rio

Fernanda, cujo marido foi uma das 122 vítimas da ação policial na Vila Cruzeiro, relata dificuldades financeiras e emocionais três meses após o ocorrido.

João Vitor  : Opina News / MTB 0098325/SP
Por João Vitor : Opina News /...
Viúva luta contra a fome e o luto após operação policial mais letal do Rio
© Tomaz Silva/Agência Brasil
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A mulher que teve seu momento de profunda dor registrado ao fechar os olhos do companheiro falecido, em meio a uma fileira de corpos, é Fernanda da Silva Martins.

A fotografia tirada pelo repórter Tomaz Silva, da Agência Brasil, que capturou o desespero da viúva de 35 anos, ganhou o mundo. A imagem foi amplamente divulgada em veículos de comunicação nacionais e internacionais, tornando-se um símbolo da operação policial mais sangrenta na história do Rio de Janeiro.

A ação, realizada pelo governo estadual com o objetivo de desarticular a facção criminosa Comando Vermelho, resultou na morte de 122 pessoas entre os dias 28 e 29 de outubro de 2025, incluindo cinco agentes de segurança.

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Os confrontos se espalharam por toda a cidade e adentraram a madrugada na Serra da Misericórdia, uma área desabitada entre os complexos do Alemão e da Penha. Nesse local, familiares de vítimas e defensores dos direitos humanos apontaram indícios de execuções.

Por outro lado, as autoridades policiais sustentaram que os mortos eram criminosos que resistiram à prisão e atacaram os agentes. O governador Cláudio Castro classificou a operação como um sucesso.

Após a incursão, residentes do Complexo da Penha removeram cerca de 80 corpos de uma área de mata e os dispuseram em uma rua na Vila Cruzeiro. Os corpos permaneceram ali por horas, expostos a vizinhos e familiares, antes de serem levados ao Instituto Médico Legal.

Considerando a situação de Fernanda no momento da foto, a Agência Brasil, seguindo sua política editorial, optou por não contatar parentes das vítimas. Três meses depois, a reportagem a reencontrou em sua residência no Complexo do Alemão, onde vive com três de seus quatro filhos, com idades de 15, 11 e 8 anos.

Ela descreve a imagem capturada pela Agência Brasil como o ápice de seu sofrimento. Apesar das circunstâncias em que foi fotografada, Fernanda acredita que a repercussão da foto deu visibilidade à sua dor.

“Sentiram a minha dor naquele momento. Muitas pessoas me julgaram, mas outras se compadeceram. A foto expressava um sentimento genuíno”, avaliou.

“Não importa o que pensaram sobre mim. Perdi o amor da minha vida, o pai dos meus filhos, o homem que me dava esperança”.

Ao recordar o momento, ela expressa tristeza com o estado do corpo do seu companheiro. Fernanda relata que, embora ele fizesse parte da facção, o corpo apresentava marcas que iam além de ferimentos de confronto.

“Ele não morreu apenas de tiro. Levou uma facada no braço e teve o pescoço quebrado. O tiro fatal foi dado depois, nas costas”, revelou. “Não busquei ajuda de ninguém, não tenho suporte”.

Depressão e fome

Desde a perda de seu companheiro, com quem esteve por 14 anos, o maior desafio de Fernanda é simplesmente levantar da cama. Ela sofre de depressão e síndrome do pânico, tendo sido internada após uma tentativa de suicídio após ficar viúva.

“Emagreci drasticamente, passo dias sem comer, choro, desmaio, tem sido muito difícil”, confessou.

Seus dois filhos mais novos, Anna Clara, de 11 anos, e Ivan, de 8, são sua força motriz, desabafa. Sua filha mais velha, de 18 anos, reside com a avó, e o segundo filho mais velho, de 15, mora com o pai.

“Juro por Deus, levantei hoje pela misericórdia. O menino estava com fome. Ele me acordou dizendo: ‘mamãe, estou com fome’. Não durmo há dois dias, vivo à base de medicamentos”.

O escasso sustento da família provém do Bolsa Família, mas com duas crianças em casa, os mantimentos se esgotam rapidamente.

“Meu marido sustentava tudo. Agora, dependemos principalmente de miojo, pois realmente não temos mais recursos”.

A busca por sustento é dificultada pela sua pouca escolaridade, apenas o ensino fundamental incompleto, e pela ausência de experiência profissional formal.

“Mas já trabalhei. Cuidei de uma senhora idosa, trabalhei em lanchonete e como diarista com minha mãe. Vendi cerveja no carnaval. Este ano não irei, ainda não consigo enfrentar o mundo, sabe?”, justifica. “Tive quatro filhos e sempre cuidei deles”.

Com o fim do período de merenda escolar para os filhos, o orçamento familiar diminuiu ainda mais. Uma das soluções foi enviar Clara para a casa da avó paterna, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense.

O filho que permaneceu em casa, Ivan, toma banho em um tanque para aliviar o calor e anseia por ir à praia.

“Ele me pergunta: ‘mãe, quanto custa a passagem para eu ir?’ Eu respondo: ‘é caro, são quatro passagens, não tenho condições’”.

Relacionamento

Quando iniciou o relacionamento com Leonardo Fernandes da Rocha, seu ex-marido, Fernanda afirma que desconhecia o envolvimento dele com a facção criminosa. Com o tempo, a família passou a depender dessa fonte de renda.

“Eu trabalhava em uma padaria e ganhava um salário. Mas tudo era meu. Do portão para dentro, ele era o provedor. Colocava comida em casa, pagava as contas, tratava bem meus filhos mais velhos. Não faltava nada. Internet, comida, gás, roupas, tudo ele providenciava, eu gastava comigo”.

O período mais desafiador foi o diagnóstico de câncer de Ivan, que na época tinha 3 anos. Fernanda conta que, juntos, ela e Leonardo buscaram alternativas para tirá-lo do crime, mas não encontraram outra forma de garantir o sustento e o tratamento do filho.

“Meu marido queria ter deixado essa vida. Vendeu moto, vendeu fuzil, quis vender nossa casa para pagar o tratamento do Ivan, mas não era possível. O médico disse a ele: ‘você pode vender até sua alma, mas não será suficiente’. Então, ele permaneceu no tráfico, e eu aceitei [o tráfico e as infidelidades]. Eu orava”, lamentou.

Após muita espera e ações judiciais, o caso foi encaminhado ao Instituto Nacional de Câncer (Inca), e uma cirurgia salvou a vida do menino.

“Meu filho ficou meses internado. Leonardo, apesar de se desdobrar e me chamar de louca, de surtada, por eu ir atrás dele, me apoiava, pagava os remédios e, no dia da cirurgia, chegou ao hospital em dez minutos”, relembrou.

Apoio familiar

Fernanda recebeu a reportagem na laje da residência de seus pais. O local, adornado com pés de maracujá, uma bananeira e ervas aromáticas como manjericão e hortelã, é o ponto mais fresco da casa, mantido por seu pai, Jocimar, um vendedor de 55 anos.

“Aqui não há pássaros, mas borboletas aparecem a toda hora”, brinca ela, buscando refúgio do sol forte.

A casa dos pais dela é uma das mais modestas da rua, relata. “Nossa casa é a mais pobre da rua porque, por muito tempo, meu pai foi dependente químico”.

“Nada permanecia em casa. Ele vendia tudo. Comprava crediário nas Casas Bahia e vendia móveis, televisão, telhas… Minha filha mais velha ia fazer uma festa de um ano. Ele vendeu todas as roupas dela, um conjunto jeans e uma sandália. Depois, acredito que por causa dessa situação, da minha filha, ele se arrependeu e parou”.

O incidente ocorreu há quase 20 anos, e Fernanda já o perdoou há muito tempo. São seus pais, Jocimar e Sônia, uma diarista de 59 anos, que a auxiliam quando falta comida em casa.

“Se não fosse pela minha família, eu não estaria mais aqui. Eles me ajudam como podem”.

Quanto ao futuro, Fernanda almeja deixar o Complexo do Alemão.

“Gostaria de proporcionar uma vida melhor para meus filhos. Não que aqui seja ruim, mas desejo que meus filhos prosperem, tenham um futuro que eu não tive”, afirmou.

Ela também expressa o desejo de abrir um pequeno salão para oferecer serviços de manicure e pedicure.

“Fiz cursos de cílios e sobrancelhas, tenho diplomas, só falta colocá-los em prática”. Atualmente, a prioridade é viver um dia de cada vez e garantir o sustento da família durante as férias escolares.

FONTE/CRÉDITOS: Isabela Vieira - Repórter da Agência Brasil
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